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“Star Trek”: as viagens no grande ecrã (13)

Texto: NUNO GALOPIM

Em contagem decrescente para a chegada do 13º filme da saga, que assinala os 50 anos da chegada de “Star Trek” à televisão, recordamos a sua história feita no grande ecrã.

O tempo fez de Star Trek um fenómeno global. Mas a verdade é que, quando a série televisiva original foi estreada nos pequenos ecrãs, entre 1966 e 69 (produção da Desilu, um estúdio associado da Paramount), esteve longe de ser um caso de sucesso maior. Tanto que, ao cabo de três épocas, recebeu a palmadinha nas costas e ponto final. Os anos 70 trouxeram contudo um novo alento aos estúdios pela forma como as repetições dos episódios começava a gerar um cada vez maior fenómeno de culto. Foi então criada uma série de animação, mas foi erro rapidamente reconhecido e não teve sequer segunda época. Em finais dos anos 70 pensou-se então num regresso aos episódios em imagem real. Teve como título Star Trek: Phase II. Foi desenvolvido um episódio-piloto, criadas novas personagens, repensada a imagem da nave Enterprise (sobretudo nos espaços interiores).

O sucesso recente de Star Wars poderá ter tido importância decisiva na decisão de arquivar o projeto televisivo (que só ressurgiria, sob nova ideia, em 1987 com Star Trek: The Next Generation) e na aposta no grande ecrã. Surge assim a luz verde para avançar para um novo patamar na história de uma saga ainda hoje viva.

“O Caminho das Estrelas”
Robert Wise (1979)

Na origem do projeto estava uma nova série de televisão. Seriam recuperadas personagens, juntando-se novas figuras. Foi feito o casting… Havia novos figurinos e cenários. E perante o surto de interesse sci-fi no cinema o regresso à televisão acabou adiado e as novas metas foram apontadas ao grande ecrã. Foi aproveitado (e desenvolvido) o argumento do episódio-piloto, mantendo-se as novas personagens Ilia e Decker, todavia com Leonard Nimoy a retomar o papel de Spock (em vez do novo vulcaniano Xon, previsto para Star Trek: Phase II).

Para dirigir o primeiro filme foi chamado Robert Wise, realizador versátil (são dele filmes como West Side Story ou Música no Coração), com créditos de ficção científica assinado no histórico (e maravilhoso) The Day The Earth Stood Still, de 1951.

Com budget enriquecido na hora de pensar a estreia em grande ecrã, a equipa apostou na criação de efeitos visuais, que se afirmariam uma das marcas de identidade do filme e uma das principais afirmações de diferença face à artilharia de baixos custos que conhecíamos dos episódios dos anos 60.

Retomando a tripulação “clássica”, a narrativa de Star Trek: The Motion Picture (o seu título original) leva a Enterprise a enfrentar uma ameaça que chega do Espaço e que se revela, afinal, eco direto (e mal interpretado por si mesmo) de uma invenção humana. O filme é um caso único entre toda a história de Star Trek no cinema já que explora sobretudo uma ideia de contemplação de imagens criadas com efeitos visuais, apresentando longas sequências de música e olhares despidos de ação maior que nenhum outro título posterior voltaria a repetir.

“Star Trek II: A Ira de Khan”
Nicholas Meyer (1982)

Depois de um primeiro filme, a vida de Star Trek no cinema entrou numa rotina com mais evidente aproximação aos modelos da série televisiva. O segundo filme encetava ainda um tríptico com continuidade narrativa direta nos dois títulos que se lhe seguiriam.

Na verdade Star Trek II: A Ira de Khan retoma uma personagem (e o próprio ator Ricardo Montalbán) que a interpretara ortiginalmente) do episódio Space Seed, de 1967. O filme abandona o patamar mais contemplativo de Star Trek: The Motion Picture e mergulha numa lógica de ação mais na linha do habitual nos modelos sci fi de aventuras. E, mais ainda que no filme inaugural, são retomadas várias ligações a elementos da “mitologia” Star Trek.

Star Trek: A Ira de Khan acompanha a missão de uma nave da federação em busca de um planeta sem vida capaz de albergar um teste de um novo dispositivo de terraformação chamado Genesis. É no decurso desta demanda que encontram Khan, um velho tirano geneticamente manipulado abandonado 15 anos antes e com contas por ajustar com o comandante Kirk… E a coisa segue daí em diante… Dada a falta de resultados mais sonantes no filme de 1979, Gene Roddenberry não teve um papel tão ativo no desenvolvimento desta sequela. A realização foi entregue a Nicholas Meyer (que regressaria para um outro filme anos depois).

“Star Trek III: À Procura de Spock”
Leonard Nimoy (1984)

Depois do sucesso do segundo filme da saga Star Trek, a sua vida no grande ecrã entrou numa nova rotina de produção. E, dois anos depois, havia nova estreia nas salas de cinema.

Juntamente com o segundo e quarto filmes, Star Trek III: The Search For Spock constrói um arco narrativo em jeito de tríptico, este terceiro episódio não vivendo de todo (ao contrário do seguinte) sem a presença próxima do que o antecede. A história continua precisamente onde Star Trek II: A Ira de Khan nos deixara, entrando em cena Sarek, o pai de Spock, que alerta os seus companheiros para o facto do seu katra (o espírito vivo) não morreu, pelo que devem recuperar o seu corpo e devolvê-lo à vida. Em busca de Spock, enfrentando as consequências desconhecidas do projeto Genesis e uma tripulação Klingon que tenta capturar o engenho que coordena este mecanismo de terraformação, a aventura continua na mesma linha do que o segundo filme mostrara, desta vez contando com efeitos visuais a cargo da Industrial Light and Magic e com realização de Leonard Nimoy (ou seja, o ator que interpreta Spock), que assim se tornou no primeiro elemento do elenco da série a estrear-se na realização.

A ideia de fazer um terceiro filme antecedeu mesmo a chegada dos resultados do segundo. Foi o próprio Leonard Nimoy quem, depois de uma consulta a Nicholas Meyer, avançou com a proposta de ser ele mesmo a realizar. Uma série de pequenas alterações acrescentadas ao segundo filme (na reta final da produção) definiu logo ali as possibilidades narrativas que este terceiro, depois, desenvolveu.

“Star Trek IV: O Regresso à Terra”
Leonard Nimoy (1986)

A conclusão do tríptico iniciado em 1982 com Star Trek II: A Ira de Khan chegou quatro anos depois com uma aventura que trouxe os heróis do futuro à Califórnia dos anos 80…

Há um elemento determinante no corpo de Star Trek IV: O Regresso à Terra: o humor. Humor que se manifesta através de uma série de situações criadas entre personagens cuja familiaridade e reconhecidas características específicas o filme assume como dado adquirido. E é nesse clima de reencontro com “velhos” conhecidos que evolui o quarto filme da série que, conclui com uma viagem no tempo à Terra de finais do século XX a aventura encetada no segundo filme, quatro anos antes. Leonard Nimoy retomou o cargo de realizador (já assumido no terceiro filme), enfrentando um pedido muito da Paramount para criar uma história mais “ligeira”, a produção acabando por envolver no projeto profissionais ligados ao universo da comédia.

Na bilheteira Star Trek IV: The Voyage Home (o título original) foi um estrondoso sucesso, confirmando a crescente solidez do fenómeno de popularidade em que este universo de ficção de havia transformado. Tanto que, um ano depois, a Paramount levava finalmente Star Trek de regresso aos pequenos ecrãs através de uma nova série, num outro tempo e com nova tripulação. Chamou-lhe Star Trek: The Next Generation. E poucos anos depois chegaria também ao cinema.

“Star Trek V: A Última Fronteira”
William Shatner (1989)

O quinto filme da série Star Trek foi o primeiro tropeção da presença no grande ecrã de uma saga nascida na televisão. O primeiro dos muitos que se seguiriam, com exceção apenas no sexto e nos títulos mais recentes de J.J. Abrams.

Depois de dois filmes realizados por Leonard Nimoy, desta vez coube a um outro ator do elenco o papel de comandar a criação de um novo título da saga Star Trek. Estreado em 1989 com o título Star Trek: A Última Fronteira, o quinto episódio da vida de Star Trek no cinema deu por concluída a narrativa que fizera o tríptico com os filmes II, III e IV, colocando-nos, ainda com a tripulação “clássica” num outro lugar e perante uma outra situação.

Desta vez na berlinda está um vulcaniano, de nome Sybok (na verdade o meio-irmão de Spock, mas em nada comparável ao irmão), na sua tentativa de viajar até ao centro da galáxia em busca de Deus… Revelando marcas de uma certa rotina em que a série de filmes tinha entrado desde o episódio II, este quinto título não conseguiu contudo captar o mesmo entusiasmo. E nem mesmo uma semana de abertura notável nas bilheteiras (chegando mesmo a liderar o box office americano) lhe garantiu uma carreira de sucesso, acabando a menos de metade dos resultados conseguidos pelo episódio anterior.

É claramente o mais desinteressante dos filmes Star Trek com a geração “clássica” e um dos piores de toda a saga no grande ecrã. Haveria ainda um sexto episódio com a mesma tripulação. Mas por esta altura, e com a série televisiva Star Trek: The Next Generation a gerar resultados francamente encorajadores, havia certamente quem começasse a ponderar a hora da passagem de testemunho entre gerações também no grande ecrã.

“Star Trek VI: O Continente Desconhecido”
Nicholas Meyer (1991)

Estreado em 1991, Star Trek: The Undiscovered Country (no seu título otiginal) foi o sexto e último título com a geração clássica e um dos melhores de toda a série de filmes do universo Star Trek.

E se o “muro” também caísse no espaço? Em tempo de desagregação do Bloco de Leste, depois da queda do muro de Berlim, o que se diz ter sido uma sugestão de Leonard Nimoy transformou-se na linha central da narrativa para o derradeiro filme com a chamada “geração clássica” de Star Trek.

Nicholas Meyer, que tinha dirigido o segundo filme, foi novamente convocado para realizar este episódio para o qual era procurado um tom mais negro e tenso. A história parte de uma tentativa de negociação de um tratado de paz entre o império Klingon e a Federação, destino que não agrada a todos, havendo quem tente tudo para que essa nova etapa seja alcançada. Recorde-se que entretanto estava já nos ecrãs a série Star Trek: The Next Generation que, passada num futuro não muito distante face ao da série original (e, portanto, desta geração de personagens a representar no cinema) onde um klingon tem um papel central na tripulação da nova Enterprise.

O elenco deste filme convocou uma série de nomes ilustres, desde Christopher Plummer (que vestiu a pele de um klingon) a Kim Catrall (como uma vulcaniana) ou até Iman (uma alienígena que muda a forma do seu corpo). Ao contrário do que sucedera com o quinto episódio, este sexto filme Star Trek devolveu à série o sucesso nas bilheteiras e até mesmo algumas opiniões favoráveis. E assim, na hora de passar o testemunho, a geração original dava a sua missão por cumprida. Apesar das futuras aparições (pontuais) de atores (e suas personagens) em episódios ou filmes posteriores, este foi o último momento em que Nichelle Nichols vestiu a pele de Uhura. Por seu lado foi também o último papel de DeForrest Kelley (o Dr. MacCoy).

“Star Trek : Gerações”
David Carson (1994)

Ao sétimo filme passava-se o testemunho. E a “next generation”, que andava pelos pequenos ecrãs desde 1987, chegou finalmente ao cinema.

Apesar do sucesso considerável do sexto filme com a geração “clássica” estava já decidido que, depois de Star Trek: The Unidiscovered Country, o sétimo filme da série seria entregue à tripulação de Star Trek: The Next Generation, série estreada na televisão em setembro de 1987 e que estava a obter um estatuto de sucesso considerável, em nada podendo comparar-se à primeira vida dos episódios da série original em finais dos anos 60.

Tal como sucedera em 1987 em Encounter at Farpoint, o episódio de estreia da Next Generation (onde surgira um Dr. McKoy envelhecido), o novo filme procurou também uma passagem de testemunho entre gerações. E fê-lo através da presença de William Shatner, que vestiu assim uma vez mais a pele de Kirk no grande ecrã, numa narrativa que começa no “seu” tempo e avança até ao futuro onde de vive o presente da Next Generation, as cenas em que partilha o ecrã com Patrick Stewart (Jean-Luc Picard) representando uma sólida expressão dessa passagem…

Star Trek: Gerações peca contudo por um argumento menor, em nada refletido o viço habitualmente respirado pelos episódios da Next Generation. Sem repetir o entusiasmo dos melhores resultados dos seis primeiros filmes, a estreia desta nova “geração” no grande ecrã superou em muito o investimento. Pelo que, mesmo com um filme algo abaixo das expectativas, ficou claro que Star Trek tinha nova vida garantida no grande ecrã.

“Star Trek: O Primeiro Contacto”
Jonathan Frakes (1996)

O segundo filme com a “geração seguinte” a bordo da Enterprise D foi o mais bem sucedido dos quatro realizados com a tripulação comandada por Jean-Luc PIcard.

Não podemos comparar o sucesso televisivo da série Star Trek: The Next Generation com o da série original que lançara a saga nos anos 60. Por um lado há os valores das audiências, magras para a série original, mas expressivas para o spin off nascido no final dos anos 80. Por outro há o impacte cultural, da memória algo mitificada da geração original à mais rotineira presença da tripulação da outra geração que, apesar das narrativas exploradas nos episódios, dos novos universos criados e das personagens, em nada se compara ao culto que a série original definiu.

O segundo filme da “next generation” foi contudo aquele que mais de perto traduziu os feitos da nova série, na verdade não sendo senão uma sequela direta de um episódio duplo, The Best of Both Worlds, no qual o comandante da Enterprise D é capturado e “assimilado” pelos Borg, um dos mais temíveis povos conhecidos deste universo. Realizado por Jonathan Frakes (um dos elementos do elenco), Star Trek: O Primeiro Contacto junta a “ameaça” Borg a uma história de viagem no tempo, fazendo os elementos da Enterprise D recuar até ao dia em que um inventor testa um modelo de propulsão que atingirá a velocidade warp e, com ela, uma “assinatura” evolutiva que é reconhecida por alienígenas vigilantes, resultando na consequente integração da Terra na Federação de Planetas que está no centro do universo Star Trek.

Algo semelhante ao modelo de realização usado nos episódios televisivos, o filme não deixa contudo de parecer senão uma aventura para o pequeno ecrã com upgrade para um ecrã maior.

“Star Trek: Insurreição”
Jonathan Frakes (1998)

O terceiro filme com a “geração seguinte” deu claros sinais de que pouco futuro estas personagens teriam num grande ecrã.

O segundo filme com a Enterprise D e as personagens reveladas pela série Star Trek: The Next Generation tinha partido claramente de uma ideia televisiva para rumar ao grande ecrã. Com o título Star Trek: Insurreição, o nono filme contou novamente com realização de Jonathan Frakes mas, desta vez, um argumento sem a carga “mitológica” do anterior First Contact.

A narrativa coloca-nos em volta de um povo e das suas capacidades de regeneração física (ou seja, uma piscadela de olho à velha ideia da “fonte da juventude”) e lança a tripulação da Enterprise D numa missão de rebelião contra superiores hierárquicos que descobrem estar envolvidos com planos ilícitos… Claramente um episódio televisivo alongado às exigências de um filme, este nono Star Trek foi o primeiro a contar com efeitos visuais inteiramente criados por técnicas de CGI.

Star Trek: Insurreição é, contudo, narrativa e visualmente a expressão de uma incapacidade em pensar cinema para lá de uma agenda que parte da televisão. E mesmo tendo obtido resultados encorajadores nas bilheteiras, não deixou de ser uma evidência de um franchise em clara fase descendente… Juntamente com o quinto filme e o que se seguiria corresponde aos episódios mais desinteressantes da vida de Star Trek nos grandes ecrãs.

“Star Trek: Nemesis”
Stuartt Baird (2002)

O quarto filme com as personagens da “next generation” encerrou em nota menor a presença destas figuras e do seu universo no grande ecrã.

Tal como acontecera com Star Trek: First Contact, o quarto filme da saga com a “next generation” (e o décimo na contagem total de títulos Star Trek) voltou a colocar a Enterprise D em confronto com ecos da mitologia criada pela série, desta feita estabelecendo um confronto com os romulanos (inimigos de longa data, com expressão que remonta à própria série original, nos anos 60) e com os reman, povo do planeta irmão de Romulus, todavia antes tido como seres de uma casta “inferior”.

É a presença no poder romulano de um reman, que na verdade não é senão uma figura clonada de Jean-Luc Picard (fruto de um antigo projeto de espionagem) que desencadeia a trama, na verdade pouco ágil e digna de um episódio menor da série televisiva. Star Trek: Nemesis representou a estreia nos filmes da “next generation” da personagem que Will Wheaton tinha desempenhado em algumas épocas de produção. Contudo a montagem deixou-o quase invisível no filme. Um dos mais fracos da série, Star Trek: Nemesis foi também um dos menos bem sucedidos da série de toda a série. Depois fez-se silêncio (mas não por muito tempo)…

“Star Trek”
J.J. Abrams (2009)

Poucos imaginavam que, depois dos relativos “desaires” de Star Trek: Nemesis e do spin off televisivo Star Trek: Enterprise, a saga pudesse regressar. Mas regressou, com J.J. Abrams.

A ideia de regressar atrás no tempo, aos tempos em que os “heróis” da geração clássica da série estariam sob o foco das atenções não era propriamente uma novidade absoluta (e tinha havido mesmo uma ideia de uma possível série, ou filme, explorando o conceito de uma Starfleet Academy). Mas sob estas premissas J.J. Abrams, que até então tinha realizado o filme Missão Impossível III e era sobretudo conhecido como o criador da série Lost, criou aquele que, juntamente com o filme de 1979 de Robert Wise, faz o que de melhor Star Trek deu ao grande ecrã.

Um novo elenco e personagens rejuvenescidas levam-nos aos tempos em que os protagonistas ainda “estudavam” na Academia, com tudo ainda por fazer e glórias por conquistar. É por isso interessante o jogo que se estabelece entre o que sabemos de mais de 40 anos de vivência com a mitologia da série e a narrativa pessoal de cada uma destas personagens e uma história na qual, para todos os efeitos, tudo está a acontecer pela primeira vez. Um dos trunfos da abordagem de J.J. Abrams deve-se a esta capacidade de pensar o novo tendo em conta toda uma herança, estabelecendo assim um raro patamar de entendimento entre velhos admiradores e toda uma nova geração de potenciais espectadores.

Além disso, e como nos deixaria depois claro no magnífico Super 8, é um sagaz construtor de aventuras, adicionando aos ingredientes “clássicos” e temperos específicos do universo Star Trek uma lógica pensada nesse sentido, fazendo com que toda a artilharia de efeitos visuais sirva a história e não o contrário. Resultado: o reboot resultou. E Star Trek renascia com uma vitalidade que muitos não imaginavam já ser possível.

“Star Trek: Além da Escuridão”
J.J. Abrams (2012)

O segundo “episódio” Star Trek após a ordem para fazer “reboot” foi novamente assinado por J.J. Abrams e reafirmou a vitalidade da série num momento em que se sabia já que o realizador iria depois rumar a terreno Star Wars.

Estreado em 2009, Star Trek mostrou novo dinamismo e traduziu-se em resultados práticos bem evidentes. Contudo havia uma nova linha de acontecimentos em marcha já que, com ação anterior ao que a série original mostrara, o mundo criado por Gene Roddenberry entre 1966 e 69 não só tinha tinha nova vida com novos atores e imagens, como a mitologia assimilava agora os acontecimentos de uma cronologia com alguns dados novos.

Star Trek: Além da Escuridão respirou os mesmos ritmos e as linguagens do cinema de aventuras e de ficção científica do nosso tempo (mais intensa do que alguma vez usada em filmes da saga) mas não esquecia o legado histórico, procurando reativar as características de velhas personagens, concedendo contudo maior protagonismo a Uhura e fazendo do chefe engenheiro Scott o elemento de comic relief oficial do elenco.

Retomando a mitologia, mas dando nova narrativa aos factos, o filme retoma uma personagem surgida em 1967 e retomada (pelo mesmo ator, Ricardo Montalbán) no filme de 1982 Star Trek II: A Ira de Khan. A sua história é agora diferente e, interpretada por Benedict Cumberbatch, gera alguns jogos de espelhos entre as personagens de Kirk e Spock face às memórias do filme de 1982. O filme gerou controvérsia entre alguns admiradores mais, convenhamos, é um dos melhores de toda a saga.

“Star Trek: Além do Universo”
Justin Lin (2016)

Com o título Star Trek: Além do Universo (Star Trek: Beyond no original), o 13º filme da saga chega precisamente em tempo de assinalar os seus 50 anos. E se por um lado o faz mostrando imagens e personagens com boa ginástica e todo um historial mitológico devidamente vitaminado, a verdade é que o faz com um argumento que não parece mais do que o de um episódio estivado para ir além da hora certa e usa condimentos de ação, vertigem e efeitos visuais em detrimento de uma doseamento mais equilibrado com ideias e exploração das personagens, algo que sempre foi caro à essência mais clássica da série e que os dois filmes “reboot” de J.J. Abrams tinha compreendido.

A narrativa leva-nos ao coração de uma densa nebulosa na qual se esconde uma velha vingança dotada de poderes potencialmente destrutivos e que ameaça a paz galática de uma gigantesca estação espacial (uma das estruturas visualmente mais interessantes criadas nos tempos mais recentes pelo universo Star Trek). Apesar de bem lançada, a história vai dos zero aos cem num ápice, atingindo uma velocidade de cruzeiro no ritmo da ação, que não usa o travão senão quando chegam os créditos finais. Os alienígenas encaixam no quadro dos seres a que nos habituámos a ver nas séries, embora coloquem novos povos e ameaças em foco. Contudo, a trama de ação, suportada por pirotecnia digital pouco amiga da palavra “contenção”, esmaga outras fontes de interesse que a realização opta por não explorar.

Star Trek: Além do Universo é, assim, uma visão acelerada e ensopada em ação de um universo que, aos 50 anos, quer mostrar que tem juventude nas veias. Agarra a plateia durante duas horas até que se resolva e explique o sucedido (não é sempre assim?)… Mas depois fica tudo ali na sala, esquecido no ecrã. Servirá a bilheteira, sem dúvida. Mas não é um episódio para fazer história.

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1 Comment on “Star Trek”: as viagens no grande ecrã (13)

  1. O argumento tem um conceito base muito interessante, V’Ger – e revelar o seu segredo seria um spoiler – mas este revela-se um antagonista praticamente virtual e passivo. Intelectualmente a narrativa é puro Star Trek, com questões filosóficas, humanas e morais no centro, mas Robert Wise tenta o deslumbramento pelas coisas espaciais conseguido por Stanley Kubrick em 2001: Odisseia no Espaço onze anos antes. A banda sonora de Jerry Goldsmith, a espaços também algo datada, é no entanto épica e de antologia, mas as longas cenas de encantamento com os efeitos especiais, que certamente seriam admiráveis em 1979 numa sala de cinema, agora adormecem os sentidos quando revistas em casa num pequeno ecrã.

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