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A vingança do aduaneiro

Texto: NUNO GALOPIM

Alvo da sátira dos seus pares no seu tempo, Henri Rousseau, pintor sem formação académica e de obra apenas tardia, é celebrado no Museu de Orsay como importante catalisador da noção de modernidade na arte.

"Eu Próprio, Retrato-Paisagem" (1890), de Henri Rousseau

Henri Roussseau (1844-1919) estava já longe de ser um jovem e tinha uma carreira profissional em marcha quando, em 1886, um dos seus quadros surgia na exposição organizada pela Societé des Independents, que juntava no edifício que acolhia provisoriamente a direção dos correios (em Paris) cerca de 500 obras que haviam sido rejeitadas pelo júri do Salon (que traduzia a essência do que era dado como marcante na criação artística da época). Sem júri, com inscrição garantida por um pagamento de 15 francos, esta exposição dos excluídos do Salon juntava muitos, sobretudo aqueles sem formação académica e cujo trabalho era desprovido de uma reflexão teórica. Entre eles estavam, naquele ano, Georges Seurat e Henri Rousseau.

Rousseau tinha já sido motivo de chacota no último Salon des Refusés, onde tinham sido expostos os recusados do Salon. Ali estava o seu Uma Noite de Carnaval, que valeu ao pintor críticas como sendo ingénuo, com capacidades insuficientes.


“Uma Noite de Carnaval” (1886)

É ignorado entre pares. Toulouse Lautrec faz tudo para o impedir de entrar na exposição de 1893. Matisse, um contemporâneo, ignorava a sua existência, como mais tarde recordaria um discípulo seu. Em 1907 a Comissão dos Independentes chega até a colocar as suas obras na secção de artes decorativas. Mas a crítica, a exclusão, a sátira, às quais reage sem deixar nunca nem de pintar nem de se afastar da sua linguagem (ou por teimosia ou por mera ingenuidade), acabam por sublinhar uma certa fama em construção. O que não o impede de, quando dá entrada no hospital onde morre aos 66 anos, vítima de uma septicemia, ser apontado como um paciente devastado pelo álcool.

Até que ponto terá a personalidade pública de Rousseau sido uma construção que, no fundo, faria o jogo dos intelectuais seus contemporâneos – como sugeriu o seu primeiro biógrafo – é facto que fica por esclarecer e que assim ajuda a definir uma mitologia que, nas palavras do próprio, traduzia a história de alguém que nunca pegara num pincel e tintas antes dos 42 anos, notando ainda quem o estudou que o facto de não ter tido formação académica foi fonte de complexos, que o levavam a atribuir as culpas dos factos passados aos pais que não reconheceram no filho a inclinação para as artes. A carreira de anos a fio na Alfândega, da qual se afastou com reforma antecipada em 1893, valeu sobretudo aos seus detratores um termo para o caracterizar: o aduaneiro.

Agora, 130 anos passados sobre aquela exposição de “independentes” na qual o seu quadro valeu gargalhadas, as filas fazem-se a alguns minutos de caminhada a pé desde a Place du Carroussel (onde essa exposição teve lugar), numa das propostas mais mediatizadas que o calendário das artes em Paris apresenta em 2016. Patente até 17 de julho entre salas do Museu de Orsay, a exposição Le Douanier Rousseau celebra a originalidade, visão e tenacidade com que Rousseau definiu uma obra contra os caminhos e as opiniões do seu tempo.

A exposição junta um pensamento sobre história da arte que fará pensar os seus contemporâneos, já que observa a obra de Rousseau – que aponta como um dos catalisadores da noção de modernidade – à luz não apenas das relações possíveis com as correntes artísticas do seu tempo, como nela encontra motivos para a integrar numa história possível do recurso ao arcaísmo. Este olhar acaba assim por integrar a pintura de Rousseau numa rede de referências que cruzam épocas e movimentos (e vale a pena lembrar que, no início do seu trabalho como pintor, passou dias a copiar telas do Louvre). Daí que, entre todos esses diálogos, uns feitos de afinidades, outros de complementaridades ou oposições, esta exposição, que antes de estar em Orsay passou já por Veneza, em 2015, junte às obras de Rousseau outras de pintores como, para citar apenas alguns, Seurat, Delaunay, Kandinsky e Picasso.


“A Encantadora de Serpentes” (1907)


“O Sonho” (1910)


“A Pequena Carroça do Père Junier” (1908)

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