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Um Batman para tempos de cólera

Texto: PEDRO MIRANDA

Porque pode ser uma boa ideia revisitar o épico de Christopher Nolan na conjuntura actual.

Certa vez, comentando os perigos e a influência do autoproclamado Estado Islâmico no panorama contemporâneo, o actual presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, resolveu fazer referência a O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight no original) , o segundo filme de Christopher Nolan com base no imaginário da DC Comics, afirmando: “Há uma cena no começo do filme em que os líderes das gangues de Gotham se reúnem. São homens que haviam dividido a cidade. Eram rufias, mas havia uma certa ordem. Cada um deles tinha o seu território. E depois aparece o Joker e ateia fogo à cidade toda. O ISIS é o Joker.”

Como conto preventivo, este pequeno texto poderia ficar por aqui: poucas citações encapsulam tão eloquentemente, e em tão poucas palavras, o objectivo a curto prazo da organização terrorista – o de promover o caos – o mesmo, afinal, do principal antagonista da história contada por Nolan. Mas há muitos outros motivos para revisitar The Dark Knight no tempo em que nos encontramos (para além da realização visionária, diálogos envolventes e brilhantes actuações de Heath Ledger, Gary Oldman ou Michael Caine). Afinal, o mundo, como Gotham, é um lugar temível e cheio de perigos à espreita, e o filme vai oferecendo sugestões acerca de como devemos ou não agir perante elas.

Não ousamos ir tão longe quanto a oferecer conclusões precipitadas quanto aos dilemas em questão, mas podemos enumerar uma série de pontos do debate público para os quais a visualização do filme só pode contribuir. Veja-se, por exemplo, o dispositivo de vigilância revelado por Wayne no último terço do filme e utilizado por Lucius Fox no combate aos criminosos, talvez a mais clara referência ao Patriot Act americano pós-11 de Setembro (e as complicações que trouxe, como pudemos todos observar, a nível da NSA), mas também, no seu toldar dos direitos civis, uma análise do que se tentou executar ainda este ano no Reino Unido, ou o que Erdogan promove hoje numa Turquia sob estado de emergência.

O tema da amplificação do terror, que encontrará o seu máximo expoente contemporâneo nos ataques do Daesh e do Boko Haram, poderá também oferecer contributos àquilo que deve ou não ser um país assolado pelo medo. O Brexit, a ascensão dos extremismos políticos na Europa, o acolher (Grécia, França, Alemanha) ou repudiar (Polónia, Hungria) de refugiados de guerra, são decisões de nações confrontadas com um estado internacional crítico, o mesmo que enfrentam os desesperados cidadãos de Gotham na sua luta contra o crime, a injustiça e a corrupção. E depois, há os intermináveis confrontos entre o bem e o mal, muitos deles que se manifestam na dimensão psicológica das personagens, em relação aos quais não há lista de acontecimentos nacionais e internacionais que compreenda o seu valor.

Mas, mais interessante do que descortinar ou aderir às opiniões irremediavelmente veiculadas por este artigo, será reinterpretar, por conta própria, a mensagem transmitida ou questões levantadas pelo segundo filme da trilogia de Nolan e, em consequência disso, possivelmente reavaliar uma posição pessoal em relação a temas que, afinal de contas, dizem respeito a todos nós. Não só porque, na sua essência, The Dark Knight é um dos raros filmes de super-heróis que transcende o género para tecer um comentário social mais profundo, mas também porque os tempos conturbados em que nos encontramos exigem-no.

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