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Quando Tintin foi um herói de carne e osso

Texto: NUNO GALOPIM

O BFI (British Film Institute) editou em DVD os dois filmes de imagem real que, na primeira metade dos anos 60, levaram um conjunto de atores e dois argumentos inéditos ao encontro do universo de Tintin.

Um dos maiores (senão mesmo o maior) herói da BD franco-belga, Tintin não teve nunca vida fácil fora das tiras ou das pranchas nas quais as suas histórias se revelaram, aos quadradinhos. E o cinema, que esteve entre as preocupações de Hergé (o seu criador) não foi nunca um destino de sucesso garantido para o repórter e seus parceiros de aventuras.

Tinha já havido em 1947 uma adaptação belga, em animação stop motion, de Le Crabe aux Pinces d’Or, por Claude Misonne quando o próprio Hergé contactou os estúdios Disney para propor uma eventual colaboração que permitisse a Tintin chegar ao grande ecrã por via da animação mais clássica. Enviou uns álbuns para que soubessem do que falava. Mas, num tempo em que Tintin não estava ainda publicado nos EUA, de lá veio um não… O tempo abriria possibilidades via televisão, numa série que adaptou os álbuns e fez história no pequeno ecrã e, ainda em terreno do desenho animado, haveria uma adaptação de Le Temple du Soleil em 1969, por Eddie Lateste, e mais tarde, já sem ligação a nenhuma das narrativas dos álbuns, mas com supervisão do próprio Hergé, surgiu Tintin e o Lago dos Tubarões (1972), realizado por Raymond Leblanc, que daria origem a um livro usando frames do próprio filme.

Quando, em 2011, Steven Spielberg, num projeto conjunto com Peter Jackson, devolveram a figura de Tintin ao grande ecrã, num filme baseado nos livros O Segredo do Licorne e O Tesouro de Rackam, O Terrível (mas com um segmento completamente novo na sua reta final), o sonho de Hergé talvez se tenha concretizado. Estava ali, e suportado não apenas pela tecnologia mas também por uma segura visão cinematográfica, uma ideia de fusão da essência “animada” que é natural de uma realidade que nasce do desenho, mas que estabelece pontes – via motion capture – com atores de carne e osso. Com um segundo e um terceiro filmes já anunciados (o próximo será baseado em O Templo do Sol e As Sete Bolas de Cristal), a história de Tintin no cinema está, pelos vistos, longe de encerrada.

A abertura deste espaço de trabalho pelas mãos de Spielberg e Jackson permitiou contudo o regresso à vida de dois filmes realizados nos anos 60, sob supervisão de Hergé e que, na verdade, são os únicos em que Tintin, o Capitão Haddock, o Professor Tournesol, os gémeos Dupond e Dupont e o cãozinho Milou (sim, sigo os nomes franceses, coisa do hábito), tiveram uma vida com atores reais, sem truques e animação pelo meio.

Encontrado o ator para vestir a pele de Tintin após um processo que não foi fácil nem rápido, mas que identificou como candidato certeiro Jean Pierre Talbot, um jovem instrutor desportivo, o processo de produção do primeiro filme concentrou atenções no desenvolvimento de um argumento inédito – nunca levado a nenhum livro – com ação entre a Turquia e a Grécia, antecipando de certa forma algumas ideias de cinema de ação e aventura que depois conhecemos entre filmes de James Bond ou Indiana Jones.


“O Mistério das Laranjas Azuis”

Há contudo em As Aventuras de Tintin (de 1961, originalmente estreado como Tintin et le Mystère de la Toison d’Or), tal como depois em O Mistério das Laranjas Azuis (de 1964), um registo burlesco que, se herdeiro natural de um sentido de humor que parte da banda desenhada, acaba por reduzir a sua expressão em imagem real a um patamar mais próximo da caricatura que de um sentido de perigo, emoção, ameaça e inteligência que na verdade habitam também estas histórias. Esta opção acabaria por reduzir as potencialidades destas experiências em imagem real a um espaço com maiores afinidades para o público mais jovem, não traduzindo como a BD o apelo dos 7 aos 77 que é imagem de marca dos livros de Tintin.

Mais uma curiosidade do que verdadeiramente peças maiores na história do cinema (ou até mesmo do universo Tintin), estes dois filmes, o primeiro realizado por Jean-Jacques Vierne, o segundo por Philippe Condroyer, estão disponíveis em DVD em edições do BFI, acompanhados por booklets que ajudam a contar a história desta (breve) aventura de Tintim com carne e osso.

PS. Pena que um dos filmes (o de 1961) surja nesta edição apenas na versão dobrada em inglês.

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