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Como Philip Glass ultrapassou a “maldição” das nove sinfonias

Texto: NUNO GALOPIM

Uma caixa junta gravações das dez sinfonias já compostas e estreadas por Philip Glass e que dele fazem um dos sinfonistas mais ativos do nosso tempo.

Beethoven, Schubert, Bruckner, Mahler, Vaughan Williams… Todos eles são compositores cuja obra sinfónica não passou da respetiva “nona” (mesmo tendo alguns deles deixado esboços do que poderia ter sido, depois, a “décima”. É claro que não é regra. E entre os grandes sinfonistas do século XX tanto houve um Sibelius que assinou apenas sete sinfonias, um Henze que fez uma décima ou um Shostakovich que nos deixou quinze. Há uns anos, em conversa com Philip Glass, falámos sobre o que pensava ele dessa barreira das nove sinfonias e de como a poderia – se é que o desejava – ultrapassar. No seu reconhecido bom humor, respondeu que comporia a nona e a décima ao mesmo tempo. E estando uma terminada, a outra estaria igualmente pronta. E assim a “maldição” (o que gerou risos) seria vencida.

São por isso dez as sinfonias que, até aqui, integram o vasto corpo de trabalho que é a obra de Philip Glass e que, reunidas numa caixa comum, permitem um olhar panorâmico sobre o percurso que a sua música orquestral tomou desde a alvorada dos anos 90, quando a ideia de compor sinfonias entrou na sua vida como um desafio no qual até aí não havia pensado, e a décima que, composta na verdade a partir de material já existente antes mesmo de terminada a “nona”, desenha um arco de tempo que, noutras frentes, assistiu a um expressivo conjunto de novas óperas, inúmeras colaborações com o cinema, várias experiências de música de câmara e a conclusão de um livro de estudos para piano (cuja integral teve já também edição em disco).

A caixa que agora se apresenta acompanha a obra sinfónica de Philip Glass sob a batuta de Dennis Russel Davies, o maestro na verdade responsável pelo desafio “sinfónico” original em inícios dos anos 90 e que tem assegurado a estreia de variadíssimas das suas obras e a gravação de muitas delas em disco. Todas estas sinfonias tinham conhecido já antes edição em disco. As sinfonias números 1 e 4, baseadas em álbuns de David Bowie – respetivamente Low e Heroes – conheceram até já mais do que uma edição em disco e tiveram, recentemente, lançamento em vinil (são as únicas até aqui disponíveis em LP). As sinfonias números 2, 3 e 5 conheceram lançamento original pelo catálogo na Nonesuch, ao qual o compositor esteve ligado entre os anos 80 e 90. E da sexta à décima, a Orange Mountain Music foi a etiqueta responsável pela colocação das respetivas gravações no mercado.

A obra sinfónica de Glass reflete em muito o seu modo inclusivo de entender a relação da sua música com fontes de inspiração, timbres e temáticas. E mesmo caracterizada por evidentes marcas autorais, reflete instantes em que o compositor procurou caminhos diferentes.

Inspirado por David Bowie

Foi em 1992 que Philip Glass recebeu o primeiro pedido para que compusesse uma sinfonia. Por essa altura era já um compositor globalmente reconhecido, com uma série de óperas inclusivamente gravadas em disco, peças como Music in 12 Parts, Einstein on the Beach ou Music in Similar Motion entendidas como bases de uma nova linguagem (da qual entretanto se afastara, evoluindo), bandas sonoras de filmes como Koyaanisquatsi ou Mishima transformadas em casos de culto e álbuns como Glassworks ou Songs From Liquid Days, mostrando como um compositor de finais do século XX se adaptava também aos formatos “clássicos” da música gravada.

Dizia-lhe então o maestro Dennis Russel Davies (que se transformaria num dos seus maiores colaboradores) que não ia deixar que Glass fosse um “daqueles compositores de ópera que nunca fizeram uma sinfonia”. A encomenda surgiu da parte da Brooklyn Philharmonic Orchestra, e levou Glass a procurar um caminho novo para a sua música orquestral. Encontrou o mote num álbum histórico de David Bowie: Low, um disco (de 1977) criado numa parceria com Brian Eno, encontrando ali Glass métodos de pensamento semelhantes aos que reconhecia em vanguardas da composição daquele tempo.

Originalmente apresentada como Low Symphony, a Sinfonia Nº 1 de Philip Glass é uma obra em três andamentos, cada qual baseado num tema do álbum (um deles, na verdade, editado como extra numa reedição de 1991). O material musical de Bowie e Eno é claro ponto de partida, mas é da visão de Glass que emerge uma abordagem orquestral que acabaria por abrir horizontes a uma série de novas experiências que depois realizou em experiências sinfónicas subsequentes.

Quatro anos depois, e com uma nova coreografia de Twyla Tharp por objetivo, Glass regressaria a Bowie, partido de seis momentos do álbum Heroes para, sob uma lógica semelhante, criar aquela que então se apresentou como a sua quarta sinfonia.

Ao passo que na sinfonia criada em torno de Low encontramos um conjunto de três reflexões que Glass faz nascer sobre elementos de três temas instrumentais de Bowie, na Sinfonia Nº 4, centrada em Heroes, o diálogo com o material musical de Bowie mantém em alguns momentos um relacionamento mais próximo do disco original, seguindo naturalmente depois os destinos de uma demanda pessoal que tem o álbum de 1977 como ponto de partida. A estrutura da sinfonia é também diferente, dividida em seis andamentos, cada qual tendo uma faixa de Heroes como ponto de partida, nem todas elas contudo temas instrumentais.

As obras-primas

Se as duas sinfonias baseadas na música de David Bowie representam mais uma entre as várias pontes que a música de Philip Glass tem vindo a estabelecer entre a sua obra e os espaços da música pop – os ciclos de canções Songs From Liquid Days e Book of Longing e colaborações com Marisa Monte, Mick Jagger, S-Express ou Aphex Twin serão outros exemplos – é contudo entre as suas sinfonias números 5, 8 e 9 que assinalou os mais interessantes episódios da sua obra para orquestra.

Estreada em 1999, a Sinfonia Nº 5 – Requiem, Bardo, Nirmanakaya é ainda hoje a sua mais assombrosa obra orquestral, traduzindo também um domínio sobre as linguagens da música coral que foi desenvolvenfdo desde a alvorada dos anos 80 em várias das suas óperas. Ecuménica, explorando uma dimensão mística que cruza muitos dos capítulos da obra de Glass, é uma obra extensa, de grande fôlego, dividida em 12 andamentos.

Capaz de se colocar, junto da “quinta”, entre as melhores obras de Philip Glass, a Sinfonia Nº 8 (de 2005) revelou surpresa e arrebatou até entusiasmos mesmo junto dos mais cépticos da sua música. É uma peça longa, exclusivamente instrumental, pensada na linha das sinfonias concertantes características do período clássico, permitindo visibilidade protagonista a diversos instrumentos. É uma sinfonia de rumo sempre inesperado, com mudanças cromáticas, desafios na fluente melodia e surpresa a cada novo momento, contrariando algumas das características mais recorrentes da obra de Philip Glass dessa etapa. Estão lá as marcas do minimalismo que lhe é estrutural, mas há respiração diferente e uma sensação de mudança de ares que lhe dá, como em Orion, sinais de que há novos caminhos ainda a trilhar por estas bandas. A percussão passa, a partir daqui, a ter um papel fulcral na obra sinfónica de Glass.

A Sinfonia Nº 9 foi apresentada em 2012 como peça central do concerto que assinalou o 75º aniversário de Philip Glass (no Carnegie Hall, em Nova Iorque). Se a “oitava” procurava já horizontes distantes, a “nona” é uma obra que reflete não apenas a solidez da personalidade da linguagem de Philip Glass como traduz um interesse do músico por ideias que não se fecham nas latitudes mais canónicas, escutando ideias de outras paragens geográficas e, mais que nunca, acolhendo heranças de outros tempos, o romantismo do século XIX e a presença de ecos de um Shostakovich parecendo iluminar a alma de uma sinfonia em tudo impressionante.

As marcas de identidade (da presença de elementos repetitivos os harpejos essencialmente “cantados” pelas cordas) estão presentes, mas a música de Glass abre aqui, mais que nunca, espaço a outra contemplação interior, a outro lirismo. Como parte significativa da sua obra sinfónica, a sinfonia apresenta-se dividida em três andamentos, ao belíssimo segundo cabendo o papel de coração emocional que a caracteriza e marca.

Para redescobrir

Se as sinfonias números 2 (de 1994) e 3 (1995), nas quais assistimos essencialmente a um desenvolvimento na escrita para cordas, mereceram a visibilidade que as edições da Nonesuch conferem habitualmente aos seus lançamentos, já as que lançou através da sua própria editora não conheceram nunca a mesma “sorte”, salvo a “nona” que chegou em tempo festivo, sublinhando (como se disse já) a ocasião do seu 75º aniversário. A caixa agora editada permite assim reencontros com obras como a Sinfonia Nº 6 (2002), baseada na Plutonian Ode de Allen Ginsberg e a Sinfonia Nº 10 (2012), talvez a menos estimulante de todas as que aqui podemos escutar e que nasceu de um conjunto de peças criadas para o Philip Glass Ensemble, pensadas para apresentar na reta final da Expo de Saragoça, em setembro de 2008. E se da “oitava” e da “nona” acima de falava na hora de destacar as melhores, convém mesmo assim não ignorar a interessante “sétima”.

A Sinfonia Nº 7 (2005)  composta para assinalar o 60º aniversário de Leonard Saltkin, e foi por ele mesmo estreada no Kennedy Center, em Washington DC, em 2005, com a National Symphony Orchestra e o Master Chorale of Washington. Nesta obra Glass pretendeu homenagear um homem do conhecimento (musical) com uma sinfonia que evocasse uma tradição fundamental do conhecimento americano. Interessado há longos anos pelas culturas indígenas americanas, Glass definiu os três andamentos da “sétima” de acordo com uma trindade sagrada tolteca, sublinhando sobretudo uma cultura que encontrou um equilíbrio no seu relacionamento com a natureza.

A sinfonia “tolteca” de Philip Glass é mais uma obra coral orquestral. Não tem dimensão da “quinta” nem revela as marcas de inquietude de quem procura novos caminhos como depois se sentiu na “oitava”. Essencialmente meditativa, é uma obra todavia bem interessante, sobretudo na forma como procura um lirismo sem abdicar dos princípios que definem uma música que aceita a repetição como pulsão quase respiratória. É uma música que retrata uma memória desencantada, que evoca tempos remotos dos quais chegam apenas ecos de hábitos diferentes e, sobretudo, de uma noção de harmonia com o mundo natural que hoje não conhecemos… Mas termina com um remate grandioso e luminoso, num jogo de repetições que alterna módulos progressivamente mais intensos com silêncios. Como quem reflecte sobre o presente e acredita na mudança… Talvez num reencontro com outros hábitos.

Philip Glass “The Symphonies – Nos 1-10”
Dennis Russel Davies com a Bruckner Orchester Linz, a Vienna Radio Symphony Orchestra, a Sinfonieorchester Basel e a Stuttgart Chamber Orchestra
Caixa de 11 CD, Orange Mountain Music

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