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Visões bipolares na aurora da aventura pop eletrónica

Texto: NUNO GALOPIM

A reedição em vinil dos dois primeiros álbuns dos Human League recorda uma banda pioneira na qual ideias contrastadas tentavam coexistir.

A história começa em 1977 na cidade industrial de Sheffield, no Reino Unido, com Ian Craig Marsh e Martyn Ware, dois operadores de computadores que, nas horas vagas, começam a experimentar a cruzar ideias da música pop do seu tempo com a vanguarda das eletrónicas de então. Aprendem a trabalhar com um teclado Korg 700s, começam a tocar entre amigos e, com o nome The Dead Daughters, dão os primeiros passos naquela que, ninguém então poderia supor, seria uma das mais importantes carreiras na história da pop eletrónica. A ideia de uma banda informal vivida entre amigos evolui pouco depois para uma entidade mais formal e pública que ganha com a chegada de mais um músico, novos teclados e um novo nome… The Future. Note-se que estamos a um ano da chegada do histórico The Man Machine dos Kraftwerk, pelo que, de certa forma, este núcleo que faz a pré-história do que seriam os Human League é contemporâneo do quarteto alemão nesta aventura da invenção de uma nova visão pop talhada com eletrónicas.

A busca de um vocalista começou por ter em mira a figura de Glenn Gregory (que mais tarde os dois fundadores da banda chamariam na hora de formar os Heaven 17). Sem poder contar com a primeira escolha, voltam-se para um velho amigo dos dias de escola que trabalhava então como porteiro num hospital e tinha já um “look” de pop star antes mesmo de o ser. A voz de Philip Oakey e as suas contribuições fizeram a música dar um novo passo, materializando no single Being Boiled (pioneiro da pop eletrónica britânica) um primeiro episódio na discografia da banda para a qual tinham entretanto encontrado um novo nome igualmente de inspiração sci-fi: The Human League.

As suas atuações ao vivo, sem baterista nem o quadro instrumental mais habitual na cultura pop/rock, e caracterizadas por um trabalho visual elaborado, envolvendo a projeção de imagens, cativa atenções. Entre elas a de David Bowie, que os vê a atuar em 1978 e que depois comenta que ali tinha visto o futuro da música pop. Tinha razão!

Com primeiros momentos discográficos lançados numa pequena independente – que além de Being Boiled assegurou ainda a edição do EP mais experimental The Dignity of Labour em 1979 –, os Human League (entretanto com formação mais alargada) tiveram na visão da editora Virgin, de Richard Branson, a ponte para novo capítulo na sua existência. Algo bipolar, a etapa que vivem entre 1979 e 1980 tanto passa por experiências no limiar do anonimato – como o single I Don’t Depend on You, que editam sob o pseudónimo The Men em 1979 – como por primeiras expressões de um sonho de popularidade em mais evidentes flirts com uma pop luminosa, como mostram em Empire State Human, o single que, em outubro de 79, anuncia a chegada de um primeiro álbum.

Sem o impacte popular que então fazia de Gary Numan a primeira estrela pop britânica na idade das electrónicas, o álbum de estreia, Reproduction, é mesmo assim uma das mais interessantes entre as criações da primeira geração de bandas focadas numa ideia pop eletrónica. Produzido por Colin Thurston – que antes tinha trabalhado em discos de David Bowie e de Iggy Pop e ganharia pouco depois um lugar maior na história da pop britânica ao produzir os dois primeiros álbuns dos Duran Duran –, é um disco mais de demandas do que de respostas obtidas e que, apesar do aparente tom light do single Empire State Human, é, na verdade, um álbum relativamente denso, tenso e escuro… O alinhamento inclui uma nova versão de Circus of Death (lado B do single de estreia, em 1978) e peças de angulosidade metronómica como as que escutamos em Almost Medieval ou The Path of Least Resistence.

O disco é contudo animado por jogos de contrastes, aqui e ali emergindo pontualmente expressões de sons e sugestões melódicas que prenunciam o que seria a etapa que entraria em cena em 1981. É assim como que o retrato do emergir de contradições e visões que, logo ali, no álbum de estreia, sugeriam tensões que o tempo acabaria por mostrar que eram incomportáveis para a coesão do coletivo.

Travelogue, segundo álbum, editado em 1980, com uma nova equipa de produção – assumida desta vez entre a banda e Richard Mainwaring –, é um passo de evolução na continuidade face ao que o disco de estreia colocara em cena. Reflete um mais evidente domínio da escrita e do trabalho de definição e moldagem dos sons (e batidas), acentuando mais ainda os contrastes entre sonhos pop e anseios experimentais que continuavam claramente a agir de forma diferente entre os elementos do grupo.

Tal como no álbum de estreia, no qual tinham apresentado uma versão de You’ve Lost That Loving Feeling, o alinhamento do segundo disco trazia novas incursões por obras de terceiros, desta vez ao som de Only After Dark, de Mick Ronson (que chegou a ser single), e Gordon’s Gin de Jeff Wayne. Uma nova leitura, mais encorpada, de Being Boiled, juntava mais argumentos ainda à rede de tensões internas que, pouco depois, não resistiria, acabando por gerar dupla descendência, com Phil Oakey a conduzir o corpo central (e o nome) dos Human League rumo à visão pop que faria de Dare! um dos casos sérios de 1981, por outro partindo Ian Craig Marsh e Martyn Ware, e agora finalmente com Glenn Gregory, rumo a encontros com outras vivências e anseios, a que dariam forma tanto via B.E.F. (a British Electric Foundation, que teria entre um dos seus “feitos” maiores a reativação da carreira de Tina Turner) e Heaven 17.

Peças determinantes na história não apenas dos Human League e da pré-história dos Heaven 17, mas também discos marcantes no expressar de primeiras expressões de uma pop eletrónica made in UK, os álbuns Reproduction e Travelogue têm agora nova edição em vinil. E vale a pena serem (re)descobertos.

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