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Uma lista que deixa muito a desejar…

Texto: NUNO GALOPIM

Uma publicação junta 100 comics numa lista que diz ser “all-time greatest”. Faz um retrato de parte da produção destes últimos 25 anos. Mas deixa de fora muitas criações de geografias e de épocas diferentes.

Há listas e listas… E cada uma traduz um gosto e as suas vivências, por isso é natural que cada qual seja diferente da outra mais ao lado… Mas quando se publica uma lista, sobretudo se a apresentamos como “all time greatest”, então temos a responsabilidade de, ao gosto e às vivências, juntar mesmo essas duas ideias: a de “melhor” e “de sempre”. Ao ler uma publicação, lançada pela equipa que assina a revista SciFiNow, que se anuncia como 100 All-Time Greatest Comics, não vejo lá nem uma nem outra dessas ideias devidamente traduzidas. De resto, quem aterrasse na Terra e quisesse ter um retrato do universo dos comics através desta “lista” ficaria com a ideia de que é uma coisa com grandes ideias e feitos publicados dos aos 90 para cá, pontualmente olhando para outros universos que não o americano e inglês e ocasionalmente rumando mais atrás no tempo. Pois o mundo dos comics não é exatamente só assim. Nem na geografia nem no tempo.

Naturalmente há motivos para que um aficionado dos quadradinhos queira, mesmo que baseada numa “lista” questionável, uma publicação como esta que reúne uma série de olhares sobre várias publicações recentes. Os feitos nos universos da DC Comics e da Marvel estão em parte por aqui, se bem que seja bizarro não haver referências à relação que se estabeleceu com a saga Star Wars (mas OK, pode não ser das 100 melhores)… E há, além da enumeração e apresentação dos 100 “eleitos”, alguns features que nos permitem olhares mais aprofundados por autores como Alan Moore ou Alex Ross e séries e heróis como Civil War, Superman ou Hellblazer. Já a Image, que é talvez a mais estimulante das “casas” editoriais neste momento, parece ignorada. Assim como o são autores maiores do presente como Jonathan Hickman ou Ales Kot. E até de Warren Ellis só encontramos aqui uma menção a Next Wave, esquecendo quão marcante está a ser a série Trees (da qual um segundo livro compilando os mais recentes comics sai este verão).

A lista contempla graphic novels… E aqui estão algumas das mais significativas dos últimos anos, como Persepolis de Marjane Satrapi, Fun Home de Alison Bechdel ou Ghostworld, de Daniel Clowes. Mais haveria, mas a representação deste espaço (que não se esgota aqui) está pelo menos assegurada. Já a pontual referencia a Akira e a Astérix reduz a estes dois “colossos” a representação na lista do manga e da BD franco-belga, traduzindo um critério de dieta pouco aconselhável. Seria preferível se tivessem ficado de fora e a lista se assumisse como, sobretudo, retrato da produção anglo-americana de comics e graphic novels dos últimos 25 anos… Mas quando se coloca em cena um Astérix e omite casos como os de Tintin, Corto Maltese ou Blake & Mortimer (para nem dizer outros mais), fica claro que o “greatest” não mora ali. E ao observar que, de fora, ficaram alguns comics clássicos dos anos 30, 40, 50, 60 e 70, o “all time” também não. É que nem todos os leitores têm menos de 25 anos! E mesmo alguns dos mais novos leitores de comics podem ter já um olhar retrospetivo, histórico e mais abrangente que falta a uma lista cujo título “all-time greatest” tem mais de nome do que de real concretização. Alguém faria uma lista “all-time greatest” da música pop sem o Pet Sounds dos Beach Boys, o Sgt. Peppers dos Beatles ou o Dark Side of the Moon dos Pink Floyd?… Pronto, é essa a ideia…

1 Comment on Uma lista que deixa muito a desejar…

  1. É um vício comum nas listas anglo-saxónicas de banda-desenhada focarem-se nos comics americanos. De outras paragens, só os muitos autores britânicos que nos States fizeram carreira a partir da década de 80 (a Wikipédia de língua inglesa tem mesmo um artigo sobre a British Invasion nos comics, à imagem de uma certa outra invasão cultural à qual roubou o nome…).

    Mas é justo dizer que as listas musicais, apesar de irem aos anos 60, não se preocupam com outras geografias que não as da anglofonia. Uns Kraftwerk, talvez, e uns Mutantes ou Gilberto ou Jobim para dar um colorido (nunca Buarque ou Novos Baianos).

    Não há muitas listas “universais” de BD e o melhor é mesmo olhar para várias diferentes, para do todo se extrair o que de cada uma isoladamente não se pode.

    Aqui vão algumas:
    – The 50 greatest graphic novels of all time (Herald Scotland) – http://www.heraldscotland.com/books-poetry/interviews/the-50-greatest-graphic-novels-of-all-time.21864132

    – Drawn Out: The 50 Best Non-Superhero Graphic Novels (Rolling Stone) – http://www.rollingstone.com/culture/lists/drawn-out-the-50-best-non-superhero-graphic-novels-20140505

    – BD : la bibliothèque idéale (Le Figaro) – http://www.lefigaro.fr/bd/2011/05/02/03014-20110502ARTFIG00461-bd-la-bibliotheque-ideale.php

    – I migliori Graphic Novel di tutti i tempi (Gli Osservatori Esterni) – http://www.osservatoriesterni.it/fumetti/i-migliori-graphic-novel-di-tutti-i-tempi

    – Les 100 Bandes dessinées indispensables (Les Inrockuptibles) – https://verolard.wordpress.com/2009/12/19/les-100-bandes-dessinees-indispensables-pour-les-inrockuptibles/

    – The International Best Comics Poll (The Hooded Utilitarian compilou um Top 115 com votação de 211 especialistas internacionais) – http://www.hoodedutilitarian.com/2011/08/the-international-best-comics-poll-index-and-introduction/

    – 100 Best Comics of All Time (Good OK Bad) – http://goodokbad.com/index.php/about/top100

    – Top 10 Graphic Novels (Time)- http://entertainment.time.com/2009/03/06/top-10-graphic-novels/slide/all/

    – The 10 best graphic novels – in pictures (The Guardian)- https://www.theguardian.com/culture/gallery/2011/oct/30/ten-best-graphic-novels-in-pictures

    – (Revista também disponível em pdf): Lire Hors-série 15: Un siècle de BD

    E o que tiramos daqui? Faça-se um top 20 instantâneo com base nas segunda melhor classificação de cada obra nas listas acima indicadas (critério que permite filtrar cultos isolados, ao exigir a concordância de duas listas, mas que, ao mesmo tempo, evita que só os mais conhecidos tenham hipótese, o que aconteceria se se fizesse uma média da pontuação em todas as listas):

    1 – Watchmen, Alan Moore / Dave Gibbons (1º, 1º)
    2 – Jimmy Corrigan, The Smartest Kid on Earth, de Chris Ware (1º, 2º)
    3 – Maus, de Art Spiegelman (2º, 2º)
    4 – The Sandman (série), de Neil Gaiman (2º, 3º)
    5 – Blake et Mortimer: La Marque Jaune, de Edgar P. Jacobs (3º, 4º)
    6 – Persepolis, de Marjane Satrapi (1º, 5º)
    7 – R. Crumb Draws The Blues, de R. Crumb – corresponde à edição francesa “Mr. Nostalgia” (4º) e está contido em The Complete Crumb Comics (5º)
    8 – Fun Home: A Family Tragicomic, de Alison Bechdel (4º, 5,5º)
    8 – Black Hole, de Charles Burns (4º, 5,5º)
    10 – Les Aventures de Tintin: Les Bijoux de la Castafiore, de Hergé (3º, 5,5º)
    11 – Blankets, de Craig Thompson (5º, 5,5º)
    12 – Akira, de Katsuhiro Otomo (4º, 6º)
    13 – From Hell, de Alan Moore / Eddie Campbell (5,5º, 6º)
    14 – Little Nemo in Slumberland, Winsor McCay (6º, 6º)
    15 – Love and Rockets: as histórias da sub-série “Locas”, de Jaime Hernandez – contida na série Love and Rockets (1º) e coleccionado à parte em diversos volumes (7º)
    16 – Ghost World, de Daniel Clowes (5º, 8º)
    17 – L’Ascension du haut mal, de David B (7º, 8º)
    18 – Batman: The Dark Knight Returns, de Frank Miller (2º, 9º)
    19 – V For Vendetta, de Alan Moore / David Lloyd (8º, 9º)
    20 – Calvin And Hobbes, de Bill Watterson (série) (3º, 11º)

    Da Marvel, nem sombra. E super-heróis, em geral, bem poucos.

    Mas não se encontra, de facto, muita BD anterior aos 80s nos lugares cimeiros (só 4 títulos no top 4). Embora até haja o visionaríssimo Little Nemo in Slumberland, do início do século passado. Parece que os 80s na BD são o equivalente aos 60s na música popular… Sejamos justos: também não se vê muito material pré-1965 nas listas dos melhores discos! Porque não haveria a BD de ter um ponto equivalente?

    Quanto a geografias, temos Akira e vários francófonos (e um Astérix e três Tintins estariam num top 25), por isso talvez não seja tão mau assim… E o Persepolis é meio francófono, meio iraniano. Acaba por ser melhor do que uma lista Beatles/Dylan/Stones/Beach Boys/Velvet/Nirvana/Radiohead/Gaye…

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