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Entre as ideias e a necessidade de as arrumar

Texto: NUNO GALOPIM

Editado para surpresa de tudo e todos este domingo, o álbum “A Moon Shaped Pool” mostra-nos o melhor disco dos Radiohead desde que, entre 2000 e 2001 se reinventaram entre as visões de “Kid A” e “Amnesiac”.

Descobri os Radiohead com entusiasmo logo em 1993 com o álbum de estreia (toquei-o na XFM, escrevi sobre ele no jornal Blitz) e cresci em admiração pelos seus feitos seguintes, entre os magníficos The Bends (1995) e OK Computer (1997), acabando superlativamente rendido perante o díptico Kid A (2000) / Amnesiac (2001)… E depois deixei a atenção migrar para outros terrenos. Há dias regressei a In Rainbows, que me parece hoje bem mais interessante do que o que nele tinha encontrado há anos. É verdade: uma opinião sobre um disco nunca é definitiva. Pelo que, de uma forma ou de outra, eles acabam a reentrar nas nossas vidas sob um prisma diferente em alturas diversas. E por vezes nada como um novo estímulo para despertar velhas atenções. Ainda há poucas semanas senti isso com Prince, ao dar por mim a (re)descobrir o que me tinha escapado nos últimos anos e a verificar que os seus três mais recentes discos ficaram colados ao gira-discos (no caso de The Art Official Age) e leitor de CD (os dois Hit’N’Run) por dias a fio. E os primeiros sinais de que A Moon Shaped Pool vinha a caminho serviram precisamente para ir tirar os discos dos Radiohead da prateleira e fazer a revisão da matéria dada, para já sendo esse reavaliar (em alta) de In Rainbows e a confirmação – se é que fazia falta – de que Kid A continua a ser o meu preferido as conclusões tiradas desses mergulhos na memória. Entretanto o novo disco chegou. E é com ele que se faz a banda sonora do presente. E dela nascem estas palavras. Um pouco a quente (como não convém). Mas, quando o entusiasmo dita a agenda da relação com um disco, não há como lhe dizer não.

Ainda com uma potencial grande Bond Song recusada na memória recente, o primeiro encontro com Burn the Witch revelava o melhor aperitivo que os Radiohead tinham para um álbum novo em muitos anos (e com um daqueles telediscos para dar que falar). Ali se revelava uma canção de linhas mais claras (face ao que lembramos do mais recente The King of Limbs), arrumadas, porém plena de acontecimentos que a mistura soube ordenar no espaço, definindo planos que a audição consegue acompanhar. Logo depois, e com outro teledisco (este por Paul Thomas Anderson), Daydreaming sublinhava mais ainda a expectativa… O que vinha a caminho, se estivesse neste patamar, prometia um bom disco. E agora, ouvidas as 11 canções, fica aquele sabor bom que confirma o todo ao nível do que os aperitivos sugeriam.

Naquele que é o melhor disco que os Radiohead editam desde o díptico Kid A/Amnesiac, A Moon Shaped Pool parece representar o momento em que o encontro entre as experiências paralelas recentes de Johnny Greenwood (na música orquestral) e Thom Yorke (no labor das filigranas eletrónicas) se juntam num diálogo que entende contudo que é no servir da canção que habita a alma central do corpo de composições. Uma certa melancolia e desencantamento atravessam as palavras e a voz que as dramatiza, refletindo não apenas ecos de experiências pessoais mas de um clima de descrença, dúvida e desapontamento com que muitos encaram o que habita à sua volta. A música completa a encenação, valorizando a presença do piano (como em Daydreaming ou True Love Waits) ou demonstrando (como em Present Tense, Glass Eyes ou Tinker Tailer Soldier Sailor Rich Man Poor Man Beggar Man Thief) o valor que o domínio cénico do trabalho com uma orquestra pode, em sintonia com as eletrónicas, definir jogos de nuances que ajudam a fazer da canção uma peça narrativa que vai caminhando, evoluindo, descobrindo luzes e sombras… O perfeito oposto das soluções formulaicas nada ginasticadas tão em voga em tantos discos do nosso tempo nas quais as doses de emoção chegam já por template.

Este é um disco para descobrir. De todo é um álbum para escutar e sobre ele logo opinar. Porém, aceitando aqui o jogo da comunicação rápida (e não é assim que hoje vivemos?), estas palavras não são mais do que uma primeira opinião, já com algumas audições feitas, mas longe de representar um relacionamento consolidado com o disco. Mesmo assim parece claro que não só estamos com o melhor disco dos Radiohead em 15 anos como com aquele que mais fielmente traduz a concretização, num corpo coeso de canções, das demandas encetadas depois da chegada do milénio, quer pela banda quer pelos seus músicos. Ao chegar a um patamar de veterania, os Radiohead dizem-nos aqui, claramente, quem são. Confirmando marcas de personalidade. Desafiando-se a si mesmos. Mas firmes na exploração de uma região demarcada que aqui conhece uma das suas mais claras declarações de identidade. Grande disco!

Radiohead
“A Moon Shaped Pool”
XL Recordings
★★★★★

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