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Pelo espaço fora… sem perder a dimensão humana das coisas

Texto: NUNO GALOPIM

Um dos mais importantes autores de literatura de ficção científica do nosso tempo tem em “Aurora” um dos seus melhores livros. E com ele leva-nos no espaço, em lenta viagem até um sistema solar onde foi identificado um mundo semelhante ao nosso…

A ficção científica (e a literatura de cunho fantástico que a precedeu) inventaram já as mais variadas formas para fazer o homem viajar no espaço. Da ventania que levou o protagonista da História Verdadeira de Luciano de Samóstrata à ideia (brilhante) da viagem que não implica movimento no universo que Frank Herbert criou em Duna, há de tudo para todas as velocidades e patamares mais incríveis de imaginação. Há depois quem opte por uma demanda mais realista nas mecânicas tecnológicas em que encaixam as suas narrativas. E, nesse ponto, Kim Stanley Robinson tem-nos dado a ler vários exemplos de como uma busca pela verosimilhança acaba por alimentar narrativas que, mesmo projetadas adiante no tempo e mais longe no espaço, têm aquele raro sabor a coisa que podia mesmo acontecer. E em Aurora, o seu mais recente romance, dá-nos um relato de uma viagem de longo curso rumo a um outro sistema solar que, antes de tudo mais exige uma realidade maior: o tempo. Muito tempo…

Aurora é um romance “de nave”. E acompanha uma missão – uma longa missão – de uma tripulação de cerca de duas mil pessoas até ao sistema de Tao Ceti, no qual fora identificado um planeta com condições semelhantes às da Terra, levando como objetivo a sua possível colonização e, eventualmente, projetos de terraformação. Estamos, de certa forma, num terreno algo semelhante ao que o mesmo autor lançou, nos anos 90, na sua “trilogia marciana”, porém tendo por cenário não um planeta (cuja transformação vamos acompanhando) mas sim uma nave gigantesca, cujas secções são divididas por “biomas” (é mesmo o termo usado) que recriam ambientes, floras e faunas de ecossistemas terrestres, em cada um havendo uma população humana que, naturalmente, interage com as demais que habitam a nave.

A nave é um grande cenário em movimento. E a narrativa dá-nos como protagonista Freya, para quem o seu “mundo” não é a Terra de onde muitos partiram, mas aquela nave gigantesca, com 12 biomas e que, ao fim de 160 anos de viagem, inicia a aproximação ao sistema de Tao Ceti. E tal como em Marte, Kim Stanley Robinson concilia o plano científico e tecnológico da viagem, missão e problemas que vão ocorrendo com os comportamentos pessoais e coletivos da comunidade. E é aí, nesse plano humano, que vive a alma que faz de Aurora – como nos demais textos deste, que é um dos melhores autores de literatura sci-fi do presente – um mundo que sabe bem descobrir. É claro que não faltam os ingredientes que complicam e adensam a trama, explorando o livro as questões éticas e biológicas que decorrem de uma eventual presença humana em outros mundos.

Depois de uma série de romances menos marcantes após a trilogia Science In The Capital (que foi publicada entre 2004 e 2007), na qual explorou relações entre os poderes político e económico com um cenário grave de alterações climáticas, Aurora devolve Kim Stanley Robinson à linha da frente do que de melhor se está a fazer na literatura de ficção científica. Não se compreende, por isso, como, além da velha coleção contos Planeta Sobre a Mesa (lançado pela Caminho), não voltou a ser traduzido entre nós. Assim como não faz sentido como não está já devidamente adaptado ao cinema e televisão (há um projeto de série para a trilogia marciana, mas está em pausa)…

“Aurora”, de Kim Stanley Robinson, é uma edição paperback de 466 páginas lançada pela Orbit.

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