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Os melhores três filmes do segundo trimestre de 2016

Seleção: NUNO GALOPIM Textos de: NUNO CARVALHO e NUNO GALOPIM

Entre dois títulos que chegaram às nossas salas de cinema e um que passou pelo Indie Lisboa fica um trio de referências que fazem já parte da história do melhor que o cinema nos deu a ver em 2016.

“Love Is Strange – O Amor É Uma Coisa Estranha”
Realização: Ira Sachs
Com: John Lithgow, Alfred Molina, Marisa Tomei

Ira Sachs, autor de Love Is Strange – O Amor É Uma Coisa Estranha, considera que tem uma responsabilidade pelo cinema queer. Um dever que, nas suas palavras, é o de não assobiar para o lado: “Tenho a responsabilidade de não fugir [de assuntos gay], e de reconhecer que uma das razões por que se foge é que estas histórias não são consideradas importantes na nossa sociedade. Sinto que é meu dever reconhecer a resistência que a ideologia dominante tem e ocupar-me com essa resistência de alguma forma autêntica, e isso também tornará o meu trabalho melhor.”

Ora, se em Keep the Lights On (que venceu o Prémio Teddy no Festival de Berlim de 2012 e também o Prémio de Melhor Longa-Metragem do Queer Lisboa nesse mesmo ano) Sachs sentiu a obrigação de contar uma história semiautobiográfica parcialmente inspirada na relação de dez anos com o seu ex-namorado, em Love Is Strange, embora o lastro biográfico seja mais subtil e difuso, há também uma nota pessoal, até porque o realizador já revelou que os seus filmes são uma espécie de remakes adaptados à sua sensibilidade e universo de filmes que, como requintado cinéfilo que é, o influenciaram e delinearam um percurso marcado pelo facto de ter sido rejeitado pelas principais escolas de cinema a que se candidatou. Na verdade, Ira Sachs, que estudou letras e teoria do cinema, acabaria por se estrear no cinema como assistente de realização de Norman Rene, autor de Longtime Companion (Companheiros de Sempre, 1989).

Em Love Is Strange, John Lithgow e Alfred Molina interpretam Ben e George, um casal nova-iorquino que já ultrapassou a meia-idade e que, quando decide selar pelo casamento uma união de quase 40 anos, se vê numa situação inesperada e delicada. Afastado do seu lugar de professor de música numa escola católica por oficializar um amor que era “tolerado” enquanto foi tacitamente vivido (o que só prova uma vez mais que o catolicismo é uma doutrina que se ajusta maioritariamente a espíritos hipócritas e desonestos que insistem em manter aparências e alimentar tabus cobardes), George vê-se obrigado, como principal fonte de sustento do casal (Ben tem uma pensão e o seu ofício de pintor nunca lhe deu muito dinheiro), a vender o apartamento de ambos e a pedir “asilo” em casa de amigos e familiares, o que resulta na sua separação por sítios diferentes. George passa a dormir no sofá dos seus ex-vizinhos, um jovem casal de polícias, enquanto Ben vai viver para casa da sobrinha, Kate (Marisa Tomei), uma escritora cuja vida familiar com o marido e o filho adolescente, Joey (com quem Ben partilha o beliche), sofre uma alteração que testa os limites da sua paciência.

Escrito em parceria com Mauricio Zacharias (com quem Sachs já havia colaborado no guião de Keep the Lights On), Love Is Strange é o melhor filme do realizador até à data (o novo Little Men, apresentado neste ano na secção Panorama do Festival de Berlim, promete também ser um dos filmes que vão marcar 2016). O estilo realista e natural dos desempenhos, desde logo os de Lithgow e Molina (que têm aqui os seus melhores papéis em anos), aliado a um tom contido, sóbrio e subtil, faz de Love Is Strange um retrato verídico e complexo de um casal cuja sobrevivência é posta à prova pela separação física, mas que de certo modo acaba mais unido pelos reveses da fortuna, embora também transformado na sua essência. O amor é mesmo um lugar estranho, e, quanto mais tempo nele permanecemos, talvez mais estranhos também nos tornemos. E, no crepúsculo da vida, pelo menos para Ben, resta a memória viva e ainda presente do amor possível em tempos em que todas as conquistas e progressos parecem garantidos e realizados, mas em que falta ainda, em vários aspetos, fazer a maior revolução de todas: a mudança interior e o alvor definitivo de um tempo que seja realmente novo. – Nuno Carvalho

“Um Mergulho Profundo”
Realização: Luca Guadagnino
Com:Tilda Swinton, Matthias Schoenaerts, Ralph Fiennes, Dakota Johnson

Na origem está La Piscine, filme de 1969 de Jacques Deray com Alain Delon, Romy Schneider e Jane Birkin no elenco… Depois há a luz (e os subentendidos que quisermos juntar) do quadro A Bigger Splash, de David Hockney, que na verdade foi o que deu o título ao filme. Depois há a evidente assinatura de autor de um realizador que não só sabe lidar com as suas personagens (e trama que, mesmo lentamente, vão colocando em cena), como as faz relacionar magistralmente com o espaço onde evoluem. E depois há um elenco onde uma Tilda Swinton discreta, mas sempre arrebatadora e um Ralph Fiennes em modo radicalmente oposto ao que estamos habituados nos seus papéis, garantem ao filme os corpos que lhe dão vida e as histórias que impedem que uma paisagem aparentemente paradisíaca seja apenas um postal para acalmar o olhar.

Seis anos depois, com trabalhos em filmes publicitários e um documentário sobre Bertolucci pelo meio, o italiano Luca Guadagnino faz suceder ao assombroso Eu Sou o Amor (ao qual a música de John Adams dava imponente e emotiva dimensão operática) com uma história que, na paz de uma villa numa pequena ilha em pleno Mediterrâneo, cem quilómetros a sudoeste da Sicília, faz eclodir todo um conjunto de segredos e desejos que o tempo havia arrumado em cada um dos protagonistas. Estes, na sua essência, são diretamente inspirados nas figuras do filme de 1969. Tilda Swinton veste a pele de uma estrela de rock (com algo de Bowie em si, lembrando uma vez mais que, havendo um dia um biopic, ela será a perfeita candidata a ser ele). Sujeita a uma operação à garganta não pode falar. Pelo que o seu dia a dia ali, longe de tudo, com a piscina junto à casa, o mar ao fundo, na paisagem, e a companhia tranquila de um fotógrafo com quem vive há anos (Matthias Schoenaerts) é coisa tranquila, luminosa, suave… O oposto do palco. Até ao dia em que um ex-namorado, produtor musical, interpretado por Ralph Fiennes, que é daquelas figuras com bateria que não se esgota e que contagia com intensidade, gestos e conversa tudo o que está à sua volta, anuncia a chegada já o avião está a aterrar. Consigo traz a filha (Dakota Johnson). E, tal como no Swimming Pool de Ozon, a piscina será cenário para que o que estava emerso em todos eventualmente venha à tona…

Tal como em Eu Sou o Amor, Luca Guadagnino centra o olhar nas personagens e é com elas que deixa a narrativa evoluir. Aqui, contudo, mais lentamente, ou não fosse aquele o sol do Mediterrâneo… Mas depois junta olhares sobre o mundo ao seu redor. Voltando a mostrar um interesse na gastronomia e nos sabores… E procurando não só sugerir em breves traços as características das gentes da região (ora nas suas vidas ora na interação com os “famosos” que ali são quase anónimos), como junta marcas do presente ao fazer cruzar algumas sequências com ecos das histórias de migrantes que fazem o quotidiano daquelas latitudes (e os nossos noticiários).

Mesmo cabendo a Tilda Swinton e aos planos em volta da piscina alguns dos momentos mais memoráveis do filme, é a Ralph Fiennes que cabe a “cena” mais inesquecível de Mergulho Profundo quando, numa tarde, pega no gira-discos para pôr a tocar o álbum Voodoo Lounge dos Rolling Stones, que a sua personagem produziu. E, aí, com o entusiasmo transbordante com que vive todos os minutos de cada hora que passa, explica como levou o grupo a pensar uma forma alternativa de pensar a percussão numa das canções contando, passo a passo, como os vários elementos da estrutura da canção foram nascendo. Mergulhando no som, portanto. – Nuno Galopim

“Desde Alla”
Realização: Lorenzo Vigas
Com: Alfredo Castro e Luis Silva
(o filme integrou a programação do Indie Lisboa)

No seu filme de estreia, Desde Allá, o realizador venezuelano Lorenzo Vigas conta com alguns talentosos colaboradores que têm contribuído para fazer a diferença nas cinematografias latino-americanas. Entre eles figuram os mexicanos Guillermo Arriaga (argumentista de Alejandro González Inárritu em filmes como Babel, Amor Cão e 21 Gramas) e Michel Franco, um dos produtores, e de quem se encontra em exibição nas salas nacionais, na qualidade de realizador, Chronic, e ainda o veterano e sempre soberbo ator chileno Alfredo Castro (um habitué dos filmes de Pablo Larraín).

Castro interpreta Armando, um homem de meia-idade, solteiro e solitário, que trabalha num laboratório de próteses dentárias e que atrai para o seu antiquado apartamento, a troco de dinheiro, jovens sedutores de classe baixa que encontra nos bairros pobres de Caracas. Porém, ele limita-se a olhar para os seus corpos semidesnudados, sem estabelecer contacto físico, como se de um fétiche se tratasse. Mas quando um dia aborda Elder (o estreante Luis Silva), um rapaz impulsivo e defensivo que esconde a sua vulnerabilidade sob uma fachada agressiva e mal-humorada, obtém deste à partida uma resposta hostil e uma atitude aparentemente homofóbica. No entanto, depois de Elder ser agredido por membros do seu gangue, Armando decide tomar conta dele. Só que o desprezo do protagonista por si mesmo faz daquilo que poderia ser o início de um relacionamento afetivo um jogo manipulatório com consequências sinistras e potencialmente trágicas.

Como bem notou Guy Lodge, na Variety, a obra que mais se aparenta a Desde Allá é Eastern Boys (2013), do francês Robin Campillo, nomeadamente na forma como ambas retratam a sensualidade queer e caminham lentamente em direção ao filme de género. Se Campillo prova que o melhor cinema contemporâneo existe hoje nas franjas e nas margens (quer a nível de produção quer em termos de distribuição, com o circuito comercial de exibição de cinema cada vez mais afunilado e a ocupar sobretudo as atenções da cada vez mais formatada e desinteressante imprensa mainstream), Vigas revela-se nesta primeira obra um dos nomes mais estimulantes do atual cinema latino-americano. Para esse resultado de sóbrio e subtil brilhantismo contribui também a belíssima direção de fotografia de Sergio Armstrong (responsável pela estética do cinema de Pablo Larraín, e cujo trabalho vimos no perturbante O Clube).

O principal foco de atenção da história é, sem dúvida, a personagem de Alfredo Castro. Ele é um homem opaco e insondável, com uma expressão de indiferença emocional e uma quietude que não sabemos se corresponde a embotamento afetivo ou se oculta sonsamente uma natureza mais perversa. Mas, dentro do tom elíptico do filme, vamos entrevendo, e sem recurso por parte do realizador a qualquer espécie de abordagem psicologista ou analítica, a natureza magoada e repleta de raiva calada de Armando, que comporta um tortuoso complexo com a figura paterna. Porém, como se adivinha, e ao contrário do que sucede em Eastern Boys, aqui Elder não é “adotado” por uma figura paternal. O obscuro coração de Armando, em guerra com a “entidade paternal”, jamais seria capaz de representar esse papel e de não atraiçoar fatalmente as surdas esperanças de Elder de receber o afeto que nunca conheceu e que o fez sentir-se indigno de algo que deveria ser um direito humano natural e não um prémio que se alcança laboriosamente. Desde Allá venceu o Leão de Ouro no Festival de Veneza de 2015. – Nuno Carvalho

1 Comment on Os melhores três filmes do segundo trimestre de 2016

  1. Caros Nunos, mudem lá o título para “os melhores três filmes do segundo TRIMESTRE de 2016″…

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