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Num tempo em que se descobriam exotismos (mas ao jeito de Hollywood)

Texto: NUNO GALOPIM

Editado em 1950, antecedendo o próprio espaço a que se veio a chamar “exotica”, o álbum de estreia de Yma Sumac é uma peça rara e diferente que já merecia um outro reconhecimento.

Há discos que nascem como alienígenas, estranhos entre os estranhos, mas que por uma razão ou outra, acabam por produzir um efeito de encantamento que conquista plateias bem para lá do que se poderia esperar. Foi assim com Voice of the Xtabay, álbum de 1950 que assinalou a estreia discográfica de Yma Sumac em nome próprio e que, sete anos antes do disco que tornaria oficial o espaço a que se convencionaria chamar “exotica”, definia já todo um quadro de ideias cénicas e características pessoais que o fazia caber, que nem uma luva, à ideia que então confirmou a visão de Les Baxter, o “pai” dessa região demarcada da música popular que fez escola nos anos 50 e que, curiosamente, é o autor de duas das oito canções que escutamos neste disco de Yma Sumac.

Sobre ela, a sua voz e discografia, vale a pena lembrar ainda que sempre foram figura e obra difíceis de arrumar num qualquer cânone e que, desde os momentos de popularidade mainstream que viveu na alvorada dos anos 50 ao quase silêncio que chegou quando a década chegou ao fim (discograficamente rompido em apenas ocasionais situações), sempre causou divisão de opiniões. Vista mais como curiosidade do que uma presença relevante na história da música popular do século XX, Yma Sumac é ainda uma figura à espera do merecido reconhecimento. Nem que pelo instante invulgar, visionário e muito característico de um modo hollywoodesco de olhar os exotismos, que Voice of the Xtabay fixou.

A construção de uma personagem para acolher a voz e a presença de Yma Sumac geraram toda uma série de mitologias que ora contavam que era descendente do último grande imperador Inca ora diziam que era uma dona de casa nova-iorquina que resolvera, pela música, dar outro rumo à sua vida.

Na verdade Zoila Augusta Emperatriz Chávarri del Castillo (1922-2008), o seu nome real, era uma cantora peruana, com trabalho já realizado antes deste disco lhe ter dado visibilidade maior em 1950. Começara a cantar na rádio em 1942 (o mesmo ano em que se casou com o compositor Moisés Vivanco) e chegou mesmo a gravar uma série de canções folk de passagem pela Argentina por esses dias. Com a família mudou-se para nova-iorque em finais dos anos 40, começando ali a fazer carreira a bordo do Inka Taky Trio. E foi então que, através da Capitol Records, recebeu um convite para gravar a solo. Yma Sumac ia finamente nascer.

Feito de seis composições de Vivanco e duas de Baxter, Voice of the Xtabay é um festim de exotismo que concilia uma interpretação à la Hollywood de um sentido de herança pré-colombiana com uma presença latina (que antecipa caminhos que tomariam maior protagonismo em edições posteriores). A invulgar extensão vocal de Yma Sumac (que ultrapassa as quatro oitavas), que lhe permitem não apenas o canto mas também um desenho de vocalizações que se tornariam assinatura sua, os arranjos luxuriantes para orquestra e uma presença variada e desafiante de instrumentos de percussão, criava um alinhamento tão invulgar quanto sedutor. Diferente. Mas estranhamente intrigante.

A imagem, trabalhada, a mitologia, construída, ajudaram a edificar uma figura a quem a estranheza da música servia de perfeita banda sonora. De resto, perante o impacte deste disco, não só muitos outros se seguiram como, em 1964, Yma Sumac foi convidada a figurar no elenco de Secret of the Incas, de Jerry Hooper, protagonizado por Charlton Heston (e muito fiel a um modo de retratar tudo o que não era ocidental segundo um prisma “exótico” e pouco fiel a um sentido realista das coisas que então cruzava tantas outras produções do cinema norte-americano em hora de contar histórias em geografias menos habituais).

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