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Branko: “Foi importante termos ultrapassado aquilo de ser a banda de um nicho”

Texto: NUNO GALOPIM

Com uma atuação incluída no cartaz do primeiro Globaile, os Buraka Som Sistema entram em modo de pausa ao cabo de dez intensos anos de trabalho. Branko faz aqui o balanço e lança pistas para o futuro.

Numa altura em que começa a ser norma as bandas fazerem reuniões é mais inteligente falar em pausa do que num fim?
Havia aquele medo de, se depois nos apetecer… Ou se acontecer alguma coisa… Tudo isto são peças em movimento. Neste momento se calhar não há energia nem inspiração para voltar para estúdio e fazer um quarto disco. Mas se calhar daqui a cinco anos, com tudo aquilo que fizermos entretanto, vai haver… Por isso hiato indeterminado foi a expressão que achamos melhor para tentar dar nome a isto…

Pode por isso haver uma reunião. Ou nenhuma…
Pois é isso. Pode ser que a coisa surja de volta, mas com um novo formato… Fica em aberto.

E porque era agora chegado o momento para parar?
Era o momento para, como banda, voltar a estúdio. Já tocámos vezes suficientes o último disco. A outra coisa é aquele fim de ciclo de dez anos de trabalho e de acharmos que, de certa forma, estamos com vontade de experimentar outras coisas. Cada um a fazer o seu percurso, a agarrar outras formas de entretenimento. Existe em nós aquela ideia da tentativa de diversificação da música, de como se consegue anular aquele eixo Los Angeles, Londres e Nova Iorque, que é 98% da música do planeta. Existe essa missão em Buraka. A banda sempre nos foi útil para nos colocar nessa posição. Mas agora se calhar existem outras formas de entretenimento que se calhar conseguem fazer passar ainda melhor esta mensagem. Livros do Kalaf, eu tenho o meu projeto, programas de televisão, aulas nas escolas de dança… Outras músicas, colaborações com outras pessoas.

Não fariam estes projetos sem estes dez anos em Buraka?
Acho que há uma experiência. Consegue colocar-nos num estatuto que não obriga a voltar ao zero. E este trabalho é o que nos está a posicionar no mundo, seja numa reunião com a BBC Radio 1 para um programa de rádio, seja com a RTP para um programa de televisão. Essa bagagem é super importante. Só estes dez anos já foram a coisa mais importante que qualquer pessoa do grupo algum dia fez.

Estes dez anos excederam as vossas expectativas?
Sim… Acho que ninguém as tinha… Em Portugal ninguém cresce com a ideia que tem uma banda e, daqui a um tempo, vai estar depois a tocar para o mundo inteiro. Quem estiver a crescer em Londres tem mais esses contactos à sua volta… Mas aqui esses caminhos não existem… Esse primeiro passo para nós foi importante. E depois foi preciso tentar construir qualquer coisa, com atenção ao que está a acontecer, para não nos perdermos. Para não ir tocar a sítios errados, para ter o disco a sair por sítios errados. Foi uma coisa muito controlada, em parte pela Enchufada, para colocar as peças do puzzle nos lugares certos. Conseguimos o mais difícil que é ter aquela banda que impõe respeito porque vende bilhetes. Em qualquer cidade europeia… Nesta tour dos dez anos esteve tudo esgotado, em salas maiores do que alguma vez tínhamos feito. Metemos duas mil pessoas em qualquer cidade europeia. Isto mexe. E isso tem a sua força.

Os nomes que trabalharam convosco traduzem também essa estratégia de crescimento cauteloso, com contactos bem feitos…
Se calhar no inicio trabalhámos com gente com nome mais sonante. Foi um inicio de percurso que passou muito pelo Diplo, pela M.I.A…. E depois, quando chegou a outra fase, sentimos que a fórmula já existe e as pessoas já tinham sido apresentadas a ela. E agora íamos trabalhar com pessoas que faziam a diferença para o nosso som. Para ser original… E fomos buscar o paralelismo a outras cidades.

Fazer a pausa em Belém trazia algum significado particular?
Forçámos um bocado a coisa em Belém. Nunca fomos uma banda de Lisboa Lisboa. Somos uma banda que se fez em vários sítios. O Kalaf, quando veio morar para Lisboa, viveu em Almada, na Costa da Caparica. Eu e o Rui crescemos na Amadora. Com a ideia deste dia, de fazer a curadoria deste festival, sentimos que não faria sentido o Terreiro do Paço, porque é um sitio de celebração da Lisboa central. A ideia de Belém é um pouco a de estar no meio disto tudo… E de lado. A ideia era a de descentralizar. É um ponto de convergência mais em pé de igualdade. Para muita periferia é o início de Lisboa.

A vossa história criou, ao contrário de alguns outros primeiros ensaios de exploração de novos caminhos para a música de dança entre nós (que apontavam mais aos eixos anglo-saxónicos), uma relação com África. No fundo traduziram vivências culturais que têm a ver com a nossa própria história enquanto povo e que em grande parte pareciam adormecidas…
A resposta está quase aí. Concordo com a ideia do adormecido. E pior ainda do que o adormecido é o reacionário, o não querer nada a ver com os pretos. E que ao longo destes dez anos foram sempre um constante em comentários em vídeos do YouTube… Esse é o lado em que se teve de lutar. E foi por isso importante termos ultrapassado aquilo de ser a banda de um nicho, com um bom conceito. E colocar músicas no cancioneiro geral português, como o Kalemba, o Wege Wege ou o Hangover. Qualquer pessoa conhece-as. E essa força das canções fez a viragem. Houve quem visse isso como sendo mais comercial, e havia quem dissesse que agora já não tinha piada nenhuma, porque era bom quando era alternativo e engraçado. Aquela coisa de sempre… Mas esse posicionamento das canções veio clarificar uma personalidade musical na cidade de Lisboa. Que é a desta relação única com África. E depois de ter um Kalemba no primeiro lugar já houve um Anselmo Ralph nos tops

Sentem uma responsabilidade pela nova relação que os portugueses têm hoje com a música africana?
Acho que é um caldeirão grande. Tudo isto influencia… Acho que estabeleceu essa nova identidade Lisboeta. Essa forma de olhar para a música em que um angolano já não é questionado por ninguém. E isso é um posicionamento que pode abrir portas. E foi uma missão relativamente bem sucedida.

E como foi a resposta do outro lado, junto dos países africanos?
Se pensarmos no que era há dez anos a kizomba, era uma coisa mais cheesy, tudo feito com teclados com outros sons, notamos que hoje é feita com uma produção r&b, música de dança. Está lá tudo e soa bem. Soa tão bem como um disco da Beyoncé, e com criatividade, com uma volta das coisas que bem sempre seria a mais óbvia. Com esta sofisticação conseguiram agarrar este som e fazer acontecer em Lisboa e levá-lo para o resto do mundo, tentando agarrar este caminho que está aqui traçado e fazer algo alternativo, num género paralelo de uma coisa que já existia. É diferente ouvir um som dos Irmãos Verdades ou do Nelson Freitas hoje em dia. E isso coloca esta música na posição em que está hoje. Que não veio só com Buraka. Cresceu na Holanda, tem Cabo Verde, com bolas de misturas culturais… Com a internet, isto é um caldeirão infindável de influências. Como reação direta senti mais no início… Quando se dizia: o que é isto? Era uma fase em que houve uma personagem que se impôs: a Patty, que conseguiu levar a mensagem de Buraka para Angola e com a qual as pessoas lá se identificavam bastante. Quando estávamos a gravar o Black Diamond passamos duas semanas em Luanda e houve uma fase em que toda a gente queria estar connosco no estúdio. Não voltamos a fazer isso, por isso não tenho um barómetro para ver se melhorou ou piorou. Mas como impacte da música, pelo menos em Angola, a fase inicial foi mais forte do que esta segunda, em que nos viramos para outros sítios do mundo. Estávamos à procura de novas coordenadas e isso talvez tenha confundido aquela mensagem inicial de kuduro de Lisboa, que estava a ter impacte em Angola e Cabo Verde.

Teriam entrado por um beco se não procurassem essas novas coordendas?
Acho que sim. Nunca nos vimos como isso, mas antes uma coisa para criar estas relações. Os primeiros concertos que demos em países de língua portuguesa em África foi nos primeiros quatro ou cinco anos. Depois não houve nada que me consiga lembrar com essa dimensão grande como o Festival da Baía das Gatas…

A Lisboa de hoje é diferente da que existia quando os Buraka surgiram?
A ideia de Lisboa ser o segredo mais bem guardado da Europa, para deixar de o ser aconteceu. E aconteceu por uma abertura cultural, por um posicionamento geográfico único… E as pessoas vêm à procura da cidade que é europeia mas que não parece da Europa. Acho bonita a ideia de estar na Europa numa cidade que não soa a Europa, não cheira a Europa…

A vossa história serve um pouco de banda sonora para as transformações que Lisboa viveu nestes últimos dez anos?
Acima de tudo há a afirmação dessa identidade, dessa personalidade. A geração que compra os CD que há nas lojas de souvenirs do aeroporto talvez não se tenha apercebido disso. Mas com o “fim”, isto agora até fica imaculado… Já é old school.

Vais sentir falta disto?
Os dez anos foram intensos. No ano em que lançamos o From Buraka to the World estávamos a tocar no Sudoeste… E o comboio esteve sempre em movimento. Fomos tentando trazer peças diferentes. Mas nunca parar também tem as suas consequências. Nunca conseguimos pensar de forma objetiva sobre o que é a banda, sobre para onde estamos a ir. É preciso alguma objetividade para fazer essa análise, que não se pode fazer em tour, na carrinha do concerto. É preciso parar, ir trabalhar noutra coisa para criar um distanciamento suficiente. E este momento agora é exatamente isso. As pessoas vão continuar a mexer-se e não vai haver uma ideia de saudades de estrada. Com o grupo todo sim… Nunca nos demos mal e cada um sempre teve o seu espaço. Buraka sempre foi uma banda que, pela gratificação de conseguir chegar onde se estava a chegar, nunca teve ninguém a dar isso como garantido. Nunca fomos daquelas pessoas que pedem coisas estranhas de rider. Nunca entrámos nessa fase de banda da parvoíce completa e absoluta. Sempre tivemos contentes por ir tocar ao Sonar e a outros sítios. Dessas saudades, de estar com o grupo na estrada, sim, haverá. Mas essas emoções vão dar lugar a outras.

Este adeus não foi feito contudo num tom de despedida… Há um novo festival a nascer…
Sim, o Globaile é uma ideia nossa, que vendemos à Câmara de Lisboa como um evento que vai ser anual. É para continuar, mas não sei com que parceiros. Este é o tipo de coisas que queremos fazer. A ideia é deixar um festival, que poderá vir a ter outros formatos, mas que vai manter este dia Buraka Som Sistema, independentemente de haver ou não banda. Vamos tocar nesta edição, mas vamos manter a curadoria para ali fazer um dia de festa em Lisboa, num espaço de celebração da cidade. A escolha de todos os que para já estiveram presentes passou por nós e que queremos que se reflita nos outros anos.

(Entrevista reproduzida por cortesia da revista ‘Time Out”)

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