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Novos jogos de contrastes numa velha zona de conforto

Texto: NUNO GALOPIM

Após uma ausência de cinco anos, os The Kills regressam aos discos com “Ash Ice”, no qual juntam discretas eletrónicas e uma produção bem arrumada à sua visão sobre as heranças do rock’n’roll.

Quando os começamos a escutar – e vale a pena lembrar que o álbum de estreia Keep on Your Mean Side (2003) foi uma das boas surpresas desses dias – eram mais uma voz que se juntava a um momento que assinalava um saudável episódio de reencontro com uma relação com verdades primordiais do rock’n’roll. Nomes como os Strokes, Yeah Yeah Yeahs ou White Stripes (estes já com obra editada desde finais dos noventas) cativavam as atenções da imprensa, das rádios e de muitos que neles encontravam novos motivos para reencontrar velhos estímulos e heranças. Os The Kills juntavam-se então ao lote dos nomes na linha da frente da invenção de uma nova geração de bandas rock, trazendo de diferente o facto de somarem a presença de uma cantora norte-americana a um guitarrista britânico… E assim, com uma voz carregada de personalidade e uma agenda lo-fi a determinar o rumo dos acontecimentos no departamento do som, nascia um dos casos sérios do rock pós-milénio.

O tempo deu razão em quem neles cedo acreditou. No Wow (2005) vincava as ideias expostas no álbum de estreia, juntando um novo lote de grandes canções (entre as quais a magnífica The Good Ones, ainda hoje uma das suas melhores) e, três anos depois, Midnight Boom (2008) levava, naquele que é o seu melhor disco, as canções a um patamar de contenção quase minimalista nos adornos, mantendo contudo firmes as suas marcas de personalidade, da voz à angulosidade clara da abordagem das guitarras e da percussão, deixando os ecos lo-fi dos primeiros tempos já bem distantes.

O novo Ash & Ice surge cinco anos após Blood Pressures (2011), disco no qual as canções procuravam um fôlego mais intenso, mas também mais arrumado nas formas e cenários. Essas demandas mantiveram-se ativas na busca de um caminho para vencer os cinco anos de silêncio, mas cabe a uma mais evidente presença de (discretas) electrónicas a marca que distingue este novo de todos os álbuns anteriores. Não se trata de uma partida pronunciada, tanto que os ambientes visitados não se afastam muito daquilo que cada vez parece ser uma verdadeira “zona de conforto” na qual os The Kills têm vindo a concentrar as suas atenções, representando os novos elementos em cena mais o efeito de amplificação de contrastes do que exatamente um desejo de partida para outras imagens.

Canções como Doing To The Death (que inteligentemente abre o alinhamento) ou Heart of a Dog, ambas já antes apresentadas como singles, revelam uma assimilação de elementos electrónicos numa matriz em tudo fiel aos princípios habituais da sua escrita. Mais adiante, em temas como Hard Habit to Break ou Days of Why and How ensaiam a criação de cenografias que cruzam texturas elétricas com o tom mecânico de programações rítmicas precisas. E em That Love revelam, depois, a mais polida das suas baladas até aqui gravadas.

Tivesse o alinhamento procurado mais estas pequenas ousadias, aprofundando aqui e ali uma ou outra das novas contaminações, talvez tivesse o disco sido capaz de gerar mais episódios de surpresa. Os admiradores do duo, contudo, vão ficar satisfeitos com o que nos mostram neste regresso aos discos.

The Kills
“Ash & Ice”
Domino Records
★★★

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