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“Dirty Mind”: a primeira obra-prima de Prince

Texto: NUNO GALOPIM

Editado em 1980, “Dirty Mind”, o terceiro álbum de Prince, abre terreno à relação do funk com as novas eletrónicas e a contaminação pelos ecos da new wave, juntando uma atitude sexualmente explícita então algo invulgar.

Um possível exemplo sobre o peso que a crítica pode ter exercido sobre a história de um disco tem em Dirty Mind, o terceiro álbum de Prince, um caso digno de ser apontado. As vendas não estavam a decorrer tão bem como as de Prince (o álbum de 1979), a rádio não era destino fácil para canções de natureza tão explícita e até mesmo o arranque de uma nova digressão conhecera um ponto final precoce uma vez que tudo indicava que iam perder dinheiro… Mas foi então que começaram a surgir as críticas, que davam o disco como um dos mais interessantes exercícios de revitalização do funk e notavam como nunca um disco de tamanha dimensão erótica havia sido apresentado por um homem. E assim, pelas palavras de entusiasmo publicadas na imprensa, aquela que foi a primeira obra-prima de Prince, acabou por não passar despercebida, servindo à sua obra nos anos 80 um primeiro episódio que se revelaria fulcral para a subida de divisão que se adivinhava para breve e que dele faria, pouco tempo depois, uma estrela com dimensão global.

Foi num pequeno estúdio, montado na cave de uma nova casa à beira do lago Minnetonka, que Prince desenvolveu as ideias que o afastariam dos caminhos mais canónicos do R&B e do disco que havia trilhado nos dois primeiros álbuns, rumando a paragens funk animadas pela presença dos novos sintetizadores, dirigindo as canções para um patamar mais ousado de relacionamento com o corpo, o desejo, nalgumas revelando mesmo uma natureza sexualmente explícita.

Apesar do confronto difícil entre as novas canções e a editora, Dirty Mind revelaria em Prince os primeiros sinais de uma visão transformadora e, mais do que em For You e Prince, a materialização de uma voz autoral com um rumo bem definido. Canções como Dirty Mind ou Uptown transportam a sua visão funk para um terreno de diálogo com o presente, revelando Sister e When You Were Mind sinais de uma atenção pelos ecos (contemporâneos) da new wave que semeavam aqui ideias que floresceriam e que em breve o encaminhariam nas rotas que o conduziriam a uma lógica de diálogos da identidade funk com linguagens da pop e do rock que fariam de 1999 e Purple Rain discos de dimensão planetária. Por seu lado, Partyup reforça uma ligação fundamental com os princípios genéticos centrais do funk.

Entre Do It All Night ou o ainda mais evidente Head ficam registadas as marcas temáticas centrais de um disco que deixou igualmente evidente nas fotos usadas na capa que em Prince havia uma agenda sexual bem distinta dos códigos mais canónicos do romantismo habitualmente visitados em canções de grande exposição mediática. A revolução de costumes descobria aqui uma voz.

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