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As (muitas) máscaras de David Bowie

Texto: NUNO GALOPIM

Com filmes de realizadores como David Lynch, Martin Scorsese, Paul Schrader ou D.A. Pennebaker, a filmografia de David Bowie como ator e músico protagoniza o ciclo que hoje arranca na Cinemateca Portuguesa.

Ainda Ziggy Stardust estava longe de ser uma figura imaginada e estava a canção Space Oddity em contagem decrescente para se transformar no primeiro episódio de visibilidade maior numa carreira que contava já com cinco anos de discos editados, quando David Bowie vestiu pela primeira vez a pele de personagens para pequenos filmes, uns deles de ficção, outros pensados para ora ilustrar as canções que tinha criado na reta final dos anos 60.

A sua estreia faz-se em The Image, uma curta-metragem de Michael Armstrong em 1967. Tem depois algumas presenças não creditadas ou de visibilidade menor em produções para televisão ou cinema. E, em 1969, vemo-lo como corpo da sua música em Love You Till Tuesday, um filme de 28 minutos de Malcolm J Thomson que, na verdade, não é mais do que um conjunto de criações na linha do que seriam os futuros “telediscos”, acompanhando canções como Rubber Band, When I Live My Dream ou a que dá conjunto ao todo, todas elas da etapa ligada ao (então quase ignorado) álbum de estreia David Bowie, de 1967, salvo uma versão ainda primitiva de Space Oddity.

O percurso de Bowie nas imagens continuou a evoluir entre capas de discos, a imagem de palco, primeiros telediscos e filmes-concerto, entre os quais o histórico Ziggy Stardust and The Spiders From Mars de D.A. Pennebaker (1973) ou Cracked Actor (1974), de Alan Yentob, este último uma criação televisiva para a BBC que até hoje nunca teve qualquer edição em suporte de home vídeo.

A “aventura” de David Bowie no cinema tem contudo o seu primeiro episódio maior no campo da ficção quando, em meados dos aos 70, Nicholas Roeg o chama para interpretar a figura principal de The Man Who Fell To Earth – filme que entre nós estreou com o título O Homem Que Veio Do Espaço – no qual o músico (e ator) deu corpo a um alienígena que chega de um planeta moribundo onde a escassez de água assumiu proporções catastróficas. Há contudo na personagem uma dimensão realista arrepiante já que este é, de todos os filmes em que Bowie trabalhou como ator, aquele em que a figura de ficção mais se cruza e dilui com a que o próprio então vivia num quotidiano que passava uma das mais assombradas etapas da sua vida (a “redenção” chegaria, pouco depois, com um quase anonimato entre as ruas de Berlim). O filme teve contudo um efeito marcante na obra de Bowie como músico e das suas imagens saíram as que vimos depois nas capas dos álbuns Station to Station (1976) e Low (1977).

Mais do que qualquer outra experiência anterior, seria esta a que daria fulgor a todo um percurso paralelo como ator (até mesmo no teatro) que, pelo grande ecrã, teria episódios imediatos em Just A Gigolo (1978), de David Hemmings e numa adaptação de Christiane F (1981) por Uli Edel, no qual tem um cameo como David Bowie e uma presença evidente na banda sonora. Estes dois filmes traduzem, no cinema, a vivência berlinense que conheceu na reta final dos anos 70.


“Feliz Natal Mr. Lawrence”


“Fome de Viver”

É na alvorada dos anos 80 que David Bowie conhece – e no mesmo ano (1983) – os seus dois papéis mais marcantes. Em Feliz Natal Mr. Lawrence de Nagisa Oshima leva à figura de um oficial neo-zelandês um jogo de ambiguidades que não era já estranho às figuras que fora vestindo como músico na década de 70. Em Fome de Viver, de Tony Scott, é um velho vampiro mortal que sabe que o seu tempo está a acabar e que para trás deixará a companheira de muitos anos (uma outra vampira, essa imortal, interpretada por Catherine Deneuve). Este filme ficou igualmente célebre no panorama pop/rock do seu tempo pela presença dos Bauhaus na sequência de abertura.

A partir de meados dos anos 80 as presenças no cinema tornam-se regulares e frequentes. Seja em filmes com uma carga musical evidente (e ligada assim à própria obra discográfica de Bowie) como Absolutamente Principiantes (1986) de Julien Temple ou Labirinto (1986) de Jim Henson, ou em ficções noutros azimutes da criação, de A Última Tentação de Cristo (1988) de Martin Scorsese, onde vestiu a pele de Pilatos, a um breve papel em Twin Peaks: Os Últimos Dias de Laura Palmer (1992) ou no biopic Basquiat (1993) de Julian Schnabel, onde encarnou a figura de Andy Warhol.

Entre a televisão e o cinema a sua obra manteve uma ligação com novas produções mesmo após a urgência clínica que o afastou da música em 2004, em plena Reality Tour. E é durante o longo interregno discográfico – que seria apenas rompido em 2013 com The Next Day – que é dirigido por Christopher Nolan em The Prestige (entre nós O Terceiro Passo), interpretando aí a figura (real) de Nicola Tesla.

É parte despe percurso que a Cinemateca Portuguesa propõe na sua programação deste mês, recordando importantes títulos nos quais o cinema contou com a presença de David Bowie como ator. Estão programados The Man Who Fell To Earth (O Homem Que Veio do Espaço, 1974), Just a Gigolo (1978), Merry Christmas Mr Lawrence (Feliz Natal Mr Lawrence, 1983), The Hunger (Fome de Viver, 1983) Absolute Beginers (Absolutamente Principiantes, 1986), Labyrinth (Labirinto, 1986), The Last Temptation of Christ (A Última Tentação de Cristo, 1988), Twin Peaks: Fire Walk With Me (Twin Peaks: Os Últimos Dias de Laura Palmer, 1992) e Basquiat (1996).

Há ainda outros que ora evocam a sua presença na história da música (como Velvet Goldmine, de Todd Haynes) ou que tiveram canções suas nas respetivas bandas sonoras. E neste último departamento poderemos rever filmes como Cat People (A Felina, 1982) de Paul Schrader, filme que estreou a canção Putting Out Fire, Mauvais Sang (Má Raça, 1986) de Léos Carax, onde ouvimos Modern Love , When The Wind Blows (Quando O Vento Sopra, 1988), animação Jimmy T.- Murakami para a qual gravou a canção do genérico, Lost Highway (Estrada Perdida, 1997) de David Lynch, onde o tema I’m Derranged ajuda a definir o clima, Inglorious Basterds (Sacanas Sem Lei, 2009) de Quentin Tarantino, onde se recupera Cat People (Putting Out Fire) e Io e Te (Eu e Tu, 2019) de Bernardo Bertolucci no qual se escuta a versão em italiano de Space Oddity, que Bowie editou em single como Ragazzo Solo Ragazza Sola. O ciclo inclui também The Life Aquatic With Steve Zissou (Um Peixe Fora de Água, 2004) de Wes Anderson – no qual o brasileiro Seu Jorge reinterpreta e transforma clássicos de Bowie, em língua portuguesa. E não falta a dimensão estritamente musical, quer na evocação do filme-concerto de D.A. Pennebaker, quer numa longa sessão de quase quatro horas de telediscos a apresentar dia 29, às 19.00 no ecrã da Sala M. Félix Ribeiro, assinalando o fim do ciclo.

O ciclo Absolutamente Bowie arranca hoje, pelas 22.30, com a projeção ao ar livre, na esplanada, de “Absolutamente Principiantes” de Julien Temple. O filme repete terça-feira, dia 5, na Sala M. Félix Ribeiro, às 15.30.

Podem consultar aqui o programa completo deste ciclo.

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