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E a noite será vencida

Texto: NUNO CARVALHO

Em “Love Is Strange”, de Ira Sachs, John Lithgow e Alfred Molina interpretam um casal que está junto há 40 anos e cujo amor será posto à prova depois de oficializar a sua relação.

Ira Sachs, autor de Love Is Strange – O Amor É Uma Coisa Estranha, considera que tem uma responsabilidade pelo cinema queer. Um dever que, nas suas palavras, é o de não assobiar para o lado: “Tenho a responsabilidade de não fugir [de assuntos gay], e de reconhecer que uma das razões por que se foge é que estas histórias não são consideradas importantes na nossa sociedade. Sinto que é meu dever reconhecer a resistência que a ideologia dominante tem e ocupar-me com essa resistência de alguma forma autêntica, e isso também tornará o meu trabalho melhor.”

Ora, se em Keep the Lights On (que venceu o Prémio Teddy no Festival de Berlim de 2012 e também o Prémio de Melhor Longa-Metragem do Queer Lisboa nesse mesmo ano) Sachs sentiu a obrigação de contar uma história semiautobiográfica parcialmente inspirada na relação de dez anos com o seu ex-namorado, em Love Is Strange, embora o lastro biográfico seja mais subtil e difuso, há também uma nota pessoal, até porque o realizador já revelou que os seus filmes são uma espécie de remakes adaptados à sua sensibilidade e universo de filmes que, como requintado cinéfilo que é, o influenciaram e delinearam um percurso marcado pelo facto de ter sido rejeitado pelas principais escolas de cinema a que se candidatou. Na verdade, Ira Sachs, que estudou letras e teoria do cinema, acabaria por se estrear no cinema como assistente de realização de Norman Rene, autor de Longtime Companion (Companheiros de Sempre, 1989).

Em Love Is Strange, John Lithgow e Alfred Molina interpretam Ben e George, um casal nova-iorquino que já ultrapassou a meia-idade e que, quando decide selar pelo casamento uma união de quase 40 anos, se vê numa situação inesperada e delicada. Afastado do seu lugar de professor de música numa escola católica por oficializar um amor que era “tolerado” enquanto foi tacitamente vivido (o que só prova uma vez mais que o catolicismo é uma doutrina que só se ajusta a espíritos hipócritas e desonestos que insistem em manter aparências e alimentar tabus cobardes), George vê-se obrigado, como principal fonte de sustento do casal (Ben tem uma pensão e o seu ofício de pintor nunca lhe deu muito dinheiro), a vender o apartamento de ambos e a pedir “asilo” em casa de amigos e familiares, o que resulta na sua separação por sítios diferentes. George passa a dormir no sofá dos seus ex-vizinhos, um jovem casal de polícias, enquanto Ben vai viver para casa da sobrinha, Kate (Marisa Tomei), uma escritora cuja vida familiar com o marido e o filho adolescente, Joey (com quem Ben partilha o beliche), sofre uma alteração que testa os limites da sua paciência.

Escrito em parceria com Mauricio Zacharias (com quem Sachs já havia colaborado no guião de Keep the Lights On), Love Is Strange é o melhor filme do realizador até à data (o novo Little Men, apresentado neste ano na secção Panorama do Festival de Berlim, promete também ser um dos filmes que vão marcar 2016, apesar de por cá não haver notícia sequer de alguém nele interessado). O estilo realista e natural dos desempenhos, desde logo os de Lithgow e Molina (que têm aqui os seus melhores papéis em anos), aliado a um tom contido, sóbrio e subtil, faz de Love Is Strange um retrato verídico e complexo de um casal cuja sobrevivência é posta à prova pela separação física, mas que de certo modo acaba mais unido pelos reveses da fortuna, embora também transformado na sua essência. O amor é mesmo um lugar estranho, e, quanto mais tempo nele permanecemos, talvez mais estranhos também nos tornemos. E, no crepúsculo da vida, pelo menos para Ben, resta a memória viva e ainda presente do amor possível em tempos em que todas as conquistas e progressos parecem garantidos e realizados, mas em que falta ainda, em vários aspetos, fazer a maior revolução de todas: a mudança interior e o alvor definitivo de um tempo que seja realmente novo.

Love Is Strange – O Amor É Uma Coisa Estranha
De Ira Sachs
Com John Lithgow, Alfred Molina, Marisa Tomei
Distribuição: Midas Filmes

1 Comment on E a noite será vencida

  1. Armindo Miranda // Maio 27, 2016 às 10:17 pm // Responder

    “…o novo Little Men, […] promete também ser um dos filmes que vão marcar 2016, apesar de por cá não haver notícia sequer de alguém nele interessado”. Felizmente há boas notícias: Jorge Mourinha no Ípsilon de hoje afirma que Little Men já tem distribuição garantida.

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