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Viver a sua vida

Texto: NUNO GALOPIM

Com magníficas interpretações de Romain Duris e Anaïs Demoustier, “Uma Nova Amiga” explora questões de identidade de género num filme que devolve François Ozon ao fulgor do seu melhor cinema.

Faz tempo que François Ozon não assina, em série, filmes como aqueles que fizeram do seu nome uma das referências maiores do cinema francês do presente. Títulos como Gotas de Água Sob Pedras Escaldantes (de 2000 e recentemente editado em DVD entre nós), Sob a Areia (2000), 8 Mulheres (2002), Swimming Pool (2003) ou O Tempo que Resta (2005) não deixavam que o seu nome ficasse de fora de muitas das listas dos melhores filmes que o respetivo ano nos havia trazido e construíam, um atrás do outro, uma obra maior e de merecido destaque. É verdade que salvo o ainda pouco focado Sitcom (1998) e o inexplicavelmente falhado Ricky (2009), nunca François Ozon assinou daqueles filmes que fazem torcer o nariz. Mas desde a experiência de época que ensaiou em Angel – Encanto e Sedução (2007), a sua obra tem caminhado entre temas interessantes (muito característicos da sua carteira de interesses), mas raramente capazes de arrebatar, nem mesmo quando voltou a chamar Catherine Deneuve para a comédia com alma de luta laboral que revelou em Potiche – Minha Rica Mulherzinha. E apesar dos motivos de interesse que podemos encontrar em O Refúgio (2009) e Jovem e Bela (2013), nenhum deles colocou elementos em cena para acompanhar o mais feliz (e tão perturbante quanto sarcástico) Dentro de Casa (2012), que é o seu grande filme dos últimos dez anos. Uma Nova Amiga, que acaba de chegar às salas de cinema é um drama enraizado entre temáticas, modos narrativos e trabalho de caracterização de personagens muito característicos do seu cinema. E, além desse belo momento de 2012, este é de todos os filmes desta última década o que mais devolve ao grande ecrã o fulgor narrativo e o classicismo visual do melhor de Ozon.

A questão da identidade de género e das ambiguidades, olhando para lá do modo normativo de entender o masculino e o feminino, não é estranha ao cinema de Ozon e tem talvez na sua curta-metragem Une Robe d’Eté (1996) o seu mais cativante momento (com sublime banda sonora de alma retro). Em Uma Nova Amiga Ozon conta-nos uma história centrada entre quatro figuras de dois casais. As duas mulheres, Claire e Laura, são amigas de infância, acompanhando os primeiros dez minutos do filme um era-uma-vez de conto de cordel que as conduz a ambas ao casamento, a tragédia chegando com a morte de uma delas, pouco depois de ser mãe. O clic que tudo muda chega quando, por acaso, Claire (Anaïs Demoustier) vê o viúvo David (Romain Duris) de cabeleira, saia e maquilhagem, a amamentar a pequena filha, em casa. A revelação, de um hábito que vinha de antes do casamento, nota ali um novo aflorar um desconforto na identidade de género a que se obrigara socialmente e com o qual Claire vai gradualmente aprender a lidar, num processo de envolvimento cada vez mais intenso que acabará por lançar questões profundas e transformadoras.

Há, depois do conto de cordel (ostensivamente normativo e kitsch) e do lançamento das premissas em volta do conflito de identidade vivido pela figura interpretada por Duris – dividido entre David e uma Virginia que vai ganhando terreno – um mergulho numa trama acentuadamente ensopada em convulsões, ao ponto de, tal como se mostra difusa a fronteira da identidade de género da figura protagonista, também a que separava o prólogo cor-de-rosa do realismo da segunda parte da história domina o desenrolar da trama, até um clímax, no mínimo, arrebatador.

Nota final para a bem escolhida banda sonora, onde Amanda Lear e Klaus Nomi são mais do que mero papel de parede ou opção estética. E, aí, a grande diferença face às opções musicais de Xavier Dolan em Laurence Para Sempre (2012), filme que partilha temáticas e pontos de vista, embora sob um registo de opulência barroca com o qual contrasta este novo de François Ozon.

“Uma Nova Amiga”
Realização: François Ozon
Com: Romain Duris, Anaïs Demoustier, Raphaël Personnaz, Isild Le Besco
Distribuição: Leopardo Filmes

1 Comment on Viver a sua vida

  1. Uma Nova Amiga: 2*

    Este filme tem uma história interessante, contudo isso não chega e fica-se por ser apenas razoável.
    O argumento no meu ponto de vista poderia e deveria ter sido melhor, mais profundo e mais tocante.

    Cumprimentos, Frederico.

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