Últimas notícias

Um insuportável mundo novo

Texto: NUNO GALOPIM

Muito premiado em 2015, “2084 – O Fim do Mundo”, do argelino Boualem Sansal, é uma distopia que imagina um império dominado por uma ditadura religiosa no qual o livre pensamento é coisa não permitida.

Perto de um ano depois da visão de um cenário político num futuro próximo que via a presidência francesa entregue ao líder de um (fictício) partido islamita, correspondendo essa vitória ao início de um processo de graduais transformações na Europa (de certa forma retomando no nosso tempo o caminho que a história teria tomado, depois do século VIII, se o desfecho da vitória de Poitiers tivesse sido diferente), um outro romance em língua francesa junta elementos a um tempo de reflexão sobre as relações entre o poder e a religião no nosso tempo. Diferente de Submissão de Michel Houellebecq, o romance mais recente do escritor argelino Boualem Sensal – que em 2015 foi Grande Prémio de Romance da Academia Francesa e escolhido como Livro do Ano pela revista Lire – propõe uma incursão um pouco mais adiante no tempo para, com o 1984 de George Orwell como primeira fonte de inspiração, nos colocar perante um tempo em que um imenso império impôs aos seus súbditos uma ditadura religiosa, sujeitando todos a uma amnésia coletiva que fez esquecer tudo o que antes acontecer, característica fulcral na imposição de uma visão curta e distorcida que é dada aos habitantes a quem o pensamento pessoal é proibido e todas as ideias desviantes podem ser motivo para implacável repressão.

Sob evidente alusão ao radicalismo religioso que faz notícia (real) em alguns pontos do globo no presente, em 2084 – O Fim do Mundo Sansal – para quem estas temáticas não representam assunto estranho – usa uma série de personagens para nos conduzir a um momento de descoberta de outras verdades que não as oficialmente aceites. Ati, depois de uma convalescença num sanatório, e na companhia de Koa, enceta uma demanda por respostas, que ganha fulgor ao tomar consciência de uma descoberta de Nas, um arqueólogo que encontra evidências de que a história terá sido alvo de um revisionismo oficial.

Num Abistão (assim se chama aquele império fictício) onde o inimigo de outrora desapareceu sem deixar aparentemente rastos, a data de 2084 era “fundadora (…) embora ninguém soubesse a que é que ela correspondia”. O quotidiano faz-se de trabalho e de uma sucessão de provas e testemunhos de uma fé irrevogável sem as quais o cidadão não pode existir. Infringir as regras da “Fraternidade Justa” e dos que zelavam pelas regras conduziria cada um dos faltosos à cólera do deus único. A trama conduz o protagonista Ati a revelações e iluminações sucessivas. Que o expõem à verdade. Mas também ao perigo, obrigando-o a uma permanente luta contra o medo que todos subjugou.

Poupando-nos ao “piloto-automático” com que Houellebecq acabou por encarar algumas das personagens de Submissão (um livro na verdade bem mais interessante no levantar das premissas e na constatação das suas consequências), em 2084 – O Fim do Mundo Sansal, que é também mais vibrante e intenso quando focado no contexto, consegue mesmo assim levar o rumo da narrativa e das personagens por uma trama que se desenha num caminho mais inspirado. Entre heranças da fonte de inspiração maior e ecos de acontecimentos do nosso tempo, constrói uma distopia que merece já um lugar entre as mais importantes expressões do género. E, tal como as muitas outras que fomos lendo, geração após geração, não resulta de um mero exercício de ficção. Há condimentos reais que encontramos em factos e lugares do mundo real que aqui ressoam de forma assustadora.

Boualem Sensal
“2084 – O Fim do Mundo”
Quetzal, 270

1 Trackback / Pingback

  1. Ficção especulativa em Julho de 2016 | Rascunhos

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: