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Nas entranhas dos contos de fadas

Texto: NUNO CARVALHO

Em “Um Cisne Selvagem e Outros Contos”, Michael Cunningham pega nos aspetos mais ocultos, esquecidos ou omitidos de alguns emblemáticos contos de fadas e transforma-os em histórias reveladoras e com um maior e mais pessimista sentido da realidade.

Michael Cunningham tem uma propensão para recriações e reimaginações ficcionais. Basta lembrar As Horas, o livro que o tornou um autor famoso, sobretudo após lhe ter merecido o Prémio Pulitzer, que era uma ficção em torno de uma figura real (Virginia Woolf) que mudara o curso do destino do futuro escritor nos tempos do liceu. Mas podemos referir ainda Dias Exemplares, imbuído do espírito de Walt Whitman, ou o mais recente A Rainha da Neve, inspirado num conto de Hans Christian Andersen. Aliás, Um Cisne Selvagem e Outros Contos, o seu mais recente livro, uma coletânea de 11 contos recentemente publicada pela Gradiva, é uma espécie de companion piece de A Rainha da Neve, na medida em que o escritor norte-americano escreveu estas reinvenções de contos de fadas em alternância com esse romance – Cunningham disse, em entrevista à The New Yorker, que começou a escrever estas pequenas histórias quando o romance enferrujou e enquanto esperava por retomar a narrativa e descobrir os caminhos por onde queria que esta avançasse.

Como escreveu o Independent, na maioria destas versões não há grandes conclusões nem soluções mágicas que tudo curam. De certa forma, o que Cunningham faz nestas histórias que quase sempre encerram uma lição moral (embora nunca uma moral redonda e redentora, mas com frequência uma moral amarga e até relativamente “amoral”) é dar-lhes uma coloração mais lúcida e realista, ou seja, mais pessimista e também mais verdadeira, subvertendo o clássico remate “e viveram felizes para sempre”, na consciência de que a vida é difícil e todos, sem exceção, têm as suas “dívidas cármicas” (digamos assim) para saldar e resolver, não estando ninguém na verdade autorizado a pensar que tem o direito a ter uma vida simples e fácil. Cunningham pega nos aspetos mais ocultos, esquecidos ou omitidos destas histórias e transforma-as em fábulas reveladoras e com apelo moderno. As ilustrações de Yuko Shimizu que acompanham cada conto contribuem também, como uma espécie de simbólico ex-líbris, para essa revelação.

Michael Cunningham
Um Cisne Selvagem e Outros Contos
Gradiva, 144 pp.

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