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Um conto de amizade

Texto: ANA DAVID

Um filme de baixo orçamento cujas personagens vivem com um orçamento baixíssimo, “Tangerine”, de Sean Baker, é uma comédia dramática com uma admirável riqueza criativa e narrativa.

Aquando da sua estreia em Sundance, e nos meses que se seguiram, a discussão à volta de Tangerine parecia engavetá-lo como o filme sensação do festival por ter sido inteiramente filmado com um iPhone 5s. Visualmente impressionante e de ritmo acelerado e galvanizante, a lembrar Spring Breakers, de Harmony Korine, com o qual partilha o formato panorâmico, a quinta longa de Sean Baker é muito mais do que um notável exercício de uso de uma tecnologia contemporânea.

Se uma das razões pela qual retiramos prazer em ver cinema é vermos as nossas vivências retratadas, esta não podia, à primeira vista, ser uma história com menos probabilidade de identificação por parte da maioria: a dupla central de protagonistas são trabalhadoras do sexo transgénero e afro-americanas. É véspera de Natal e Sin-Dee Rella acabou de sair da prisão. Para desespero da sua amiga Alexandra, uma hiperactiva e escandalizada Sin-Dee percorre as ruas de tons quentes de Los Angeles em saltos altos, à procura do namorado “pimp” que a traiu com uma “white fish” (calão para mulher cisgénero).

Hilariante e sarcástico, repleto de referências pop e diálogos memoráveis, Tangerine é uma comédia brilhante, das melhores que a cena independente norte-americana nos deu. Contrariando a ideia de que apenas alguém que partilha a mesma identidade de género, sexualidade e/ou etnia pode construir um objecto cultural que ressoe verdadeiro a uma certa comunidade, Baker, um homem caucasiano heterossexual, assina aqui uma obra brutalmente honesta, nunca julgando as suas personagens nem nunca sendo condescendente com elas. Isto é possível muito por culpa do processo colaborativo de construção da história a que os seus filmes anteriores já tinham recorrido: tanto Mya Taylor como Kitana Kiki Rodriguez contribuíram enormemente para o guião, elas próprias actrizes trans e habitantes de LA.

O resultado é um retrato cru e dramático de uma subcultura a muitos desconhecida e invisível, mas cujas personagens fazem uso do humor e da sátira auto-infligida bem como da força e beleza que encontram na camaradagem feminina para enfrentarem a realidade desvantajosa em que se movem. Frenético e explosivo, mas capaz também de momentos de incrível delicadeza e vulnerabilidade, Tangerine é viciante também por contar uma história universal: a da amizade incondicional.

Texto originalmente publicado na Medeia Magazine Julho / Agosto 2016

“Tangerine”
Realização: Sean Baker
Com: Mya Taylor, Kitana Kiki Rodriguez, Mickey O’Hagan, James Ransone, Karren Karagulian
Distribuição: Films4You

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