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Os três melhores discos do segundo trimestre de 2016

Textos: NUNO GALOPIM

Com as contas feitas a mais um trimestre, aqui fica uma seleção de discos que marcaram o que de melhor se escutou entre abril, maio e junho de 2016 nos espaços da música popular.

Três discos que marcaram o segundo trimestre de 2016. Um é assinado por um veterano. Os outros dois estão na linha da frente da invenção com as eletrónicas.

Houve mais títulos a merecer destaque neste trimestre, do álbum dedicado a Shakespeare por Rufus Wainwright ao segundo capítulo da colaboração entre os Pet Shop Boys e o produtor Stuart Price, sem esquecer o magnífico novo disco do projeto Mutual Benefit ou o regresso em forma dos Radiohead no seu novo álbum de estúdio ou de PJ Harvey em mais um álbum profundamente polítuco. Mas estes três foram os eleitos a merecer destaque nesta hora de fazer o balanço ao semestre.

Paul Simon
“Stranger to Stranger”
Concord / Universal

Por direta associação de ideias é natural que liguemos Paul Simon aos universos da canção com ascendência folk. Da (notável) parceria que manteve com Art Garfunkel entre os sessentas e a chegada dos setentas a uma série de expressões que foi registando em discos em nome próprio, essas heranças cruzam a sua obra. Foi porém quando alargou a geografia dos sons a outros instrumentos (e lugares) que a sua música mais brilhou. Aconteceu ainda com Garfunkel quando teve em Bookends o disco de horizontes instrumentalmente mais desafiantes da obra da dupla. E depois, a solo, quando entre Graceland (1986) e The Rhythm of the Saints (1990) assinalou passos que não só contribuíram para uma visibilidade maior (na cultura pop ocidental) de músicas oriundas de outras paragens – nomeadamente da África do Sul e do Brasil – assinou os dois melhores capítulos da sua obra discográfica em nome próprio. E como não há duas sem três eis que, com o novo Stranger to Stranger não só nos dá o seu melhor disco em 30 anos, como com ele completa esse par de álbuns inesquecíveis com um disco que com ambos contrasta por não procurar ligações a um lugar e a uma cultura, partilhando contudo o interesse e gosto na exploração de instrumentos que olham para lá do universo que habitualmente tem ao seu redor.

Fruto de alguns anos de trabalho, Stranger to Stranger é um disco feito de canções que tomam as características tímbricas dos instrumentos como peças tão importantes quanto a composição, letra e interpretação. E por isso Paul Simon recorreu a alguns (muitos) colaboradores, entre eles Harry Partch, musicólogo e construtor de instrumentos. Numa lista (extensa) de músicos chamados a estúdio, os créditos do álbum revelam ainda presenças como as de Cristiano Cristi – um DJ e produtor italiano que assina como Clap! Clap! – ou de Nico Muhly, que assina arranjos e toca diversos instrumentos.

Sem expressar claramente nem uma geografia nem um tempo, sendo contudo um disco do nosso aqui e agora, Stranger to Stranger alia a escrita sólida (e bem reconhecível) de um veterano que há muito nos mostrou que sabe escrever canções e uma voz de qualidades igualmente reconhecidas a um percurso de descobertas onde as electrónicas convivem com percussões sul-americanas, metais e ecos africanos. Um mundo de acontecimentos, que chamou novamente o trabalho de um velho colaborador: o engenheiro de som e produtor veterano Roy Halee, que fora determinante tanto na captação do som de estúdio nos tempos da parceria com Art Garfunkel e, mais tarde, elemento chave para garantir unidade à abertura do som das canções à variedade de cores e sons dos instrumentos e vozes de Graceland e The Rhythm of the Saints.

O novo disco de Paul Simon (neste momento com 74 anos) é, ainda, mais uma expressão de grande forma de um veterano, juntando-se assim a títulos editados nos últimos tempos por figuras como Bob Dylan, Paul McCartney ou David Bowie (no seu disco de despedida), que nos lembram que não é só nas descobertas feitas entre os novos clubes, pistas de dança e college radios que mora o talento mais inventivo do presente. Há que contar com os veteranos.

Pantha du Prince
“The Triad”
Rough Trade

Se a evolução de uma obra traduz a soma dos acontecimentos e experiências que vai vivendo e assimilando, então a que Henrik Weber tem vindo a construir como Pantha du Prince é um belo exemplo para o exemplificar. E The Triad, o primeiro álbum que edita desde a experiência conjunta com o coletivo The Bell Laboratory (usando os carrilhões da Câmara Municipal de Oslo), é um claro fruto do acumulado de vivências e trabalhos que já conhceu.

Dos ensaios pelo tecno minimal que registou em Diamond Daze (2004) e o soberbo This Bliss (2007) à procura de ecos de um lugar e da sua narrativa em Black Noise (2010), juntando depois o progressivo interesse pelo trabalho de colaboração com outros músicos (que o juntou já a Panda Bear ou ao coletivo The Bell Laboratory), o percurso que o músico (que antes tinha já gravado como Glühen 4) tem vindo a criar para o projeto Pantha du Prince transportou-o ainda do mais habitual patamar de existência solitária (tão característico em quem trabalha nestes comprimentos de onda) a um terreno de labor colaborativo que, em The Triad, quase sugere uma identidade conjunta de banda.

Na verdade a “tríade” a que o título se refere não é mais do que o trio que a Henrik Weber juntou as presenças ativas de Bendik Kjeldsberg (do coletivo The Bell Laboratory) e de Scott Mou (que se apresenta habitualmente como Queens), o álbum traduzindo a vibração emocional e vivencial do encontro que, além deles, contou com mais alguns colaboradores.

Sem abandonar as fundações de uma identidade formada no tecno minimal (e basta ouvir uns segundos de qualquer tema para reconhecer as marcas de presença do autor), o disco aprofunda o trabalho de integração das sonoridades de sinos e carrilhões, assim como vinca uma mais expressiva utilização de elementos tocados para lá dos samples e programações. É contudo numa maior quantidade de momentos vocais que The Triad encontra a alma de um álbum que deixa claro (e atenção que não é o primeiro a fazê-lo) quão viva, humana e emotiva pode ser, afinal, a música electrónica. A voz não é contudo destacada do corpo instrumental como frequentemente acontece na canção seguindo, antes, uma lógica de diluição no corpo total, um pouco como conhecemos em algum do trabalho de uns Sigur Rós (curiosamente, há afinidades possíveis com o quarteto islandês em The Winter Hymn, que abre o disco).

Aos instrumentos tocados “ao vivo” e à mais frequente presença da voz, The Triad encontra outros focos de ligação emocional no quadro de referências e relações que as composições sugerem. E quando cita Agnés Varda em Lions Love ou a memória de Fritz Lang no contagiante Frau Im Mond, Sterne Laufen, as ligações estabelecem-se e, uma vez mais, é da experiência emocional que vive o momento em que a ligação à música acontece.

Feitas as contas, e depois de três álbuns de exceção entre This Bliss, Black Noise e Elements of Light, Henrik Weber volta a fazer do seu projeto Pantha du Prince um dos valores mais interessantes da música electrónica do nosso tempo.

Tim Hecker
“Love Streams”
4AD / Popstock

É bem verdade que a 4AD pode não ser hoje a casa com o impacte mediático (e consequentes vendas em feição) que desta fizeram uma das editoras independentes que levavam o melómano a investir num disco de um nome novo, mesmo que ainda o não conhecesse muito bem. Era 4AD… E isso dizia muito do nível da coisa que ali se esperava encontrar nos tempos em que nomes como os Cocteau Twins, Dead Can Dance, This Mortal Coil, Throwing Muses ou Pixies eram o rosto mais visível de um catálogo realmente incrível. Ao entrar agora no catálogo da 4AD, o canadiano Tim Hecker é todavia transportado para um patamar de visibilidade e aspirações que podem transformar um dos mais aclamados autores de um universo experimental nos espaços da música electrónica num caso sério do nosso tempo. E, com um disco como Love Streams como cartão de visita para esta sua nova etapa, convenhamos que não poderia começar da melhor maneira a sua associação à editora.

Tim Hecker está longe de ser um novato. Já na casa dos 40 e com um doutoramento feito sobre a relação dos sons com a cidade, e com um passado profissional que o fez já passar por um cargo de analista político ao serviço do governo canadiano, começou por fazer música mais com vontade de alimentar os músculos das pernas que as sinapses cerebrais, gravando discos e assinado DJ sets como Jetone. Porém, outros destinos possíveis para os sons, talhados sob ferramentas electrónicas, começaram a desviar as suas visões para outros espaços. E tanto em discos como Instrumental Tourist, que gravou em 2012 em conjunto com Daniel Lopatin (o músico que se apresenta também sob o nome Oneohtrix Point Never) e Ravedeath, 1972, que registou na Islândia, ao lado de Ben Frost, foi definindo novas rotas e destinos para o seu som. E agora, em Love Streams, alcança um terreno de reflexão que transcende as ideias do ruído e as da música ambiente. Mas que, de certa forma, habita as suas periferias sem desejo de caminhar para muito longe deleas.

Há, na origem de Love Streams, uma memória antiga da história da música. Em concreto peças corais de Josquin de Prez, compositor do século XV, que servem de ponto de partida como mote inspirador… Mas, ao invés do que Ambrose Field nos mostrou no brilhante Being Dufay, onde juntava um score electrónico experimental à voz mais canónica de John Potter, em Love Streams os ecos que chegam do século XV, assim como as vozes do coro islandês que lhes servem de possível ponte rumo ao presente, encontram contudo um processo de transformação que esbate as fronteiras de tempo e junta as linguagens, sons e referências, numa experiência musical nova, coesa e intrigante.

Contando com as participações de figuras como Johann Johanssón ou Ben Frost, gravado nos mesmos estúdios islandeses em que registara já os álbuns Ravendeath, 1972 (2011) e Virgins (2013), e acompanhado com um discurso teórico – afinal temos aqui um académico especialista nestes assuntos – que fala de reflexões possíveis para um sentido de liturgia depois da experiência de ouvir Yeezus (sim, o de Kanye West) e de pretender aqui encontrar um sentido de transcendência para a voz na era do auto-tune, Love Streams é um disco que se revela aos poucos, carecendo de uma vivência que pede audições recorrentes, o tempo acabando por explicitar os elementos melódicos e os episódios de contemplação sónica que fazem esta música que podia ser ambiental. Sem ser coisa meramente ambient. E que baralha as coordenadas de tempo, em mais um espantoso exercício de diálogo entre épocas.

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