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Nick Currie being (a) Momus ou o mais genial karaoke de sempre!

Texto: JORGE JANELA

A viajar de comboio entre os concertos de uma curta digressão, Momus passou pela Caixa Económica Operária (Lisboa). Consigo trazia um microfone, música pré-gravada e vídeo. E não foi preciso mais nada.

Foto: Manuel Boucherie

Agosto de 2013

Ouvido no concerto dos The Knife em Paredes de Coura:
-“vamos embora que isto afinal é teatro…”v
Algum tempo depois, diz:
-“Isto não é um concerto. É…um todo!
É assim tipo ópera, mas…Knife.”

Live act? Press play? Who cares?
Mto bom!

O meu primeiro contacto com Momus foi aquando da edição da sua obra prima pop absoluta, Don’t Stop The Night de 1989. Para saber os quês e os porquês desta classificação, aconselhamos que ouçam as músicas e as palavras do disco. Procurar os álbuns anteriores foi imperioso para descobrir mais sobre tão completo artista.

Foi sempre editando a um ritmo frenético, que a certa altura deixei de acompanhar. São mais de 30 discos, que é precisamente o número de músicas que escreveu para o álbum Stars Forever de 1999. Cada uma delas sobre uma pessoa ou grupo que a comissionou por mil dólares. Tudo por causa de um processo que a compositora Wendy Carlos (nascido Walter Carlos) lhe moveu por causa da canção Walter Carlos, que postulava que – depois da cirurgia de mudança de sexo – Wendy podia viajar para trás no tempo e casar com o seu eu pré-cirurgia, Walter. O processo, com um pedido de indemnização no valor de 22 milhões de dólares, foi acertado fora do tribunal por 30 mil, obrigando a retirar a referida canção de futuras edições do disco The Little Red Schoolbook.

Voltei ao seu contacto no ano passado através do brilhante Turpsycore, triplo CD, um de originais, outro de versões de originais de David Bowie (como esta) e outro de versões de Magazine/Howard Devoto. Mais sobre o disco aqui.

A viver em Osaka, no Japão, veio à Europa fazer uma pequena tournée. Sabendo que comprou um bilhete de InterRail para se deslocar entre os concertos, perguntei-me que material de palco utilizaria. Confirmei na noite de sexta-feira – na Caixa Económica Operária, em Lisboa – que esse pormenor não tinha nenhuma importância. O que ele usou foi um microfone com fio, música pré-gravada e vídeo (excertos de filmes de culto, telediscos próprios, vídeos caseiros e pedaços de cenas dispersas, sempre com uma precisão temporal, factual ou apenas intuitivamente coincidentes com a música e a voz). E não foi preciso mais nada.

Performer, animal de palco duma maneira muito própria, cativa o público como só os performers inatos conseguem. Em pose andrógina, numa dança medieval pagã, como crooner deslocado e em muitas outras personagens que são sempre a sua própria e muito pessoal persona, Momus foi atravessando diversas fases da sua prolixa carreira. Começou com The Animal That Desires do álbum Ping Pong de 1997 onde diz a certa altura “Nicholas, don’t be so ridiculous”. Passou por I want you, but I don’t need you, do mesmo álbum. Seguiu para The Art Creep, do último disco, Glyptothek (2015) com vídeo caseiro em sua casa. Foi mimo em Nervous Heartbeat, de Ocky Milk de 2006.

Com a plateia mais do que rendida, levou a sala à apoteose com Hairstyle of the Devil (que referiu como sendo o seu maior hit, a sua Pet Shop Boys song) e A Complete History Of Sexual Jealousy (Parts 17-24) tocadas de seguida. Éramos todos um nesta altura. Com pouco tinha feito tanto. Um karaoke de luxo! Esta poderia ser uma frase para definir este espectáculo, mas quaisquer definições serão, aqui, sempre redutoras.

Depois, em Robert Dye, pareceu-nos um Tom Waits desconjuntado (atente-se no vídeo por trás). Para o encore serviu Gibbous Moon, de The Thunderclown de 2011, a sua versão de Joe The Lion de David Bowie e terminou com I Was a Maoist Intellectual do terceiro álbum, Tender Pervert, de 1988. Ainda regressou mais uma vez, que a sala pedia mais, mas só para dizer que não ia cantar mas já viria à sala para se nos juntar.

Em 2012, os Kindness apresentaram o seu primeiro disco World, You Need a Change of Mind no Lux. Não tocaram muitas músicas (que ainda não tinham?) e algumas das que apresentaram eram versões, como Swingin Party dos Replacements. Durante o encore, a alma do projecto, Adam Bainbridge. pediu ao técnico de som para por uma música do seu telefone, Kendrick Lamar se a memória não me falha. Veio ele próprio à régie carregar no play. E tocaram e cantaram por cima da música no que foi um dos momentos altos da noite.

Estes três concertos foram aqueles de que mais gostei nos últimos anos e que mais marcas e memórias deixaram. Fake for real?

Playlist Caixa Económica Operária 06.06.2016:

The Animal That Desires, Ping Pong (1997)
Flame Into Being ,The Poison Boyfriend, 1987
The Manticore, (Glyptothek 2015)
Lipgloss – The tenth song completed for Marzipan, the 2013 LP from Momus, stars Roman Polanski in drag.
I want you, but I don’t need you, Ping Pong (1997)
The Homosexual, Tender Pervert (1988)
The Art Creep, (Glyptothek 2015)
The Ephebophobe, The eleventh song made for Marzipan, the 2013 LP from Momus. A trypophile is arrested in Zurich in 2046 for not being an ephebophile and is punished by having the Googlechip removed from his brain.
Hypnoprism, Hypnoprism (2010)
Love wakes the devil, The Thunderclown 2011
Miss X, an Ex-Lover, Little Red Songbook 1999
“Nervous Heartbeat” “Ocky Milk” 2006
The Hairstyle of the Devil ,12” 1989
A Complete History Of Sexual Jealousy (Parts 17-24), tender pervert 1988
Robert Dye, Stars Forever 1999
Tinnitus, Stars Forever 1999
Gibbous Moon, The Thunderclown 2011
Joe the lion (Bowie), Turpsycore’ 2015
I Was a Maoist Intellectual, Tender Pervert 1988

1 Comment on Nick Currie being (a) Momus ou o mais genial karaoke de sempre!

  1. Texto em portugueising, o Zeinal Bava ficaria orgulhoso… Que parolice.

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  1. Uma espreitadela à coleção de… Jorge Janela – Gira-Discos

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