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O mundo em cacos (parte 2): edição revista e piorada

Texto: NUNO GALOPIM

Vinte anos depois de O Dia da Independência, uma sequela retrata o reencontro da Terra com os mesmos alienígenas pouco dados a mimos. O contexto é bem lançado. Mas a narrativa opta por soluções demasiado semelhantes às do filme original. E com piores resultados.

Desde sempre o homem viveu com medo de invasores. Sejam eles vizinhos ou vindos de mais longe, cruzaram etapas da história com relatos que ora ficaram escritos ora retratados nas mais diversas formas de representação visual. Quando chegou a hora de ficcionar sobre invasores não faltavam fontes de inspiração na realidade. E, quando em finais do século XIX H.G. Wells apontou para o planeta mais próximo (ou seja, Marte) como a casa daqueles que nos iam invadir, na verdade tinha o comportamento colonizador das culturas ocidentais em mente quando imaginou a chegada de hordas que tratavam os locais com o mesmo desdém e postura implacável com que populações de comunidades humanas e animais haviam conhecido o momento do choque com os povos europeus. Essa história de invasores marcianos, que foi publicada como A Guerra dos Mundos, abriu contudo um novo capítulo neste departamento de medos. E, com o passar dos anos, os ecos terrenos que haviam motivado Wells foram ficando cada vez mais distantes das sucessivas novas chegadas – quase sempre ameaçadoras – de gentes de outros pontos do universo.

Depois de primeiras vidas em revistas e livros, os invasores vindos do espaço conquistaram os ecrãs do cinema nos anos 50 e, pouco depois, chegaram também à televisão, criando um corpo de obras, umas melhores, outras piores, que tiveram em 1996 um momento em que parecia que tudo de arrumava definitivamente, quer pela via do sarcasmo com que toda este departamento de feitos era recordado por Tim Burton em Marte Ataca! ou usando as vitaminas do choque e horror, com travo de filme-catástrofe na idade dos grandes efeitos visuais, que Roland Emmerich apresentou em O Dia da Independência. E, apesar daquele discurso básico de apelo patriota (para americano ver), que precedia a luta final – ainda por cima a 4 de julho, tal era a coincidência – e de uma opção clara pela valorização do impacte da espetacularidade das imagens de destruição, o filme de 1996 era suportado por algumas boas ideias narrativas e até mesmo visuais, encontrando inclusivamente uma forma de incorporar numa história de ficção toda a “mitologia” do caso de Roswell e dos espaços da Area 51…

Para mais gosto de uns do que de outros (entre os dois “colossos” de 1996 eu votei sempre em Marte Ataca!), O Dia da Independência fez-se um clássico do género, com bilheteira a inscrevê-lo entre os mais bem sucedidos de sempre no género. E tal como o mostrava a conclusão da história, tudo parecia ali arrumado. Até que, 20 anos depois, tudo regressa. Ou seja, os alienígenas, as personagens, os atores… Todos juntos (salvo Will Smith, que terá pedido soma tão astronómica que a Fox não quis pagar), numa sequela que, desde logo, entra em cena com (ao contrário do filme de 1996), com uma porta aberta a um outro filme mais.

Não sei se terá sido boa ideia… Nem pelo filme em si. Nem pela bilheteira. Ainda é cedo para fazer contas mas, na estreia nos EUA, o peixinho Dory deu já uma valente tareia aos alienígenas no box office. A invasão vai ainda no ardo e há mercados (como o chinês) onde estão depositadas grandes esperanças… Mas seja como for o filme de 1996, mal chegou ao ecrã, causou outro impacte.

Entremos então (finalmente) no filme…

Tal como no tempo que medeia os dois filmes, também no plano da ficção passaram 20 anos, facto que a verdade material dos corpos dos atores – que retomam os papéis – ajuda a sublinhar. Mas o 2016 que vemos no filme é diferente daquele em que vivemos. E porquê? A vitória humana sobre os alienígenas deu a conhecer a sua tecnologia que, uma vez dominada, permitiu desenvolver as coisas ao ponto de haver novas e florescentes cidades com prédios ainda mais altos (a Casa Branca quase parece agora a casa do velhinho do Up a Pixar), sistemas de transporte que desafiam a força da gravidade e até mesmo bases de defesa instaladas na Lua e num dos satélites de Saturno. E porquê tantas defesas num mundo que, depois da ameaça comum de 1996 quis tudo menos os muros de um Trump ou os ‘brexits’ de um Farage? Porque, desde há 20 anos, que “eles” eram esperados… E eis se não quando regressam. E logo num 4 de julho!

É nessa primeira coincidência que Roland Emmerich e a equipa que com ele assina o argumento começa traçar uma narrativa que se deixa contaminar excessivamente por pontes e semelhanças com o filme de há 20 anos. Se a ideia de retomar personagens (e até os catraios estão crescidos e têm outra voz na ação) é interessante e as premissas “macro” com que é enquadrada a ação dos alienígenas no quadro galáctico suportam a narrativa, já a sucessão de pontes entre o que se viu e volta a ver acabam por ora cansar pela repetição ora vetar o efeito de surpresa com que algum eventual twist possa ser concebido (e convenhamos que, nesse departamento, Emmerich teria muito a ganhar se visse as abordagens de Ridley Scott e James Cameron à saga Aliens).

No mundo invadido de 2016, no qual os EUA têm uma mulher presidente – mas na tradição cowboy das figuras que disparam primeiro e fazem as perguntam depois – uma visita alienígena cruza o espaço e chega à Lua, onde se coloca sobre a base local. Com o tirinho de quem prefere as armas à diplomacia – não imaginando se aqueles são ou não os mesmos aliens – a visita é destruída… A verdade é que pouco depois chega outra, bem maior. E dessa vez não há dúvidas, são os mesmos mafarricos de há 20 anos. Com uns canhões “xpto” novos e uma broca que quer retomar o que ficou a meio há 20 anos: um furo até ao núcleo da Terra, que terá consequências fatais para a vida no planeta… A visita chega quando David Levinson (novamente interpretado por Jeff Goldblum) está em missão junto de um senhor da guerra africano que, junto à nave com a broca original de 1996, viveu dez anos de luta corpo a corpo com os alienígenas que ficaram na região. E esta corresponde a outra das (poucas) adendas interessantes que a nova narrativa junta à original: a ideia de que houve combates que se estenderam no tempo e na geografia face ao que vimos no filme original.

Face à virulência dos ataques do filme de 1996, a nova (gigantesca) nave alienígena parece mais interessada em fazer o furo – desta vez em pleno Atlântico – do que em perder o tempo com escaramuças aqui e ali. Mas como há duas horas de filme para encher e à volta da “broca” só há um navio e peixinhos – e aí é melhor não fazer concorrência aos amigos de Nemo – a história centra-se entre o velho Presidente Whitmore (Bill Pullman), que não resiste a fazer novo discurso “motivacional”, a sua filha e os amigos dela, todos eles pilotos de aviação (o que, está visto, dá um jeitão). Depois há ainda espaço para o regresso do pai de Levinson (uma vez mais com Judd Hirsh, a quem cabe parte do comic relief) ou do Dr. Hokun (Brent Spinner), que tem a seu cargo uma das primeiras presenças evidentes de uma personagem gay num filme de ficção científica desta dimensão. De novo, com visibilidade maior, e além do trio de jovens estrelas – Liam Hemsworth, Maika Monroe e Jessie Usher – há ainda o “senhor da guerra” (Deobia Oparei) e uma psicóloga que andou anos a fio a estudar pessoas afetadas por visões associadas aos alienígenas (Charlotte Gainsbourg), que procura talvez o efeito de um Truffaut (como Lacombe) nos Encontros Imediatos de Spielberg, mas a milhas de distância…

O mais curto prólogo antes do “escavacanço” não dá contudo às personagens novas tempo para se individualizarem tão bem quanto as do filme original, ficando a sua caracterização por traços mais leves e superficiais. A chegada da grande nave causa a sequência de destruição massiva do filme que, apesar da frase mais bem nascida do filme – num comentário da personagem interpretada por Jeff Goldblum quando refere que os aliens têm um gosto especial por estragar monumentos – é de um aparato tão exagerado que contrasta (por excesso desmedido e afinal pouco eficaz) com o rasto das catástrofes do filme original.
E depois? Depois acontece que o argumento não se decide por onde quer ir. Se pelo combate dentro da nave-mãe (numa espécie de filme de Vietname com aliens à mistura), se pelo festival de space opera com naves e raios, se pelo aproveitamento do centro de detenção de alienígenas criado na Area 51 ou se pela figura da rainha (que pisca o olho à do Aliens de Cameron)… Há um outro elemento alienígena em jogo… Mas esse nada como o descobrir no filme. Até porque, se a bilheteira ajudar, será a chave para que aqui nasça uma trilogia… Seja como for, e para já, não vão com grandes espectativas… Tudo é aparatoso e visualmente competente… Mas a história, mesmo suportada por algumas premissas interessantes, deixa o melhor que tinha pela rama e perde-se no mais do mesmo. Em pior ainda do que no filme de há 20 anos…

“O Dia da Independência: Nova Ameaça”
Realização: Roland Emmerich
Com: Bill Pulman, Jeff Goldblum, Brent Spinner, Charlotte Gainsbourg, Liam Hemsworth, Maika Monroe e Jessie Usher.

1 Comment on O mundo em cacos (parte 2): edição revista e piorada

  1. Subscrevo!! Penso que no futuro será “Blockbusters: A Nova Ameaça” tal é o excesso.

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