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Stanley Kubrick no século das luzes

Texto: NUNO GALOPIM

Depois de abortado o projeto de um ‘biopic’ grandioso sobre a figura de Napoleão, Stanley Kubrick encontrou o seu épico de época em “Barry Lyndon”, filme que regressa (agora em cópia restaurada).

Depois de um Horizontes de Glória passado nos tempos da I Guerra Mundial e uma evocação da célebre revolta dos escravos nos tempos de Roma em Spartacus, a ideia de fazer um novo filme de “época” não era para Kubrick uma novidade em si. Mas a procura de uma dimensão maior na amplitude dos retratos e na magnificência dos olhares entrava na ordem do dia quando, depois de 2001: Odisseia no Espaço, tomou a vida de Napoleão como objetivo do filme seguinte, desenvolvendo um trabalho de investigação intenso e minucioso que lhe punha nas mãos já um guião, uma escolha de décors e um vasto leque de imagens com guarda-roupa e objetos de época quando, perante o fracasso de um outro filme contemporâneo sobre a batalha de Waterloo, fez o estúdio vacilar e retirar o entusiasmo (e o dinheiro) que seria fundamental investir. Em seu lugar Kubrick fez A Laranja Mecânica (1972), baseada no texto homónimo de Anthony Burgess. Por essa altura já havia pensado em adaptar ao cinema um romance de William Makepeace Thackery, escritor do século XIX com frequentes olhares satíricos sobre a sociedade do seu tempo. Optaria por partir então de The Luck of Barry Lyndon, um livro seu com ação centrada em meados do século XVIII, acompanhando as atribuladas etapas de vida de um irlandês com espírito resoluto e alma de aventureiro que tudo teve e tudo depois perdeu.

Se o trabalho de investigação para o arquivado biopic sobre Napoleão (do qual uma edição da Taschen nos disponibilizou recentemente o vasto material escrito e visual recolhido por Kubrick) foi meio caminho andado nesse departamento, já a rodagem propriamente dita abraçou a dimensão exuberante que o filme traduz, sublinhando o perfecionismo com que o cinema do realizador já então radicado no Reino Unido encarava cada novo desafio.

Protagonizado por Ryan O’Neal, Barry Lyndon transporta-nos por vários lugares e espaços sociais, das origens algo discretas da família do protagonista ao casamento que abre portas a outras fortunas, passando pelos campos de batalha da Guerra dos Sete Anos, na qual, para salvar a pele, o protagonista acaba a combater (em alturas diferentes) de ambos os lados.

É depois desses episódios que, aliado a uma figura intrigante – o Chevalier de Balibari -, enceta uma relação (profissional) com o jogo, enganando adversários e somando vitórias (e o respetivo dinheiro). O filme entra então num novo arco, que acompanha a idade adulta e envelhecimento de Barry Lyndon, notando a pedra no sapato que surge na forma do filho do primeiro casamento da mulher rica com quem casou e do sinistro padre que acompanha todos os movimentos da família.

A narrativa é recheada de acontecimentos mas, apresentada ao longo de cerca de três horas, acaba por revelar um ritmo mais lento e contemplativo do que o fulgor dos atos do protagonista poderia sugerir. A brilhante direção de fotografia de John Alcott – e que valeu a Barry Lyndon um dos quatro Óscares que o filme ganhou – não só cria momentos de absoluta contemplação pictórica em planos de paisagem (alguns parecem telas de paisagistas neoclássicos) como, nas cenas noturnas, junta o arrojo técnico exigido por Kubrick (que quis filmar as sequências de interiores apenas com luz das velas, obrigando a Zeiss a desenvolver uma lente com base numa outra que a NASA estava então a usar) a um realismo na forma de sugerir serões de jantares e jogo em palácios oitocentistas como os nossos olhos nunca até então haviam visto.

Não foi um dos maiores êxitos imediatos na bilheteira. O sucessor Shining seria um mais evidente campeão de box office. Mas o tempo fez de Barry Lyndon um filme muito estimado e cada vez mais valorizado. Um dos melhores de Kubrick. E uma referência ainda hoje não superada nos retratos de época daqueles tempos.

“Barry Lyndon” está em exibição, em cópia restaurada, no Cinema Ideal (Lisboa)

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