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Quando a modernidade global escutou outras tradições

Texto: NUNO GALOPIM

Numa das primeiras expressões de uma atenção que o fenómeno “world music” deu a sons de outros destinos, o álbum “Atish”, de Najma, é uma pérola suave que vale a pena redescobrir.

Em grande parte devido à mediatização junto dos circuitos mais próximos da cultura pop/rock que resultou da adesão de nomes como Peter Gabriel, David Byrne ou Paul Simon a outras músicas, a world music viveu um momento de evidente expansão nos escaparates das lojas de discos em finais da década de 80. A inglesa Najma Akhtar, de ascendência paquistanesa, foi uma das primeiras vozes relacionadas com a cultura asiática a revelar então um gosto pelos diálogos entre culturas e conhecer visibilidade na Europa.

Tal como sucedeu com o indiano Bally Sagoo, o facto de ter nascido e de residir no Reino Unido colocou-a mais perto do que outros (como, por exemplo, Jolly Mukherjee) dos pólos da edição e da divulgação, assim se justificando o calendário que de si fez então um dos primeiros “casos” do fenómeno world music.

Editava então sob o primeiro nome, Najma. Estreou-se em 1986 com Ghazals by Najma, seguindo-se Qareeb (1987), que cativou mais atenções e, afinando e arrumando ideias, abriu caminho para o que em 1989 nos mostou em Atish, aquele que é o seu álbum de referencia.

Como o seu percurso discográfico sugeria, a relação com genéticas tradicionais firma-se essencialmente através do ghazal (uma forma poética de origem árabe mas com expressão em algumas regiões da Ásia desde o século XII). Daí, e sob uma atenção evidente para com formas musicais de origem indiana, Najma parte para a construção de um espaço que aceita a contaminação de instrumentação ocidental (das guitarras às electrónicas), aceitando ocasionais incursões por terrenos da pop (como em Faithless Love, a única canção em inglês do alinhamento do álbum) ou ao jazz (em Atish Fishan, que abre o disco).

É no saber com que explora estes diálogos, que a sua voz (que cruza vários dialetos) tão bem enquadra, que nasce a alma de um disco que, apesar das referencias que soma, acaba por ter uma geografia global (característica afinal transversal a tantos outros discos do seu tempo e expressão identitária de uma nova etapa dos espaços da música do mundo, por oposição às memórias das gravações de recolha de música étnica tão em voga nos anos 60 e 70).

Com pérola maior em Apne Hathon, onde as tablas convivem com electrónicas e um saxofone, Najma define o paradigma de uma nova ordem que criou descendência. Pena que, mais de 20 anos depois, o disco ande tão esquecido…

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