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NOS Alive 2016 (dia 2): Da música a cores dos Tame Impala à pergunta de um milhão de dólares dos Radiohead

Texto: NUNO GALOPIM

As muito esperadas atuações de Tame Impala e Radiohead fizeram as honras da noite no palco principal. Courtney Barnett, num dos palcos secundários, confirmou ao vivo o que antes prometera em disco.

Foto: Arlindo Camacho

Se havia dúvidas sobre se a música tem ou não cor, então ontem, ao ver a (belíssima) atuação dos Tame Impala, com o sol a descer no horizonte até desaparecer para lá do mar, levando consigo o claro azul do céu e abrindo os cenários a outras luzes e outras cores, não havia como não reconhecer que essa é mesmo uma verdade, e que tem na banda uma rara e alargada paleta de possibilidades. Foi a quinta vez que passaram por palcos portugueses, mas talvez nenhuma outra ocasião os tenha visto assim, não apenas no contexto, alinhamento e performance, mas também na clara adesão de uma vasta plateia ao que vinha do palco, canção após canção.

Estava a luz do dia a acenar boa noite quando chegaram ao palco e, a princípio, foram as canções quem se impôs. E aí não havia dúvidas: a reviravolta (incrível) que se materializou no seu corpo com Currents elevara as visões de uma das mais promissoras bandas da sua geração a outros patamares, alargando o espaço de possibilidades para as suas canções que passaram a integrar ecos da pop electrónica, de heranças r&b e mais além. O acolhimento fisicamente visível entre a plateia dos novos sons era bem claro e Let It Happen, que foi das primeiras canções a sair do palco, não deixou dúvidas quanto à reação global à mudança. Foi aceite. Assimilada (com confettis)… E pede novos episódios de aventura.

O concerto soube, sem malabarismos cénicos, alternar registos e caminhos, juntando peças do passado a este presente ainda em construção, ao fulgor psicadélico de outrora sendo chamados os instantes de maior intensidade rock’n’roll num concerto que soube ser inclusivo e equilibrado. E deixou claro como ambas as etapas fazem parte de um todo e sabem mesmo dialogar entre si. Já na reta final, entre os (diferentes, mas afinal próximos) The Less I Know The Better (que é já um hino pop do nosso tempo) e Feels Like We Only Go Backwards, do anterior Lonerism, os jogos de contrastes fizeram pensar mais nas afinidades do que nas diferenças entre as etapas da ainda curta mas já intensa obra dos Tame Impala.

E a cor no meio de tudo isto? Começou a brotar em discreto mas presente trabalho de luz no palco, aos poucos revelando mesmo um desenho de formas que vestiam na perfeição aqueles sons. Ao mesmo tempo, com o sol a desaparecer, o céu vestia-se de amarelo e laranja, as cores que mais vezes habitavam a iluminação do palco. É claro que havia quem concentrasse atenções nos ecrãs por onde as câmaras projetavam “apanhados” topless entre a plateia… Mas a alquimia que transborda da música dos Tame Impala vai para lá dos sorrisos e gritos efémeros que iam acontecendo… E foi com os jogos de luz e cor que o som se fez corpo. Esse sim, o que vale a pena guardar entre as boas memórias desta edição do festival.


Foto: Arlindo Camacho / NOS Alive

Eram contudo os senhores que se seguiam os responsáveis pela enchente – feita de gente que falava várias línguas – que se espalhava por um recinto bem organizado, arrumado e limpo (o verde dos tapetes arrumou de vez a poeira, e bem). Da última vez as memórias dividiam-se entre o aplauso dos indefectíveis e o ceticismo dos que não estavam em grande sintonia com os caminhos por onde estava a evoluir a obra do grupo. Já deu para entender que falo dos Radiohead…

A Moon Shaped Pool, o seu novo álbum, alertava desde logo para o facto de haver no grupo um ensejo em arrumar as ideias sem contudo perder o seu pendor aventureiro e animado por uma atitude ainda aberta à experimentação, mesmo sob ocasionais manifestações de maior (relativo, é certo) classicismo formal. E ao abrir o alinhamento com uma sucessão de canções deste novo disco, apresentando-as na ordem com que as escutamos, como se o estivessem a apresentar de fio a pavio, tornava-se evidente que era ali que definiam o clima pelo qual o concerto iria acontecer. E depois, ao abrirem a carteira de memórias a peças maiores da sua obra gravada, como My Iron Lung (dos tempos de The Bends) ou Talk Show Host (a canção composta para a banda sonora de Romeo + Juliet de Baz Luhrman e que surgiu no lado B do single Street Spirit, da mesma colheita), deixavam rendidas ambas as fações que se haviam separado nas opiniões quanto à última visita da banda àquele mesmo palco.

Deixando para cenografia (com belíssimo desenho de luz) tudo o que era movimento e acontecimento de não ouvir, os músicos concentravam-se nos seus instrumentos com a mesma entrega alheada da plateia que conhecemos nos elementos de uma orquestra. E se Thom Yorke por vezes acenou ou deu o seu pé de dança, foi no focar de atenções na geração dos sons que viveu a muito competente (re)criação, em palco, de peças por vezes de considerável complexidade e que, ali, soaram sem aparente mácula.

Um concerto best of? Bom, para uma banda como os Radiohead, que fez de canções menos óbvias verdadeiros marcos na história da música popular desde os noventas, um alinhamento em que surjam canções como Street Spirit (Fade Out), Paranoid Android, Karma Police, Exit Music (For a Film), 2 + 2 = 5, There There, NudeLotus Flower ou ainda uma dupla passagem por memórias de Kid A com Everything In It’s Right Place e Idiotheque, podemos falar mesmo em ‘best of’. Mais ainda quando, praticamente na hora de arrumar a trouxa e ir embora (eles, porque muitos ainda ali ficaram à espera de Hot Chip e outras iguarias), responderam ao que tinham nas suas folhas de alinhamento, em palco, assinalado como a “million dollar question”… E, ao som de Creep, o recinto partilhou em comunhão a memória de um dos hinos maiores da juventude de muitos dos que ali estavam.

Entre a vasta oferta que passa pelos muitos palcos que hoje fazem o Nos Alive, vale a pena assinalar entre o melhor do cardápio deste segundo dia a absoluta confirmação de tudo aquilo o que a australiana Courtney Barnett já antes sugerira em disco. Se os seus singles, EPs e o álbum (com título imbatível) I Sometimes Sit and Think and Sometimes I Just Sit – um dos melhores de 2015 davam já conta de uma escrita apurada nas palavras, acompanhada por uma música rock tão angulosa quanto melodiosa (na melhor escola das fases mais melodistas de uns Throwing Muses), a atuação ao cair da tarde no palco Heineken mostrou uma performer segura de si, firme na condução de uma sucessão de canções que, para muitos que ali estavam, poderão ter representado um momento de deliciosa descoberta. Está sem dúvida ali um talento com potencialidade para talhar uma carreira para não passar mais longe das atenções… Sigamos a… Courtney.

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