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Política identitária aplicada à canção

Texto: ANDRÉ LOPES

Se o pessoal é político, é no sentido inverso que o disco que assinala a estreia da assinatura de Anohni consegue operacionalizar alguns dos aspetos mais conflituosos da atualidade.

Anohni

Ter-se-á dado a conhecer em larga escala quando I Am a Bird Now (2005) foi premiado com o Mercury Prize: nessa altura assinava ainda enquanto Antony Hegarty, e Antony and the Johnsons foi o nome dado ao grupo que para palco levava as canções editadas entre 2000 e 2012. Ao longo de um repertório que conta com uma das vozes mais únicas da sua geração – e de toda a música contemporânea – deparamo-nos com versos nascidos da reflexão sobre o íntimo e focados naquilo que o autoconceito identitário pode englobar. Com The Crying Light (2009), explorou e convidou-nos a conhecer um conjunto de paralelismos passíveis de traçar entre abordagens queer, processos identitários e a destruição do meio ambiente. Swanlights (2010) viria a aprofundar algumas das ideias anteriormente expostas, concentrando agora os versos em torno da incompatibilidade entre o capitalismo e a preservação da natureza.

Musicalmente, Antony and the Johnsons sempre foi um projeto que associámos, disco após disco, a uma forma muito concreto: com um acompanhamento mais ou menos simplistas, a voz imperava sobre pianos e arranjos recatados para música de câmara. A certo ponto, essa associação tornou-se frustrante e, pior, limitativa. Felizmente, HOPELESSNESS – o primeiro disco que Anohni assina com o nome com o qual se identifica enquanto trans – é uma proposta sonora fulgurosamente distinta do seu repertório até à data.

Tendo sido coproduzido com Hudson Mohawke e Daniel Lopatin (Oneohtrix Point Never), HOPELESSNESS deixa para trás o piano e faz de eletrónicas variadas (mas nem sempre disruptivas) a tela perfeita para que a voz de Anohni se continue a desenhar de forma familiar. Sobre percussão digital, sintetizadores e texturas frenéticas, ouvimos uma mensagem que se mantem urgente: da utilização massiva de drones até ao ecocídio, da vigilância estatal passando pelas decisões tomadas no que diz respeito à política americana. A primeira canção de HOPELESSNESS apresentada, 4 Degrees, é um exemplo interessante que ajuda à compreensão do propósito aqui em causa: de forma exacerbante, um jogo rítmico quase tribal acaba por dar espaço a um arranjo de metais de sopro que se diluem em sintetizadores, levando a melodia em diante. Em contexto quase vulcânico, Anohni canta-nos sobre as consequências do menosprezo face ao aquecimento global. Ainda que o vigor de 4 Degress não encontre paralelo ao longo do restante alinhamento do álbum, é quase intuitivo pensar no propósito subversivo de Anohni na construção de um imprevisível disco de pop eletrónica com uma mensagem pró-ambiente. Ainda que não seja inédito – basta relembrar por exemplo a discografia dos The Knife e em especial Shaking the Habitual (2013) – a verdade é que a música pop feita atualmente não encontra na mensagem política um aliado que se possa considerar recorrente.

No caso de HOPELESSNESS a mensagem é direta, eventualmente pouco poética, mas em prole na missão à la cavalo de Tróia, segundo a qual um disco com este tipo de sonoridade conseguirá chegar a um público abrangente que desprevenidamente, ou não, será confrontado com uma série de questões sociopolíticas cuja reflexão está ao alcance de todos. Com uma segunda metade mais livre e acrescidamente experimental, o álbum acaba por abrandar em ímpeto com Obama e Violent Men, sendo também estas duas das faixas nas quais as técnicas de produção utilizadas no seu próprio Garden of Delete (2015) se deixam evidenciar.

HOPELESSNESS é, até ao momento, um dos discos que até agora mais se salienta na paisagem sonora de 2016: quer pela pertinência da mensagem, quer pela viragem de sonoridade que se revelou como uma aventura bem-sucedida.

Anohni
“HOPELESSNESS”
Rough trade
★★★★

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