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Emoções que fazem pensar

Texto: NUNO GALOPIM

A passagem de Anohni pelo Coliseu dos Recreios, em Lisboa, apresentou-nos um espetáculo intenso na música, nas imagens, nas palavras e nas ideias. E a noite deixou-nos com uma questão a que teremos de responder.

Foi um serão intenso, cheio de sentidos e carregado de pensamentos que saem do palco para a plateia sem contudo o peso panfletário tantas vezes presente na música que quer ser também peça política. Sob a sua nova identidade, Anohni – que antes conhecíamos como Antony Hegarty e agora se apresenta como mulher transgénero – deu corpo a um processo de reinvenção que passou também pelo plano do pensamento das linguagens musicais que agora servem a sua voz e as suas palavras. E, convenhamos, poucas vezes as mudanças fazem tanto sentido como esta o está a mostrar. E se o disco – Hoplessness, lançado já este ano – era já todo um programa de intenções bem estimulante, a sua materialização ao vivo deu-nos a viver uma daquelas raras noites que guardamos entre as que fizeram o melhor das nossas histórias com palco pela frente. Sim, foi mesmo assim tão bom.

A noite começou por nos desafiar a sair dos espaços, das cores, dos ritmos que tínhamos deixado lá fora, na rua, antes de entrar na sala do Coliseu. Um longo vídeo, apenas acompanhado pelo marulhar digital de sucessivas vagas de ruído, acompanhou o lento apagar das luzes da sala, mostrando no ecrã, que dominava o palco, Naomi Campbell no mesmo cenário em que já a tínhamos visto no teledisco de Drone Bomb Me. Mas sem a canção, agora a preto e branco, repetindo movimentos, em sucessivos zooms e olhares de frente, sem contudo outro som senão o do repetido som daquelas vagas geradas digitalmente… Parecia mais peça de instalação para mostrar numa galeria ou museu. Mas, ao cabo de 20 minutos, as imagens, os sons, o olhar intenso de Naomi Campbell, tinham-nos transportado para uma outra dimensão: aquela em que a música de Anohni ia ganhar materialidade, ali mesmo, à nossa frente.

Sem romper a cadência lenta dos acontecimentos e transições, também a chegada da voz protagonista nos pediu tempo. E se o concerto chegava ao som do visionário Hoplessness – peça que ajuda a definir o que é a linha da frente da canção electrónica do presente – na verdade o palco só nos mostrava as figuras dos músicos Daniel Lopatin (também conhecido como Oneohtrix Point Never) e Hudson Mohawke, munidos dos seus arsenais de máquinas, pelas quais nasceria todo o acompanhamento instrumental do concerto. O palco estava contudo dominado pelo primeiro de vários vídeos (haveria um por canção) que, seguindo o mote sugerido uma vez mais pelo de Drone Bomb Me, nos revelava rostos (agora a cores e com justificado aplauso para quem conseguiu tão incrível cast de figuras humanas), filmados em grande plano, movendo os lábios como que cantando, ao mesmo tempo que a voz de Anohni.

Só à segunda canção aquela que era a presença que ali nos levara entrou em palco, num hábito com ares de coisa para monge vestir, completando uma encenação que centrou então nas canções, nas imagens, na força da música (e que som!) e das palavras, a alma de uma construção na verdade mais herdeira de um sentido de teatro musical (operático, se quiserem, apesar da não presença do canto lírico) do que das rotinas habituais em noite de concerto em terrenos da música popular.

Peças de sedutor detalhe na filigrana dos acontecimentos eletronicamente concebidos, as canções acentuaram na sua expressão em palco toda a carga política que transportam, ajudando os rostos que íamos vendo no ecrã a sublinhar algumas das grandes questões do nosso tempo, notando quão são igualmente importante as do foro identitário quanto as (igualmente políticas) que nos unem e fazem viver o espaço comum enquanto sociedade. No fim, uma mulher, dominando o ecrã, deixou a sua voz suplantar a música que, uma vez mais lentamente, se apagava (com os músicos a deixar a cena sem os acenos da praxe). Falava-nos da nossa vida, do nosso mundo. Um tanto estragado (e todos o sabemos que está). E antes de sairmos, deixou-nos com uma questão, que afinal ficou a ressoar em todos nós tanto quanto o deslumbramento da construção estética de todo o concerto: “o que vamos fazer para fazer deste um mundo melhor?”…

Não poderia, depois disto tudo, haver um encore. A força do que tínhamos visto e escutado e a carga maior da questão com que o palco fechou o programa eram coisa intensa demais para pedir qualquer coisa a seguir. E digam-me lá: quando vão ver a Madama Butterfly, de Puccini, pedem à protagonista Cio-Cio San que ressuscite depois do fim para cantar mais uma ária?

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