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Nos Alive 2016 (dia 1): ou como os The 1975 venceram a jornada

Texto: JOÃO MOÇO

A 10.ª edição do NOS Alive abriu triunfante com o concerto dos britânicos The 1975, mas foram os Pixies que suscitaram a maior onda de entusiasmo no primeiro dia de festival.

Foto: Arlindo Camacho

Tentar cartografar a música dos The 1975 em traços simplistas ou num qualquer contínuo estável de um género musical pode ser uma tarefa inglória. Isso percebeu-se logo pelos primeiros EPs, mas também pelos dois álbuns de estúdio, principalmente o que lançaram no inicio deste ano, I like it when you sleep, for you are so beautiful yet so unaware of it e que ontem vieram apresentar ao NOS Alive. Coube-lhes abrir o Palco NOS nesta 10.ª edição do festival do Passeio Marítimo de Algés e, de facto, não foi preciso esperar muito para perceber que este era o concerto vencedor do dia (quiçá do festival). No concerto confirmou-se a dificuldade que existe em mapear com certezas absolutas o som do grupo britânico. São um projeto intrigante. Entraram ao som de Love Me, o single que traça uma ponte entre o Fame de David Bowie com os Duran Duran e com os INXS. Pouco depois passaram por A Change of Heart e Somebody Else (os mais recentes singles do novo álbum), duas baladas planantes que reflectem que existe um traço da personalidade musical dos The 1975 que é claramente devedor da austeridade sombria dos Blue Nile (e isso acontece desde os EPs, basta lembrar uma canção como Me). Mas também cruzaram a acuradamente Prefab Sprout Girls com If I Believe You, canção magnânima que mostra que D’Angelo também paira por aqui. O final chegou com Sex, com a sua verve emo pop à la Fall Out Boy e espírito épico que não destoaria como descendência dos U2. A amálgama de referências poderia não resultar, mas é nisso que os The 1975 são tão intrigantes, o conseguirem unir todas essas pontas soltas com uma personalidade que é só deles e que atrai, sobretudo, o gosto adolescente. Já assim tinha sido quando há três anos se estrearam no NOS Alive e ontem e cenário foi o mesmo. O público que os recebe calorosamente divide-se entre adolescentes e os seus conterrâneos ingleses. É estranho que permaneçam um segredo por descobrir em Portugal.

No mesmo palco seguiram-se os Biffy Clyro, grupo onde se sente que tentam fazer canções que têm na sua génese um lado emo pop, mas que caem (quase) sempre num tom épico mais devedor da escola indie pós-Arcade Fire que acaba por ser mais fogo de artificio do que emoção real.

Pela mesma hora o duo canadiano Bob Moses apresentava-se no Palco NOS Clubbing. Há quem veja ecos dos Underworld na sua música, mas o que se ouviu ontem no Passeio Marítimo de Algés vai mais ao encontro da linhagem de grupos que descobriu o que era deep house com os Disclosure, mas aliando isso a uma melancolia um pouco decalcada dos The XX, o que não é propriamente abonatório.

Depois de jantar, e à mesma hora, o português Branko (ex-produtor dos Buraka Som Sistema, que recentemente fizeram uma pausa ao seu percurso, sem fim à vista, com o festival Globaile, que se realizou em Belém) mostrou do que se trata a global club music que tem vindo a propagar. O espetáculo teve uma componente visual muito forte, cruzando-se imagens da Venezuela, Lisboa, África do Sul, enquanto no computador Branko fazia o mesmo, mas com a cumbia de Caracas ou com o novo kuduro que se produz nos bairros periféricos de Lisboa (ouviu-se, mesmo, um tema dos CDM – Casa da Mãe Produções, editado pela Príncipe Discos).

Mas para os muitos milhares que ontem acorreram ao NOS Alive (e se não esgotou ontem, é difícil de imaginar como estará hoje e amanhã o cenário por Algés) o concerto mais esperado era dos Pixies, que se seguiram no Palco NOS a Robert Plant. Mesmo que não tenham faltado várias canções novas que têm deixado os fãs mais acérrimos, no mínimo, desiludidos, o grupo de Boston foi igual a si mesmo. Entraram sem conversas e logo com Bone Machine. E assim foram interpretando as várias canções, que se sucederam em catadupa, sem bajulações ao público ou outras reflexões. Iguais a si próprios, no fundo. Kim Deal há muito que já não está ao leme do baixo, tendo já sido substituída por Kim Shattuck (que acabou por ser afastada pouco depois do concerto que a banda deu em 2013 no Coliseu de Lisboa) e agora por Paz Lenchantin (ex-A Perfect Circle, ex-Zwan). Mas essa mudança não parece afectar a quem sente o efeito galvanizador de canções como Monkey Gone to Heaven, Tame, Caribou ou, claro, Where Is My Mind, Here Comes Your Man e Debaser, que trataram de satisfazer a viagem nostálgica ao passado que lhes era exigida.

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