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Já está na hora de reavaliar a memória dos Adam and The Ants

Texto: NUNO GALOPIM

Lançado em 1980, “Kings of the Wild Frontier” foi mais do que a banda sonora para a construção de um novo ídolo juvenil. O tempo permite revisitar o disco, notando uma história de diálogo entre som e imagem.

Nem todas as más notícias acabam em más surpresas. E a história da banda que Adam Ant liderou entre finais dos anos 70 e a alvorada dos oitentas é um perfeito exemplo de como um aparente azar acabou afinal por ditar a sua melhor sorte. Figura com alguma visibilidade em Londres no auge da revolução punk (foi inclusivamente chamado por Derek Jarman para o elenco do filme Jubilee, um dos mais importantes ecos desses acontecimentos), Stuart Goddard formara uma banda para marcar também na música a sua voz. Tinha já militado nos Bazooka Joe mas foi, depois de uma hospitalização por anorexia, que se reinventou na figura de Adam Ant. Estava nos concertos certos na hora certa, caminhava entre os peões mais ativos do meio, da loja de Vivienne Westwood às salas onde tocavam os Siouxsie & The Banshees. Começaram por se chamar B-Sides mas, após várias convulsões e mudanças no line up, deram consigo como vocalista e com a banda a chamar-se Adam and the Ants. A caução dada por John Peel alimentou a vontade de trilhar caminho pelos rumos em que se começavam a afirmar como uma das primeiras manifestações do pós-punk made in UK. E foi assim que chegaram a Dirk Wears White Sox, álbum de estreia editado em 1979 pela independente Do It Records.

O disco tem mais impacte nos circuitos de culto do que junto de um público mais vasto. E as pontes que propunha, de ligação de heranças do glam a angulosidades assimiladas do funk (algo que anos depois os Franz Ferdinand retomariam), passa a leste das atenções. Adam resolve então chamar Malcolm McLaren para o lugar de manager. E é então que chega a má notícia quando, de um dia para o outro, o McLaren leva todos os elementos da banda, salvo o vocalista, para os Bow Wow Wow que estava então a formar. Sem músicos, Adam Ant vê-se forçado a repensar tudo uma vez mais.

Na altura falou em motim. Mas a verdade é que acabaria por se conciliar com o instigador do que acontecera. Até porque, no momento da separação, Malcolm McLaren deixou Adam Ant com um conselho e uma cassete. O conselho procurava responder ao seu desejo de vender muitos discos, e fazia-lhe notar que, por aqueles dias, não havia na pop inglesa um teen idol (sublinhando que ele, Adam, tinha o rosto e o corpo para o poder ser). A cassete tinha gravações de músicas do Burundi, do confronto com aquele fulgor percussivo nascendo uma das primeiras ideias que o conduziriam à segunda vida dos Adam And The Ants.

Com Marco Pirroni, confesso admirador do programa da BBC Top of The Pop e dos heróis do glam rock que por lá tinham passado, que conhecia do circuito das bandas punk, começou a talhar novas ideias. Juntou heranças rock’n’roll embebidas em sonhos de fama às sugestões de percussão lançadas pela cassete (e por isso a banda teve dois bateristas), mais um gosto hollywoodesco, refletindo tanto uma paixão pelos heróis de aventuras de filmes de piratas como pelos trilhos do velho oeste. As novas canções entusiasmaram editores, avançando a CBS com um contrato que os trataria como aposta. E, com nova música e imagem, os Adam and The Ants versão 2.0 estreavam-se com Kings of The Wild Frontier, um single difícil, essencialmente dominado pelo discurso da percussão, que acabou por falhar a pontaria… O segundo single seria bem maus certeiro. E quando, por acaso de última hora, são chamados a atuar no Top of The Pop, fazem de Dog Eat Dog (e da imagem com que se apresentavam) o tema de conversa entre alunos de todas as turmas de todas as escolas no dia seguinte. Em dias o single escalava pela tabela de vendas acima. E seria assim com todos os lançamentos daí em diante até que, ano e meio depois, o fim da banda chegou, algo precoce, após o fim de ciclo de singles de Prince Charming, o terceiro álbum.

Como a ideia de haver uma imagem a definir parte importante do discurso de uma banda pop era algo que fazia comichão a muita gente nesses tempos de alvorada da era do teledisco e, também, porque muito do seu público era juvenil, os Adam and The Ants acabaram olhados de soslaio durante anos a fio… Se me não falha a memória também os Beatles ou Bowie (fase Ziggy) tinham a imagem a seu favor e um público ainda longe da idade de poder tirar a carta de condução… Mas adiante…

Passados 36 anos (sim, 36), a reedição do segundo álbum dos Adam and The Ants, permite-nos olhar para este episódio na história da música popular sem as suspeitas com que a crítica de então encarou a chegada de Kings Of The Wild Frontier. O cruzamento de ecos de linguagens clássicas do rock com a assinatura do “burindi beat” (como então se lhe chamou), os gritos tribais entoados por Adam Ant, os flirts sónicos com o Oeste americano e o piscar de olho ao look metade pirata, metade hussardo, faziam deste disco um cocktail explosivo de ingredientes que, reunidos, geraram um momento. Canções de poderosa alma pop como Antmusic, Dog Eat Dog ou The Magnificent Five, encenações hollywoodescas como Los Rancheros, Jolly Roger, The Human Beings ou Making History, climas mais assombrados como os que se escutam em Ants Invasion ou Killer In The Home, a tempestade percussiva do tema-título ou a angulosidade de escola funk de Don’t Be Square Be There (que abre pontes para a memória do álbum do ano anterior), fazem a banda sonora de uma aventura que o teledisco e as atuações em programas de televisão adubaram em favor da transformação súbita de Adam Ant no herói pop que sonhava ser. Um sonho de curta duração, é certo, deixando clara a voracidade do consumo da iconografia pelo novo meio que levava agora as canções a casa de quem a escutava: a televisão.

Kings of the Wild Frontier é, apesar de não guardar em si a canção mais marcante da banda (Stand and Deliver, do álbum seguinte), o álbum pelo qual a obra de Adam Ant fica registada na história da cultura pop. Pela música e pela imagem. E desde quando, sobretudo em terreno pop, vive uma sem a outra?

O álbum “Kings of The Wild Frontier”, dos Adam and The Ants, acaba de ser reeditado num lançamento com extras. A versão em CD duplo junta lados B dos singles, maquetes e a gravação de um concerto em Chicago em 1981. A Super Deluxe Edition é uma caixa que junta a estes dois CD um DVD com os telediscos, atuações na BBC e um concerto registado em Tóquio. Esta caixa junta ainda uma nova prensagem do álbum em vinil dourado. Há, também, uma edição avulsa em vinil.

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