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Rapper’s delight

Texto: NUNO GALOPIM

A Netflix acaba de apresentar os seis primeiros episódios da excelente série que Baz Luhrman e Stephen Adly Guirgis criaram tendo o Bronx de 1977 por cenário e as origens do hip hop no centro das atenções.

Meses depois de, através de Vinyl, termos experimentado – via HBO – um mergulho nas memórias rock’n’roll da Nova Iorque dos anos 70, uma outra ficção criada para o grande ecrã volta a tomar a mais criativa das décadas da história pop/rock da cidade como cenário para uma ficção que tem também a música na alma. Com Baz Lurhman como uma das principais forças criadoras (tendo ele mesmo realizado o espantoso episódio-piloto – The Get Down toma essencialmente o Bronx como foco central de uma narrativa que, projetada em 1977, acompanha um tempo em que o disco sound chegou ao mainstream e o hip hop começa a dar os primeiros passos, a cativar primeiras plateias e a gerar as bases de uma cultura que traduz a identidade do quem, quando e onde dos que a ali estavam a viver.

Tal como em Vinyl há em The Get Down – cujos seis primeiros episódios foram disponibilizados há dias pelo Netflix (sendo esperada a segunda “tranche” desta primeira temporada em janeiro de 2017) – uma permanente vontade em estabelecer pontes entre factos, lugares e figuras reais e o grupo de protagonistas ficcionados através dos quais se projeta uma expressão das realidades em curso. Eles são um aspirante a DJ (que na verdade ganha ainda a vida ao trabalhar para uma pequena mafiosa de bairro), um jovem estudante (filho de uma pianista) que tem habitualmente livros por perto e é invulgarmente dotado para a poesia e três irmãos, filhos de uma dona de cabeleireiro cujo marido tem ares de jazzman (e toca até o saxofone). O elenco de ficção envolve ainda uma família de um pastor que não vê o canto senão para fins religiosos, mas que é pai de uma rapariga que sonha ser diva do disco… O irmão dele é um político local com ágil ginástica para fazer acontecer o que tiver de ser… Entre eles surgem depois interpretações de figuras reais, quer de DJ fundadores do hip hop, como Kool Herc ou Grandmaster Flash ou ED Koch, que foi o autarca da cidade entre finais dos anos 70 e a chegada dos 90.

É entre estas figuras e tendo por cenário uma zona do Bronx que, por aqueles dias, parecia cenário pós-apocalíptico, com prédios arruinados (alguns deles incendiados de propósito para que houvesse quem ganhasse com os prémios dos seguros), as movimentações destas figuras nos colocam num tempo em que o disco sound deixou de ser uma realidade underground e faz os êxitos que se ouvem de dia e dançam de noite. A ele estão ligadas as instituições, dos patrões da noite aos editores e demais profissionais da música. Ao mesmo tempo, entre as ruas emergem artistas que usam as latas de tinta para contar as suas histórias e traçar as suas imagens ora em muros e túneis ou até mesmo em comboios. E, depois, há uma emergente cultura que, com sede original no apartamento de DJ Kool Herc (que é retratado num dos episódios), começa a espalhar-se envolvendo uma forma de usar os discos que leva a concentrar atenções em apenas alguns segmentos das canções, tirando a “parte chata” (ou seja, a cantada), um outro modo de agir perante as palavras da parte de quem tem o microfone nas mãos e também todo um novo quadro de gestos e movimentos que emergem entre quem atua e também quem assiste a estas atuações.

The Get Down tem uma cautela enorme no dosear dos factos musicais entre uma história que, antes do mais, cuida bem da construção das personagens e do contexto que acaba por fazê-las quem são. Mas tem também cautela em não reduzir os acontecimentos a um duelo a preto e branco feito de disco sound e hip hop. E a forma como, discretamente, num dos episódios, nos é lembrado (numa sequência em Manhattan) que o punk está também a fazer história e tem os Ramones entre os seus heróis ou, pouco depois, e com mais cor, som e movimentos, é feita uma incursão numa das primeiras manifestações do vogueing, expressão de uma frente artística da cultura queer de então, encontramos em The Get Down uma vontade em lembrar que, afinal, tudo isto estava ligado…

Os seis primeiros episódios (que não escondem que foi Baz Luhrman quem definiu aqui as normas de ação dos realizadores que se seguiram) apresentam histórias e lançam a narrativa… Vale (mesmo) a pena esperar por janeiro para descobrir como estas movimentações começaram, pouco depois, a chamar atenções além do bairro.

PS. E sabe bem voltar a ver Baz Luhrman a agir num plano em que nos sabe dar o seu melhor.

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