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O som identitário de quem exige mais

Texto: ANDRÉ LOPES

Pertenceu aos Test Icicles, assinou os seus projectos outrora enquanto Lightspeed Champion e desde 2011 enquanto Blood Orange. Dev Hynes figura já como um dos nomes determinantes entre a narrativa musical do século XXI.

Corria o Verão de 2014 quando a ideia de que o racismo deixara de prevalecer na sociedade contemporânea foi forçada a cair por terra diante de todos. Evidentemente distante da realidade, essa premissa otimista jamais terá sido clamada de forma não-irónica por qualquer pessoa que pertença a um grupo étnico minoritário. Michael Brown fora assassinado por um polícia em Fergunson, e em julho do mesmo ano, Eric Garner morria asfixiado também por um polícia. Mais do que exemplos claros de abuso de autoridade e falta de ética por parte de forças policiais americanas, encontramos por aqui um reflexo evidente do final do sonho americano – ou pelo menos o sublinhar (uma e outra vez) da forma como o mesmo não está ao alcance de todas as pessoas que habitam naquele conjunto de estados. D’Angelo antecipou o lançamento de Black Messiah em função do debate sobre as emergentes tensões inter-raciais, sendo esse o álbum que terminou uma pausa de mais de 10 anos no que toca a discos de estúdio. Tal como escutaríamos meses depois com To Pimp a Butterfly de Kendrick Lamar, existe muito de político – existe tudo, aliás – numa existência pessoal minoritária.

Freetown Sound é acima de tudo o testemunho de uma vivência multicultural, com alguma semelhança de estrutura relativamente aos primeiros trabalhos de M.I.A.. Porém, a proposta de Blood Orange é completamente distinta em termos sonoros: nada aqui toma o propósito de uma excursão por exotismos não-ocidentais, mas antes uma abordagem sóbria às singularidades daqueles e daquelas que pelo cariz biográfico, se veem colocados à margem de uma qualquer comunidade maioritária ou “global”. Freetown Sound vai mais longe e vence desde cedo por isso: a introdução com By Ourselves toma forma em redor de um poema de Ashlee Haze que ao prevalecer como um tributo a Missy Elliot, detalha as particularidades do feminismo na perspetiva das mulheres negras.

Em pouco mais de dois minutos Blood Orange deixa claras quais as linhas que irão guiar todo o álbum. Por um lado, a intertextualidade que a partir de samples, enquadra ao longo de Freetown Sound uma série de discursos de fontes diversas: dos filmes Black is… Black ain’t e Paris is Burning (de Marlon Riggs e Jennie Livingston respectivamente) ou de entrevistas com Ta-Nehisi Coates e Vince Staples; são variados os recursos onde Blood Orange conseguiu encontrar paralelismos diretos com a mensagem do disco. E essas não terão sido escolhas arbitrária; antes inerentemente relacionadas com a interseccionalidade – noção sociológica que se propõe a examinar como as categorias sociais, culturais, étnicas e biológicas podem relacionar-se e interagir simultaneamente no contexto da opressão social, já que a mesma ocorre estratificada de forma multifatorial.
Pode parecer uma premissa prosaica, mas felizmente Blood Orange é alguém que veio a amadurecer uma sonoridade bem flexível ao longo dos anos – o EP de Solange Knowles que coproduziu, bem como as faixas que trabalhou juntamente com FKA Twings, Jessie Ware, Sky Ferreira ou Kylie Minogue, são difíceis de esquecer quer pela originalidade do som, quer pela versatilidade do mesmo.

Freetown Sound cimenta definitivamente “essa” sonoridade tão estival, entre ideias de um R&B já vintage que pouca gente parece capaz de reavivar de forma estimulante, e dinâmicas percussivas típicas de top 40 americano durante os 80s. Blood Orange convida ainda uma série de vocalistas para substanciar algumas das paisagens sonoras mais interessantes que ouvimos este ano em termo de discos pop: Ava Raiin, Empress Of, Debbie Harry, Nelly Furtado, BEA1991, Carly Rae Jepsen são exemplos de vozes que teriam de ser necessariamente femininas para transmitir as mensagens em causa.

Repare-se: a invocação feminista logo na primeira faixa não é em vão e pouco tem de propósito comercial aqui. Antes, como corrente que pauta uma atitude perante a vida que antecipa que a mesmo possa ser mais abrangente do que aquilo que acontece atualmente, com uma série de limites impostos que pouco nos favorem enquanto comunidade global dita livre. E em termos criativos, a vivência queer de Blood Orange trouxe-lhe as referências certas para um dos discos mais interessantes que ouviremos este ano. Sem medo de chamar para perto metais de sopro quando assim se justifica – numa modalidade apaziguada de Eric Dolphy – e de recordar vivamente algumas ideias de Alice Coltrane no que toca a arranjos. Freetown Sound conta de facto com um alinhamento extenso, mas esse jamais poderá ser critério para menosprezar um verdadeiro ensaio sónico sobre a fragilidade humana e o clima social que vivemos atualmente. E para quem busca singles, But You, Hands Up, Hadron Collider, E.V.P., Love Ya ou Better than Me estão à espera de ser escutados.

Blood Orange
“Freetown Sound”
Domino
★★★★★

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