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Quando a arqueologia entre discos nos leva… ao espaço!

Texto: NUNO GALOPIM

Através dos dois volumes da compilação “Cosmic Machine” é-nos dado um panorama sobre as visões que animaram alguns dos nomes que fizeram do ‘space disco’ uma primeira expressão eletrónica da pop francesa.

Se é verdade que o disco sound nasceu entre pistas de dança afastadas dos públicos mainstream da América de meados dos anos 70 e Star Wars, mesmo rodado entre a Tunísia e os estúdios (ingleses) de Pinewood, é um produto de uma visão made in USA do conceito de space opera, não deixa de ser curioso verificar que a aurora de uma realidade musical que nasceu do cruzamento dessas duas ideias germinou em solo europeu, sobre tudo entre a França, Itália e Alemanha. Chamou-se-lhe então space disco e criava um espaço que juntava as novas tendências com gosto pelo pé de dança e as emergentes ferramentas electrónicas – que começavam a emergir entre diversas linhas da frente da invenção da música popular – com os efeitos do impacte de Star Wars que, chegado aos ecrãs de cinema em 1977, levou os sonhos sci-fi de muito boa gente a outros patamares e destinos…

Entre êxitos do momento e valentes tiros ao lado, construiu-se então um acervo musical que o tempo acabaria por arrumar nas prateleiras no limiar do esquecimento… Vale-nos o gosto pela redescoberta e toda uma forma de reavaliar a memória que vai surgindo em novas gerações com interesse pela arqueologia dos sons em vinil deixados pelas anteriores. E se Lindstrom levou muito boa gente a redescobrir algumas das suas referências (nomeadamente Patrick Cowley, que hoje está longe de ser ilustre desconhecido para novos admiradores dos primórdios das electrónicas dançantes), agora cabe a uma série de antologias made in France o efeito de (re)descoberta do melhor do space disco gaulês.

Editado em finais de 2013, Cosmic Machine é das mais suculentas compilações que o género já conheceu. Com ilustrações de Philippe Druillet (na linha do que era a invenção sci-fi dos anos 70) e seleção musical e texto de Uncle O, o volume de abertura da série Cosmic Machine contextualiza estas visões num tempo que se segue ao 2001 de Kubrick, a Switched on Bach de Wendy Carlos e, claro, à experiência vanguardista de Louis e Bebe Baron que, ainda nos anos 50, tinham criado uma banda sonora electrónica para o filme O Planeta Proibido.

Na França dos anos 70, a 30 anos do século XXI, com falta de petróleo mas sem dieta de ideias (como o texto lembra) uma jovem geração de músicos entra em cena para, com uma nova família de teclados e máquinas, procurar passos adiante das ideias já lançadas por Pierre Henry e Pierre Schaffer. As suas ideias manifestam um sentido de personalidade que não segue nem o tom mais cósmico (e depois maquinal, ler “motorik”) do que ia surgindo em contemporâneos alemães nem procura as pontes com as lógicas da cultura pós-punk que habitaria a new wave made in UK. E assim, muito antes do “french touch” que muitos atribuíram à emergência de uma nova cultura electrónica francesa nos noventas (com os Air, Daft Punk, Etienne de Crécy e outros mais), uma primeira vaga de acontecimentos materializou-se em discos que deram o ar da sua graça, alguns chegando mesmo a gerar êxitos colossais – como Magic Fly dos Space – outros a lançar carreiras – como a de Jean Michel Jarre.

Cosmic Machine juntava há três anos uma magnífica coleção de peças desses tempos, colhendo entre memórias de finais dos anos 70 e da alvorada dos anos 80 uma banda sonora que evoca os sabores da geração inaugural do space disco francês. Além dos Space e de Jarre (aqui representado com o menos mediatizado Blackbird), o alinhamento visitava nomes como os de Patrick Juvet, Cerrone, Droids ou Serge Gainsbourg (que nunca dizia não a experimentar novos sabores na música). E tem entre as pérolas maiores o luminoso Aqua, do projeto DVWB, uma peça de space pop com disco na alma e o vocoder por ferramenta de trabalho vocal, assinado por Daniel Vangarde, um músico de estúdio com muitos trabalhos feitos nos setentas e oitentas mas que hoje pode ser por muitos encarado como o pai de Thomas Bangalter, um dos dois elementos dos Daft Punk. E sim, fica claro que houve ali lições aprendidas em casa…

Agora chega a “sequela”. Cosmic Machine: The Sequel é uma segunda parte de uma história que continua assim a ser recordada, recuperando mais uma mão-cheia de tesouros das vanguardas cósmicas e electrónicas da França dos anos 70 e 80. Como é habitual em tantas sequelas, o cardápio segue a linha das ideias mas o elenco não é tão… gourmet. Mesmo assim, juntando contribuições que passam por espíritos fundadores como Moins Banal de Pierre Schaffer ou a leitura dos Anarchic System de Pop Corn (um dos primeiros êxitos pop feitos com electrónicas), este segundo volume caminha entre contribuições de Pascal Comelade, Cristophe, Stereo ou Francis Lai entre muitos outros…

E enquanto ali procuram material para um volume 3, porque não fazem os italianos uma recolha do género. Será saborosa, garanto!

Vários Artistas
“Cosmic Machine: A Voyage Across French Cosmic & Electronic Avantgarde (1970-1980)”
Because Music

Vários Artistas
“Cosmic Machine: The Sequel – A Voyage Across French Cosmic & Electronic Avantgarde (70s-80s)”
Because Music

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