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Quando as velhas carruagens contam histórias

Texto: NUNO GALOPIM

Uma exposição temporária sobre a embaixada que D. João V enviou a Roma há precisamente 300 anos mostra como as peças do Museu dos Coches têm histórias para nos contar.

Uma embaixada a Roma em 1716, que representou um momento importante na história da diplomacia portuguesa e que valeria a Lisboa a elevação a patriarcado, é motivo da exposição temporária que está patente no Museu dos Coches, em Lisboa. E serve de exemplo de como as velhas carruagens podem contar-nos histórias.

A história da embaixada enviada por D. João V ao papa é evocada entre objetos, imagens e textos. Está ali uma das mais célebres representações do Terreiro do Paço (e do Paço da Ribeira) e de espaços visitados em Roma, retratos do rei e rainha, assim como do embaixador (este pela primeira vez exposto publicamente), assegurando-se assim olhares sobre os lugares e os protagonistas. Estão também ali o relato publicado da viagem e uma planta das obras que construíram, ao lado do paço real, a célebre Igreja Patriarcal, destruída depois pelo terramoto, em 1755. Pelos textos que a museografia junta às peças mergulhamos depois no tempo para evocar a própria história das grandes embaixadas portuguesas, além de recordarmos esta em concreto e as suas consequências.

Este pequeno percurso, num espaço algo escondido entre as duas grandes salas, é contudo uma exceção num museu onde o contraste entre a qualidade da coleção e o minimalismo da museografia é problema visível num espaço que tem, contudo, naquele edifício o seu maior senão. É sabido (porque bastava ter andado por lá) que o velho picadeiro, ali ao lado, era apertado para tão grande (e, repito, magnífica) coleção. Porém, e além de uma arquitetura que não só destoa do enquadramento como está longe de ser entusiasmante, a nova casa do museu pode ter ganho em volumetria no espaço mas não teve investimento semelhante na construção de um percurso informativo que contextualize as peças e acolha e acompanhe o visitante. Há wi-fi gratuito (sim, viva a modernidade), mas não é dando mais ginástica ao polegar que um museu conta as suas histórias a quem o visita. E depois nem todas as peças têm um número ou código que permita a cada um encontra-las facilmente no catálogo online… Há que usar o olho, comparando, até as encontrar, o que não é a melhor das ideias. Isto além do facto de parecer que se parte do principio de que toda a gente já tem um smartphone

Pode haver mais condições de segurança e maior acessibilidade entre estas salas (e isso é também um fator a ter em conta)… Mas pelas paredes há muito branco. Branco e mais branco por todo o lado, que poderia ceder o tamanho protagonismo que tem e, aqui e ali, deixar que surgissem zonas de texto e imagens para que, entre memórias dos tempos da III dinastia até à alvorada do século XX, pudessem nascer histórias. Porque estão fechadas dentro das carruagens e apenas à espera de quem as conte, assim como de um lugar para que a narrativa aconteça… O museu iria assim ser outro… E a coleção justificava o investimento.

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