Últimas notícias

Diálogos com Erik Satie (em pleno século XXI)

Texto: NUNO GALOPIM

Tamar Halperin mostra, num álbum focado na música de Satie, como um wurlitzer ou um computador podem encontrar focos de diálogo com peças compostas para o piano.

A pianista israelita Tamar Halperin começou por chamar atenções aos mais atentos seguidores das coisas nos mundos do jazz, sobretudo pelo seu envolvimento no álbum Wunderkammer de Michael Wollny. A experiência traduz uma abertura de horizontes que lhe permitem, num repertório que cruza alguns séculos de música para piano, pensar pontos de vista seus (e do seu tempo) na hora de abordar o que as partituras colocam pela sua frente. E é o que faz no álbum que acaba de editar e que, partindo de uma série de peças para piano de Erik Satie, procura encontrar espaços que vão além de uma mera interpretação já que, com o auxílio de outros instrumentos – um cravo, um wurlitzer e um computador -, o que aqui propõe é uma visão pessoal que não apaga o tempo que passou entre o momento em que o compositor lançou as notas sobre o papel e aquele em que, agora, o podemos escutar.

Diferente tanto das abordagens com os primeiros moog que Wendy Carlos propunha sobre peças da música barroca em finais dos anos 60, mas longe também dos jogos de interpretação livre e personalizada com que Keith Jarrett abordou já várias peças do repertório clássico, o álbum que Tamar Halperin dedica a Satie acaba por estar até mais perto das visões habitualmente lançadas por Uri Caine, porém sem alcançar o patamar de descontrução no qual acaba por reinventar a forma das peças de Bach, Mahler ou Wagner sobre as quais trabalhou. Aqui, e com a ajuda do produtor Guy Sternberg, a pianista tenta encontrar ecos possíveis para a música para piano de Eric Satie nesta alvorada do século XXI.

As abordagens conciliam assim um cunho interpretativo – como o que Helène Grimaud encarou recentemente as peças clássicas que chamou a Water – com um desejo de intervenção no plano dos arranjos, abrindo possibilidades sem contudo procurar caminhar além do que está escrito (ou pelo menos sugerido) na partitura. Apenas os sons e a forma dos instrumentos abraçarem a música reflete esse cunho autoral. Entre abordagens mais canónicas e desvios que por vezes se aproximam de domínios do lounge (e lembram mesmo alguns instrumentais dos franceses Air nos discos de finais dos anos 90), o Satie Album de Tamar Halperin é mais uma interessante peça num jogo de cruzamentos de linguagens e experiências que caracteriza um tempo de diálogos mais profundos entre espaços e géneros musicais que, noutros tempos, andariam quase sempre de costas voltadas entre si. O disco tem tudo para não ser unânime e até mesmo para fazer torcer narizes àqueles menos dados às liberdades que a pianista aqui lança sobre a obra de Satie. Mas é de um plácido exercício de ousadia que vive uma interessante abordagem a uma obra que foi determinante para lançar pistas pelas quais se fez muita da música do século XX. Esta visão pode não ser um fim, mas apenas um esboço de um processo. Mas abre mais uma frente de abordagens que vale a pena ter em conta num tempo em que é do diálogo, da intervenção, do cruzamento de ideias, que vive o que de mais interessante a música tem tido para nos mostrar. E, através de Tamar Halberin, Erik Satie tem mais uma oportunidade para jogar cartas afinal tão atuais… E Satie, acredito, teria gostado de ouvir…

O “Satie Album”, de Tamar Halperin, está editado em CD pela Neue Meister

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: