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“Parade”: quando só a música salva um filme do esquecimento

Texto: NUNO GALOPIM

Editado em 1986, o álbum com a música criada para “Under a Cherry Moon”, um segundo filme de Prince, teve vida mais longa e visível do que das imagens às quais nasceu associada.

Entre 1999 (editado em 1982) e Sign of The Times (em 1987), não há um disco de Prince que não seja uma pérola maior, sendo ainda os álbuns Dirty Mind (1980), Controversy (1981), Lovessexy (1988) e Batman (1989) momentos ainda dignos de figurar entre o melhor que a música nos deu a escutar nos anos em que foram lançados. Editado em 1986, Parade surge a meio dessa série de raras qualidades. E, tal como o fora Purple Rain (1984), representa a banda sonora de mais uma investida no cinema, desta vez contudo com Prince a assumir a realização (e, naturalmente, o papel protagonista).

Estreado em Julho de 1986, Under a Cherry Moon é contudo daqueles filmes que podem desencadear em nós uma sensação de vergonha alheia. Sobretudo se formos grandes admiradores de Prince. Devaneio megalómano para afogar 12 milhões de dólares, o filme é uma inconsequente narrativa com ingredientes de romance, luxo e tragédia, no qual as canções de Prince só ocasionalmente justificam os 98 minutos que sobre ele lançámos o olhar. Rodado entre villas chiques na região de Nice, no sul de França, fez então a estreia de Kristin Scott Thomas numa longa metragem, cabendo à atriz um dos sete Razzies que, merecidamente, conquistaria meses depois. Na verdade, além da sequência que corresponde ao teledisco de Girls and Boys ou as imagens, nos créditos finais, que são as mesmas que vemos no de Mountains, Under a Cherry Moon é “o” tiro mais ao lado que Prince deu na década de 80. Foi um gigantesco flop, naturalmente.

As responsabilidades do tiro ao lado cabem sobretudo a decisões importas por Prince a uma editora que esperava que ali nascesse um sucessor de Purple Rain. Mas não só Prince fez questão de reduzir a presença dos números musicais no filme – vincando aí um contraste face ao anterior – como recusou as propostas que uma equipa de argumentistas contratados pela editora colocaram então como possibilidade para moldar a narrativa a outros destinos. Prince não só foi irredutível na definição de uma trama romântica e trágica protagonizada por um gigolo (interpretado por ele mesmo) como fez questão que fosse filmado a preto e branco. Mary Lambert, que tinha recentemente assinado telediscos para Madonna foi chamada a realizar, mas cedo entendeu que quem dava as ordens não era ela, abandonando o projeto nas mãos de Prince, que acabou assim a assumir a realização e as opções da montagem. E esta não foi uma boa decisão…

O filme deu-nos contudo uma jóia preciosa: a sua banda sonora. Na verdade, editado quatro meses antes de estreado o filme, o álbum Parade (que contém canções e instrumentais que servem as imagens de Under a Cherry Moon) viveu muito bem durante esse intervalo sem o cinema a reboque. E, convenhamos, nunca precisou (nem precisaria) do filme para ser um grande disco. De resto, ouve-se bem melhor sem aquelas imagens de narrativa sem rumo e personagens inconsequentes.

Afastando-se do flirt com terrenos mais próximos das periferias da canção rock que havia explorado em 1984 em Purple Rain (com um muito melhor filme a seu lado, mesmo não sendo uma obra prima), o álbum Parade segue as sugestões levantadas em 1985 em Around The World In a Day, ensaiando novas leituras possívceis sobre ecos do psicadelismo (escutando novos flirts com o jazz no piano e o interesse em explorar o calor dos metais) numa música que não esquece as suas heranças primordiais no funk, diálogos que ficam evidentes logo na abertura do álbum, em Christopher Tracy’s Parade e New Position, logo depois em Life Can Be So Nice ou, com condimentação pop mais evidente, em Mountains. I Wonder U é espaço de ensaio de novas cenografias para a voz e sua relação com a estrutura rítmica, nos antípodas do caráter mais canónico do funk de Anotherloverholeinyourhead. Já Girls and Boys e Kiss, que representam os momentos mais inesquecíveis do alinhamento, levam essa genética funk a novos desafios, procurando uma abordagem minimalista que teria ainda importante expressão no álbum seguinte (lembram-se de Sign of The Times?). Num outro caminho, Under a Cherry Moon segue o modelo clássico da grande balada à la Prince, numa canção que estranhamente não chegou a ser editada como single. O mesmo pode ser dito sobre Sometimes It Snows In April. As tonalidades francesas de Do U Lie ou o apelo cenográfico de Venus de Milo são, afinal, as únicas expressões expressões das ligações do álbum ao filme. Mas, como os restantes temas do disco, vivem bem sem ele.

Ao contrário do filme, que não só foi sovado pela crítica e substancialmente menos agitado na bilheteira como se sagrou o grande vencedor dos razzies no ano seguinte – arrebatando sete prémios em oito nomeações – o álbum gerou uma maré geral de entusiasmos. A crítica revelou uma maior unanimidade no aplauso por contraste com o anterior Around The World in a Day que tinha dividido opiniões. E Kiss mostrou uma vez mais a capacidade de Prince em encontrar – tal como havia feito em When Doves Cry – o aperitivo mais inesperado e improvável para um caso de sucesso.

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