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Choque frontal

Texto: NUNO CARVALHO

Publicado originalmente em 1973, “Crash” tornou-se um clássico de culto e é um exemplo ímpar da ficção conceptual de J.G. Ballard, com um forte pendor futurista e niilista.

Na introdução para uma reedição de Crash (1973), J.G. Ballard escreveu: “É cada vez menos necessário o escritor inventar o conteúdo ficcional do seu trabalho. A ficção já existe. A tarefa do escritor é inventar a realidade.” Tendo em conta que, como o próprio autor refere, o mundo que nos rodeia é cada vez mais uma ficção, não admira pois que “o pequeno nódulo de realidade que nos resta resid[a] no interior das nossas cabeças”. “A distinção clássica feita por Freud entre o conteúdo latente e manifesto do sonho, entre o aparente e o real, deverá agora aplicar-se ao mundo exterior da dita realidade”, acrescenta ainda o escritor. Assim, na visão de Ballard, o destino do escritor, que, para o autor de Arranha-Céus, já nada sabe e não possui uma posição moral, é oferecer ao leitor o conteúdo da sua própria mente. E é isso mesmo que faz o autor de Crash – constrói um universo que parece inverosímil e surreal, que não parece “crível” e “realista” mas que, tendo em conta o caráter cada vez mais alucinatório e perverso da realidade, não demorará certamente a ser copiado por esta, ou pelo menos fala dessa tendência do real para imitar a arte através de uma “metáfora extrema”.

A história do livro centra-se num pequeno grupo de personagens que têm como fétiche sexual acidentes de automóvel e as suas possibilidades eróticas, explorando uma parte do espetro das psicopatologias humanas, nomeadamente a morbidez sexual. Mas, para lá da dimensão metafórica e política de Crash, este não deixa de ser em boa parte também um romance pornográfico. Ballard esclarece a tipificação desta ficção inclassificável (e também considerada infilmável, apesar de ter sido adaptada ao cinema por David Cronenberg, especialista aliás em filmar livros “infilmáveis”, tais como Naked Lunch, de William S. Burroughs, ou Cosmópolis, de Don DeLillo): “O livro tem um papel político para além do seu conteúdo sexual, mas prefiro encarar Crash como o primeiro romance pornográfico baseado na tecnologia. De certo modo, a pornografia é a forma mais politizada de ficção, abordando o modo como nos usamos e exploramos mutuamente, da maneira mais urgente e impiedosa.” Esta edição da Elsinore, com tradução de Marta Mendonça, é uma ótima oportunidade para conhecer o universo de J.G. Ballard, que Martin Amis descreveu como “belo, excessivo, esquemático e absurdamente sisudo”.

J.G. Ballard
“Crash”
Elsinore, 233 pp.

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