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O momento em que Michael Jackson se encontrou

Texto: NUNO GALOPIM

A história da música recorda dois muros célebres em 1979. Um surgia num álbum duplo dos Pink Floyd. O outro assinalava um renascimento de Michael Jacskon como estrela que transcendia os berços onde nascera.

Thriller pode ter sido o álbum mais bem-sucedido de Michael Jackson (e de toda a história da música pop). Mas nunca teria existido caso, antes, não tivesse havido um outro que, mais do que abrir caminhos, tivesse estabelecido uma série de ideias e factos que levaram o cantor bem para lá da imagem do rapazinho que cantava nos Jackson 5 e o estabelecesse como uma das figuras maiores do seu tempo. Editado em 1979, Off the Wall, que foi o primeiro de uma série de três álbuns históricos criados por Michael Jackson numa parceria próxima com Quincy Jones – os restantes tendo sido Thriller (1982) e Bad (1987) –, é um disco que, passados todos estes anos, exibe marcas de rara resistência à erosão que o passar do tempo tantas vezes lança sobre os discos. Apesar de claramente dividido entre uma assimilação dos ecos (contemporâneos) do disco sound e de refletir igualmente uma expressão do que eram os caminhos mais suaves do rhythm’n’blues de então (da balada imponente ao quiet storm, muito em voga), é um disco que não tomou as marcas instrumentais mais em voga como bandeira, focando antes a sua atenção nas canções (com arranjos que cruzavam a modernidade com um sentido classicista) e as expressões de afirmação de um intérprete vocal que ali encontra a sua assinatura.

O disco surge como consequência de uma sucessão de acontecimentos que começam a ganhar forma quando, sob pouca vontade da Motown em deixar os Jackson 5 gravar as suas próprias canções, os “manos” Jackson deixam a casa de Barry Gordy e encontram novo espaço de trabalho na CBS. Começam por gravar novos discos que ensaiam novas ideias, até que em Destiny (1978) descobrem na relação com o disco uma chave para uma mais eficaz reinvenção de um som, então já claramente distante dos êxitos iniciais, que, tal como a série de animação que os teve como personagens, era imagem que estava a ser difícil de ultrapassar. A vontade de Michael Jackson em gravar um disco verdadeiramente a solo (já que os álbuns em nome próprio que fizera em menino, na Motown, não eram senão expressões de um trabalho característico da editora) levou-o a pensar, antes de tudo mais, quem deveria ser o seu parceiro em estúdio. E quando ligou a Quincy Jones, que conhecera durante a produção do filme The Whiz (no qual Michael surgiu como ator), e este disse o “sim”, fez-se luz. E, mesmo que a editora tenha torcido inicialmente o nariz, ninguém se arrependeu da escolha.

Entre temas do próprio Michael, que começaram a gravar em primeiras maquetes em 1978 e uma série de outras canções trazidas por outros autores – entre as quais o tema Girlfriend, que McCartney tinha escrito há já algum tempo, e a pensar na voz do ainda pequeno Jackson –, Off the Wall ganhou forma. O lado A revela uma poderosa sucessão de canções disco de apelo irresistível para a pista de dança, entre os quais estão Don’t Stop ‘Til You Get Enough, Rock With You ou Working Day and Night. Seguem-se os momentos de trégua para emoção de escola soul, com She’s Out of My Life a definir o que seria depois a balada clássica à la Michael Jackson. E, no fim, Burn This Disco Out assegurava um fim retomando as linhas de abertura.

Ao fazer uma reedição de Off the Wall a editora juntou à edição em CD um DVD com o documentário de Spike Lee Michael Jackson’s Journey from Motown to Off the Wall que sublinha a existência deste álbum como a consequência última do processo de progressiva maturação que Michael Jackson, com e depois sem os irmãos, foi definindo ao longo dos anos 70. O filme, além de escutar os que com ele colaboraram no disco, de ouvir também pais e irmãos e ainda alguns músicos, como Pharrell Williams ou David Byrne, que refletem como este álbum os marcou, inclui imagens de época, a voz do próprio protagonista em entrevistas de arquivo e, como peça central da história, uma carta em que ele mesmo, a caminho de finais dos anos 70, deixa claro um programa de busca pela perfeição artística e performativa, claro sinal de que tinha definido um percurso e que sabia que apenas pelo trabalho e esforço lá chegaria. E a verdade é que chegou!

Michael Jackson
“Off The Wall”
CD + DVD Epic / Sony Music

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