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Os favoritos de Kozelek

Texto: DANIEL BARRADAS

O novo disco de Mark Kozelek reúne uma mão-cheia das suas canções favoritas e é desavergonhadamente caseiro.

Em Fevereiro deste ano, quando fui ver Sun Kil Moon com Jesu, o concerto abria com Mark Kozelek a cantar Somewhere over the rainbow acompanhado ao piano. É claro que o público sabia ao que ia (“canções” faladas e guitarras arranhadas), mas também conhecia bem Kozelek e por isso, em vez de risota, houve mais sorrisos cúmplices e abanar de cabeças que pensam: “filho da mãe”.

Agora temos finalmente um álbum inteiro disso. Kozelek a cantar os seus favoritos ao piano soa como uma estrela do rock que nos vem visitar a casa, encontra um piano na sala e resolve cantar Moon River mesmo sem ter a voz para isso. E se alguém grava o momento e o partilha com o mundo, a estrela do rock está-se na tintas porque mesmo que seja mau, é fabuloso porque é ele.

Ora este disco é precisamente isso. Para aqui não importa se estas versões são musicalmente irrepreensíveis. Se querem ouvir perfeição, ouçam Barbra Streisand. Este álbum é fantástico porque é um artista a mostrar toda a sua vulnerabilidade e a ganhar força com isso. (Send in the clowns? A sério?!) A sua voz é gasta e limitada, os arranjos ao piano são básicos e a escolha de repertório mais açucarada do que se esperaria para quem já fez álbuns inteiros com versões dos AC/DC. Mas isto não é alguém apanhado de calças na mão, é um provocador exibicionista com tomates para nos dizer: “Meninos, estou-me nas tintas. Eu faço o que quero.”

E nós cá estamos para aplaudir. Se a estrela do rock nos quer cantar I’m not in love, nós juntamo-nos ao coro suspirante. Se nos quer arranhar os ouvidos com uma canção de natal, nós fingimos que temos uma caneca de chocolate quente na mão e que neva lá fora. Se nos quer dar a conhecer canções que não são dele mas bem podiam ser, como o Mainstreet de Unkle Cracker, nós vamos à procura do original. Mas a provocação é tanta que quase apetece dar-lhe um par de estalos quando consegue fazer uma versão de Another day tanto ou mais bonita do que a cantada por Elisabeth Frazer.

Kozelek não está nem nunca esteve num campeonato de recolha de fãs porque ele muito simplesmente não se podia importar menos com quem o ouve. Mark Kozelek sings favorites, no meio da sua discografia, não passa de uma curiosidade, um momento de diversão. Não serve sequer para angariar novo público. Mas para quem gosta dele, é um rebuçado. Para quem o ama, é uma cerimónia de renovação de votos de fidelidade.

Mark Kozelek
“Mark Kozelek sings favorites”
Caldo Verde Records
★★★★

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