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Depeche Mode em dez singles

Seleção e textos: NUNO GALOPIM

Em tempo de assinalar os 30 anos de “Black Celebration” e dos singles que então revelavam uma nova etapa na obra dos Depeche Mode, recordamos dez dos singles que fizeram grandes momentos da sua história.

Com uma carreira em disco que remonta a 1981 e uma obra que passou já por várias etapas e conheceu vários compositores, os Depeche Mode contam-se entre os raros sobreviventes ativos da primeira geração pop eletrónica britânica. Vamos evocar aqui dez dos singles que ajudaram a fazer uma obra que começou discreta, em tempo de afirmação do teledisco como nova ferramenta promocional, e anos depois chegou às grandes arenas.

“Just Can’t Get Enough” (1981)
Se Dreaming of Me tinha assegurado uma estreia capaz de despertar primeiras atenções e New Life, logo a seguir, lhes deu um primeiro êxito maior, coube contudo ao terceiro single editado em 1981 a celebração de um momento de impacte global que fez daquela canção um clássico de referência na obra dos Depeche Mode. Foi contudo o derradeiro single da formação original, já que Vince Clarke se afastaria depois, formando os Yazoo um pouco mais adiante. Esta canção não deixou de acompanhar a vida dos Depeche Mode, sobretudo em palco. E o seu efeito no encore de 101 deixou claro o seu valor.

“Everything Counts” (1983)
Depois de assumir em A Broken Frame o desafio de chamar a si a composição das canções (na sequência da partida de Vince Clarke, que entretanto formara os Yazoo), Martin Gore revelou em Construction Time Again uma alma política que os Depeche Mode ainda não tinham antes visitado com esta evidência. De olhares ecologistas sobre o mundo a reflexões sobre o meio laboral, o disco cruzava todo um quadro de ideias com visões pop, tendo em Everything Counts um dos seus maiores hinos. A utilização da canção na reta final dos concertos da Concert For The Masses Tour (que seria documentada em 101) deu à canção um estatuto icónico algo festivo que a muitos pode não ter lembrado que, na verdade, falava da ganância do grande poder económico sobre tudo e todos.

“Master and Servant” (1984)
Depois de People are People, que se revelaria um dos singles de maior sucesso da obra dos Depeche Mode (alcançou o primeiro lugar na Alemanha, deu-lhes o primeiro Top 20 nos EUA e chegou ao número 4 no Reino Unido, a sua melhor classificação mais tarde igualada por Barrel of a Gun e Precious) a banda anunciou a chegada do mais denso e industrial Some Great Reward com Master & Servant, uma das suas melhores canções da etapa de afirmação da escrita de Martin Gore. A letra, citando abertamente temáticas S&M abria uma outra dimensão na obra do grupo.

“Shake The Disease” (1985)
Poucas vezes reconhecemos momentos de transição no momento em que ganham forma. Mas em 1985, quando, após quatro álbuns e 12 singles, já com um perfil internacional, mas ainda longe da dimensão global que chegaria pouco depois, os Depeche Mode editam um ‘best of’ que acaba por definir o ponto que separa uma etapa de descoberta, ensaio e aprendizagem e uma segunda que, entre os álbuns Black Celebration, Music For The Masses e Violator elevaria a sua pop eletrónica a uma dimensão mais assombrada mas, também mais focada num caminho, a entrada em cena da colaboração com o fotógrafo Anton Corbijn contribuindo também para o aferir de uma ideia de imagem mais consistente. Shake The Disease foi um dos dois novos singles apresentados nessa antologia e capta, perfeitamente, o ponto de transição entre a visão sugerida entre os álbuns de 1983 e 84 e o passo seguinte que chegaria no ano seguinte. Algo esquecido com o tempo, é um dos grandes feitos pop dos Depeche Mode.

“Stripped” (1986)
Podendo parecer precoce, a edição em 1985 de uma primeira antologia de singles ajudou na verdade a arrumar ideias de uma primeira etapa de vida cheia de acontecimentos e supresas, num tempo em que, apesar da sua personalidade já evidente, na verdade ainda procuravam um caminho (e Martin Gore, o principal compositor, uma marca de autor). Havia já em Some Great Reward sinais de um mergulho em trilhos menos solarengos, mas coube a Black Celebration levar as experiências e visões então ensaiadas a um patamar de mais evidente construção de uma ideia de pop urbana industrial capaz tanto de sugerir a continuação de afirmação de um projeto autoral como sabendo manter a vontade em comunicar para as passas. De resto esse foi o primeiro de um trio de álbuns (os melhores dos Depeche Mode) com os quais, em tempo de afinação de uma imagem e de apuramento de uma linguagem de palco, o grupo conquista uma dimensão planetária. Stripped foi o aperitivo certeiro para Black Celebration, definindo claramente os trilhos pelos quais o álbum pouco depois afirmaria a sua chegada. Não foi um êxito colossal, mas antes uma importante porta que lhes abriu novos caminhos e possibilidades.

“Never Let me Down Again” (1987)
Se a Black Celebration coube o desafio de transportar a música dos Depeche Mode para uma dimensão mais dramática e sombria, no passo seguinte, a que chamaram Music For The Masses (mesmo antes de imaginar que o título teria leitura literal na elevação do estatuto do quarteto à dimensão de banda de estádio) assinalaram um episódio de evolução na continuidade, criando jogos de ambiguidade entre o negrume, que não abandonam, e frestas de uma luminosidade que liberta as canções rumo a desafios maiores. Depois de um (bom) cartão de visita em Strangelove, coube a Never Let Me Down Again ser o single lançado em tempo de lançamento do novo álbum que abria portas a uma dimensão de fulgor épico que a digressão que se seguiu soube usar a seu favor. Esta canção chega num momento em que o relacionamento do grupo com o fotografo Anton Corbijn começa a dar frutos, construindo (finalmente) uma imagem consequente com a música. O teledisco é um dos melhores da videografia dos Depeche Mode.

“Personal Jesus” (1989)
A longa digressão norte americana que na verdade se chamava Concert For The Masses Tour, e que tão bem documentada ficou no filme (e disco) com o título 101 (de 1988) abriu em muito as vivências dos Depeche Mode a uma série de experiências. Entre elas todo um conjunto de heranças musicais, dos blues ao gospel e outros destinos, que aos poucos começaram a ganhar forma nas suas canções. Um primeiro exemplo claro dessas contaminações surgiu em 1989 num single que antecedeu, em largos meses, a chegada do álbum Violator, mas que foi o seu cartão de visita. E com mais um magnífico teledisco de Anton Corbijn.

“Enjoy The Silence” (1990)
Depois de uma intensa e marcante digressão norte-americana, que seria documentada em 101, filme de D.A. Pennebaker, o primeiro aperitivo para um novo álbum de estúdio – que seria Violator – revelava uma presença de ecos da cultura rock’n’roll que, na verdade, já tinham emergido, por exemplo, numa versão de Route 66 apresentada pouco antes. Lançado longos meses antes do álbum, Personal Jesus na verdade lançava ideias para explorar mais adiante. Tanto que, na hora de lançar Violator, o cartão de visita ficou por conta do mais canónico Enjoy The Silence, que se revelou não apenas um dos melhores singles do grupo mas se faz acompanhar por um dos seus mais interessantes telediscos, com imagens captadas na Escócia, na Suíça e no Algarve.

“Walking in my Shoes” (1993)
As guitarras tinham já começado a entrar na música dos Depeche Mode em finais dos anos 80 e, em Personal Jesus, tinham revelado já primeiros sinais de um processo de assimilação de vivências entretanto feitas em solo americano. É contudo em 1993, com o álbum Songs of Faith and Devotion, que o som dos Depeche Mode abre mais claramente a uma presença mais evidente de instrumentos mais habituais na tradição rock’n’roll e de ecos de heranças americanas (dos blues ao gospel), sem contudo descaracterizar a identidade da banda. Entre os singles extraídos contava-se esta canção, que lhes valeu, com realização de Anton Corbijn, um teledisco que tanto evoca o Inferno de Dante como a pintura de Bosch.

“Home” (1997)
Principal autor das canções dos Depeche Mode desde 1982 (eram apenas ocasionais os temas assinados por Alan Wilder), começando só em discos mais recentes a partilhar a escrita com o vocalista Dave Gahan, Martin Gore conquistou cedo um espaço para a sua voz em temas dos Depeche Mode, habituando-nos sobretudo a temas mais intimistas e implosivos como It Doesn’t Matter, Somebody, A Question of Lust, The Things You Said, Judas ou One Caress. Foram, de resto, frequentes as ocasiões em que algumas destas canções na sua voz chegaram a single. Em 1997, ao gravar Ultra, aquele que foi o primeiro disco criado após a saída de Alan Wilder, uma das canções na voz de Martin Gore teve edição como single, sendo assim acompanhado por um teledisco (na verdade um dos melhores de toda a videografia da banda). Home reflete a assimilação de novas programações e assinala mais um episódio de relacionamento da música dos Depeche Mode com arranjos para cordas.

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