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Cuidado com as experimentações

Texto: NUNO GALOPIM

As controversas experiências sobre resistência à autoridade desenvolvidas nos anos 60 por um psicólogo norte-americano estão no centro de gravidade de um filme que cruza linguagens da ficção e do documentário para recordar uma história que levantou um debate ético.

Até onde vai a resistência de alguém perante a autoridade? Com a memória de comportamentos das forças alemãs perante o Holocausto, e numa mesma altura em que decorria, em Jerusalém, o julgamento de Adolf Eichmann, o psicólogo social norte-americano Stanley Milgram desenvolveu uma série de experiências que procuravam observar os comportamentos de quem infligia dor a um desconhecido. Os resultados foram publicados originalmente num artigo científico de 1963 e aprofundados em 1974 no livro Obedience to Authority: An Experimental View que levantou debates, não apenas sobre o tema e conclusões, mas sobre os procedimentos éticos das experiências em concreto. É este o universo que Michael Almereyda revisita em Experimenter: Stanley Milgram, o Piscólogo Que Abalou a América que, estreado em Sundance em 2015, chega esta semana aos ecrãs nacionais.

O realizador (que assina também o argumento) encara a memória desta experiência como o foco central de um biopic sobre Stanley Milgram, figura controversa que Peter Skarsgard aqui interpreta. Entre uma ideia de recriação das situações e frequentes solilóquios do protagonista (que de olhos na câmara nos explica os contextos ou as suas ideias, tal qual fosse ele o narrador da sua história), Experimenter é uma experiência que, mesmo encarada com as ferramentas de uma ficção, não deixa de ter um relacionamento direto com os factos e as opiniões dos que neles estavam envolvidos, assumindo assim mais um exemplo de como a diluição de fronteiras com as periferias do documentarismo geram novas possibilidades na criação de retratos do real. A própria utilização de algumas imagens de arquivo ajuda a vincar esta presença da realidade no ecrã.

Relativamente minimalista, focado nos factos e nas palavras e ações que os explicam e recordam, mas sem deixar de procurar caracterizar psicologicamente o próprio psicólogo e aqueles que fazem o seu mundo, Experimenter tem, além do perfil imperturbável com que Skarsgaard veste a sua personagem e de um elenco onde figuram ainda Wynona Rider (que coproduz o filme com o ator principal), Anton Yelchin ou John Leguizamo, além de algumas figuras com experiência sobretudo em séries televisivas, um trunfo maior na direção de arte, que é brilhante nas recriações, não apenas do ambiente laboratorial nos sessentas mas, sobretudo, dos espaços onde decorre a segunda parte do filme quando, nos anos 70, Milgram é confrontado com as reações, em várias frentes, às dúvidas levantadas sobre a forma como as experiências tinham sido conduzidas.

Outro foco interessante deste olhar é uma relação que um biopic faz da forma como os bipoics são feitos. E estão entre os melhores momentos do filme aqueles em que Milgram é confrontado com a forma como a sua vida e experiências são transformados numa série televisiva (que teve William Shatner a vestir a sua pele, poucos anos depois do fim da série original de Star Trek).

“Experimenter: Stanley Milgram, o Piscólogo Que Abalou a América”
Realização: Michael Almereyda
Com: Peter Skarsgaard, Wynona Rider, Anton Yelchin, John Leguizamo.

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