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Coração selvagem

Texto: NUNO GALOPIM

Regressa hoje, numa reposição no Cinema Nimas, o clássico de 1975 “Dersu Uzala”, filme que reativou a obra de Akira Kurosawa após uma etapa conturbada e que propõe uma reflexão sobre a relação do homem com a natureza.

Dersu Uzala foi um momento de salvação pessoal para Akira Kurosawa, que, após conturbada etapa americana em finais dos anos 60 e uma tentativa de suicídio na alvorada dos anos 70, se afastara do trabalho e fazia um quotidiano afastado do cinema, em casa. Desafiado pela Mosfilm – o estúdio de cinema soviético que produzira filmes de Dovzhenko, Eisenstein e que então tinha em Tarkovsky um dos mais importantes realizadores no ativo – a filmar uma memória de um explorador que fizera campanhas na região mais oriental da Sibéria em inícios do século XX, Kurosawa deu por si, em mãos, com um projeto que há muito desejava poder fazer. Malas aviadas, rumou à região em que o verdadeiro Dersu Uzala (1848-1908) viveu e foi ali mesmo, durante meses a fio, que o filme ganhou corpo, sobretudo em exteriores captados in situ, por vezes em condições de conforto tão reduzidas como as que o livro de Vladimir Arsenyev com o nome do velho caçador nómada por título recordava. No fim, e tal como Arsenyev, também Kurosawa deu ao filme o mesmo nome: Dersu Uzala.

Baseado em figuras e factos reais, Dersu Uzala é mais do que apenas um relato de vida de um topógrafo russo e do caçador de uma das etnias desta região siberiana que se faz seu guia e amigo. O olhar das câmaras torna evidente a presença avassaladora do mundo natural nos cenários que os dois protagonistas cruzam, mas a sequência inicial do filme, que dá conta do abate de árvores para a expansão da área humanizada, deixa logo no ar a incerteza sobre a sobrevivência dessas forças da natureza quando a ambição da civilização com ela se cruza. Logo aí fica lançada uma das linhas-mestras de um filme que observa, através da figura de Dersu Uzala, uma vida em harmonia com o mundo ao seu redor e impoluta face às regras, desejos e possibilidades que a vida moderna então leva aos povoados que começam a expandir-se na região. Os valores da amizade e a expressão do peso do envelhecimento sobre um corpo são outras características que Kurosawa explora num filme que deixa ao ritmo das coisas do campo a condução da velocidade dos acontecimentos (até mesmo quando, perdidos num pântano gelado, o topógrafo e o caçador têm de “trabalhar depressa” para sobreviver à noite que vem a caminho).

A narrativa acompanha duas campanhas de um topógrafo que tem em mãos a cartografia detalhada daquela região nos confins do mundo. É ali que, num acaso, se cruza pela primeira vez com Dersu Uzala, que o passa a acompanhar, mostrando um conhecimento das leis da sobrevivência e um saber sobre os outros que encontra e de quem sabe muito mesmo antes de um eventual encontro pelos dados que observa nas pegadas, rastos e objetos que ficaram para trás. Reencontram-se anos depois numa segunda campanha, finda a qual um convite do russo para que Dersu o acompanhe ao seu mundo (urbano) revela como ali encontra desconforto quem até ali viveu na aparentemente desconfortável natureza.

O filme, que nasceu como uma coprodução soviética e japonesa, estreou em 1975 com pouco entusiasmo captado no Japão, mas somando desde logo aplausos internacionais, começando a vencer prémios no Festival de Moscovo e acabando a arrebatar o Oscar para Melhor Filme em Língua Estrangeira.

Sem sombra de panfletarismo, Dersu Uzala é dos mais incríveis olhares que o cinema nos deu sobre o relacionamento do homem com o mundo que tem por casa. Cada um tire depois as suas conclusões… E num tempo como aquele em que vivemos as leituras que daqui podemos tirar são cada vez mais urgentes.

“Dersu Uzala” está em reposição, em cópia restaurada, no Cinema Nimas (Lisboa)

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