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“A Saucerful of Secrets”: Em tempo de transição

Texto: NUNO GALOPIM

Editado em junho de 1968, o segundo álbum dos Pink Floyd traduz, entre a saída de Syd Barrett e a chegada de David Gilmour, uma série de pontes entre ecos do passado recente da banda e as suas novas demandas.

Criado numa sucessão de sessões de gravação entre agosto de 1967 e maio de 1968, o segundo álbum dos Pink Floyd assistiu ao processo de progressivo afastamento e definitiva separação entre o grupo e aquele que fora até aí o seu principal compositor. O caráter errático e imprevisível do seu comportamento fora já assinalado quando tinham trabalhado no álbum de estreia, acentuando-se os problemas quando, depois de terminado o disco, chegara a hora de regressar à estrada. É então que entra em cena um outro elemento cuja presença reforçaria a caracterização deste como um disco de transição. Antigo colega de Syd Barrett nos tempos de escola, David Gilmour começou por ser chamado para, em palco, compensar as falhas e até mesmo as faltas do vocalista (e também guitarrista). Com uma formação alargada a cinco chegaram a entrar em estúdio, crendo-se que Set The Controls For The Heart of The Sun, um dos temas mais marcantes do alinhamento deste segundo álbum, possa representar um raro momento gravado a contar com a presença dos cinco elementos que o grupo então juntava.

Cedo ficou claro que a presença em estúdio de Gilmour era favorável ao bom curso dos trabalhos. E nasceu então a ideia de, tal como acontecera com os Beach Boys algum tempo antes, os Pink Floyd manterem Syd Barrett como o seu compositor, atribuindo-lhe tarefas criativas, chamando-o eventualmente a estúdio, mas deixando a estrada entregue aos outro quatro… Isto apesar dos resultados desapontantes do single Apples and Oranges, editado ainda em 1967, depois do álbum de estreia, mas em nada sendo capaz de repetir os resultados dos anteriores Arnold Layne e See Emily Play. E os trabalhos foram avançando, surgindo, ainda em finais de 1967, uma versão de Juggerband Blues, canção de Syd Barrett que tinha já alguns meses (e chegara até a ser ponderada como eventual terceiro single), que contou em estúdio com a presença da banda do Exército da Salvação a quem, reza a mitologia (questionável, acrescento) que Barrett terá dito para que tocassem o que bem entendessem. Esse seria contudo o único tema assinado e cantado por Syd Barrett a figurar no alinhamento do segundo álbum do grupo. Porque, quando em 1968 retomam os trabalhos em estúdio, já a separação (cada vez mais inevitável) com o antigo vocalista e compositor havia ocorrido.

Se em Piper at the Gates of Dawn o alinhamento revelava um claro protagonista da escrita de Syd Barrett, convocando a participação de outros elementos da banda em apenas três temas, no segundo disco, ao qual chamaram A Saucerful of Secrets, as composições refletem uma representação mais democrática dos músicos, definindo um espaço de colaboração e contribuição alargada que definiria o modo de trabalhar do grupo até à etapa em que Roger Waters chama a si a condução dos destinos criativos e, depois, uma outra em que David Gilmour toma um papel igualmente protagonista nesse departamento.

Tal como no plano humano (entre o afastamento de Syd Barrett e a chegada de David Gilmour) também na definição do rumo estético este é um disco de transição. Let There Be Light (que representou a primeira ocasião em que um single do grupo surgia no alinhamento de um álbum, já que o anterior It Would Be So Nice acabou fora do LP) e Remember A Day (que data dos tempos de A Saucerful of Screts) asseguram, logo a abrir o alinhamento, ligações à paleta pop/rock psicadélica pela qual o grupo continuava a trilhar alguns dos seus passos. Cabe depois à visão desafiante (mas bem arrumada) de temas mais longos e distantes do formato clássico da canção, como Set The Controls For The Heart of The Sun ou o longo tema-título (com uma reta final para coro e órgão que quase antecipa o que fariam em Atom Heart Mother) o lançamento das ideias para caminhos experimentais, todavia diferentes dos que haviam antes definido a trip de Interstellar Overdrive e outros momentos caleidoscópicos do álbum de estreia. See-Saw, que conta com a presença instrumental de Barrett, e foi algo injustamente descrita (internamente) como a canção mais aborrecida de sempre (o que não é verdade) traduz, com maior nitidez ainda, uma noção de ponte entre os ecos do que eram os Pink Floyd de 1967 e ideias que ajudariam a definir a noção do som “progressivo” do seu futuro pouco mais adiante. Por seu lado Corporal Clegg assinala a primeira manifestação de uma demanda temática que Roger Waters desenvolveria depois em vários outros episódios e que eventualmente o conduziria a The Wall e The Final Cut.

Em 1968 o álbum – que mostra a primeira capa da banda criada por Storm Thorgserson – dividiu opiniões e acendeu críticas que notavam o afastamento do principal autor do mais elogiado percurso anterior do grupo. Mas agora, 48 anos depois, o reencontro com A Sacucerful of Secrets recorda não apenas o momento difícil que a vida do grupo viveu entre 1967 e 68, como, na verdade, nos dá um deslumbrante quadro de grandes canções, instrumentais… e visões.

O álbum acaba de ser reeditado em vinil pela Warner

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