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Um mistério chamado Jai Paul

Texto: JOÃO PATRÍCIO

Revelado há já mais de cinco anos com o promissor “BTSTU”, Jai Paul é uma promessa já aclamada por muitos, mas ainda envolta em mistérios. 2016 pode ser, finalmente, o ano das respostas…

Para uns, Jai Paul é um nome que pode passar completamente despercebido. Mas para outros desperta um turbilhão de emoções. Irmão de A.K. Paul, Jai apresenta-se como um artista que atua de forma misteriosa no mundo da música, seja para contrariar a lógica de produção industrial, seja por simplesmente ser esse o seu modo de trabalhar.

Apesar de ser, dos dois, o mais conhecido, é A.K. quem tem produzido mais aparições nos últimos anos, nomeadamente ao lado da cantora NAO na canção So Good (2014), e mais recentemente em Trophy.

Mais de quatro anos passaram desde o lançamento do último tema de Jai Paul, Jasmine. E desde então o cantor e produtor, de 28 anos, tem andado praticamente arredado dos olhares públicos. Para perceber melhor o ponto da situação, vale a pena fazer uma breve viagem pela (ainda) curta carreira de Paul.

Um começo em escala
“Don’t fuck with me/ Don’t fuck with me”. Assim começa BTSTU, a primeira canção produzida por Jai Paul. A música fora produzida em 2007, mas agora o ano é 2010, e o mundo da música pop vibra com os primeiros singles de Born This Way de Lady Gaga, o álbum Loud de Rihanna, e com outros nomes como Katy Perry, Usher, e outros. Num contexto mais underground, Jai conseguiu ver o seu primeiro tema chegar às mãos de vários DJ do Reino Unido, entre os quais Zane Lowe, da BBC Radio 1. No fim do ano, a estação de rádio colocou o artista na lista Sound of 2011, ao lado de nomes como James Blake, Jamie Woon, Daley e Jessie J. Pela mesma altura, o cantor entra na mira de várias produtoras, mas é a XL Records que acaba por conseguir o contrato.

No ano seguinte, BTSTU é oficialmente lançado a 21 de abril e Lowe atribui-lhe o título de “Hottest Record In The World”. O tema acaba por ser samplado por dois grandes nomes da indústria musical. Em Dreams Money Can Buy, Drake pegou nos coros e no verso que faz o início de BTSTU e criou a sua própria interpretação. De forma mais subtil, muitos afirmam que Beyoncé pegou também no verso “Don’t fuck with me” e colocou-o repetidamente nos primeiros segundos de End Of Time.

Em 2012, Jasmine vê a luz do dia a 9 de abril. No espaço de um mês, a música foi reproduzida no Soundcloud cerca de 500 mil vezes. Jai Paul foi reconhecido por grandes publicações como o The Guardian, que o compara a Prince, o The New York Times e a Pitchfork, que faz remontar os leitores a Something About Us dos Daft Punk. Jasmine foi um sucesso de tal ordem que faz parte da banda sonora do jogo Grand Theft Auto V.

Em High Res, Jai Paul faz depois uma nova aparição no mundo da música. O tema pertence ao álbum Vicious Lies and Dangerous Rumours de Big Boi, e nele fez-se acompanhar de Yukimi Nagano dos Little Dragon.

O ano termina com um episódio um tanto caricato. Uma rádio do Reino Unido toca um bootleg de uma gravação a que a Internet passou a chamar Flip Out. Como seria de esperar, a qualidade sonora não é a melhor, mas mostra que o registo de Jai Paul mudara um pouco. A certo ponto da canção somos confrontados com o que parece ser um excerto da banda sonora de um filme, saltando ao ouvido uma orquestra de cordas… e um bando de corvos.

As grandes expectativas lançadas sobre o cantor levaram entretanto alguns a considerar Paul como um dos melhores artistas da década, apesar de ter apenas com dois temas lançados. Com Flip Out, chegou a gerar-se a hashtag #ifjaipaulreleasesanalbum. Apesar de já não constarem grandes registos no Twitter, ainda se podem ler algumas das promessas feitas caso surgisse o tão aguardado álbum de estreia.

Um álbum de estreia que não é um álbum de estreia
Sabendo pouco ou quase nada sobre Jai Paul, 2013 revelou-se o ano em que esse pendor misterioso poderia ter esmorecido. Em fevereiro a Internet delira com a fuga de uma mixtape, ou melhor, um conjunto de vários trechos que Jai foi deixando online nos últimos tempos.

Everlasting é composto por dez músicas, entre as quais Jasmine, BTSTU e Flip Out. Neste conjunto de faixas é ainda possível escutar vários trechos de possíveis demos, uma breve versão de Limit to Your Love de James Blake, e ainda um remistura de Jungle Drum de Emiliana Torrini. Multiplicaram-se as reações, como esta de Emeli Sandé no Twitter:

A grande bomba viria a explodir em abril, com o leak do suposto álbum de estreia. Publicações como a Fader ou a Pitchfork alimentam a situação, afirmando tratar-se efetivamente do aguardado álbum de Jai Paul.

Uma conta em nome do cantor publica um conjunto de 16 faixas no Bandcamp. Os downloads, independentemente se legais ou ilegais, disparam e, por todas as redes sociais, há uma explosão de entusiasmo. No alinhamento constam mais uma vez os dois temas oficialmente lançados no passado pela XL Records, e uns quantos temas de valor a destacar. Este que se diz ser um álbum homónimo contém uma versão de Crush, o êxito dos anos 2000 de Jennifer Paige, uma música com claras influências de Bollywood, intitulada Str8 Outta Mumbai, e outras quatro músicas (praticamente) finalizadas: Zion Wolf, Genevieve, Magic (ou Jewels) e All Night. O restante alinhamento é composto por excertos de música crua, ainda pouco trabalhada e com cortes bastante evidentes para se perceber que se trata de material que ainda não estava pronto para ser lançado.

No dia seguinte, Jai Paul responde ao hype através do Twitter, reportando que o que fora lançado não se tratava do seu álbum de estreia e que uma declaração oficial viria em breve:

A declaração viria por parte da própria editora dois dias mais tarde. A XL Records informou que as músicas foram ilegalmente publicadas numa conta falsa no Bandcamp. “Estas músicas não foram publicadas por Jai e não se trata do seu álbum de estreia” – pode ler-se – “é uma coleção de várias gravações inacabadas do seu passado”. Os pagamentos feitos na plataforma de música foram eventualmente devolvidos.

A peculiar situação fora explicada por Owen Meyers, editor da revista Fader, que escreve no Twitter acreditar que as músicas estavam guardadas no computador de Jai Paul, que lhe fora roubado.

Apesar do mistério e de não se tratar oficialmente de um álbum per se, o The Guardian considerou esta coletânea o 28.º melhor álbum de 2013, e a Pitchfork colocou-a na 20.ª posição do seu top 50 de melhores álbuns do mesmo ano.

Foi no seguimento destes acontecimentos que Jai Paul deu a sua primeira, e até agora única, entrevista. Em conversa para a revista Gazed, falou do lançamento do primeiro tema. O artista pensou que ninguém iria gostar de BTSTU e que ver a música divulgada fora um “orgulho”. “Eu nem estava preocupado em mostrá-la para alguém” – admite. Na mesma entrevista, falou da sua relação com a música e da assinatura com a XL Redords. Relativamente ao álbum de estreia, destaca a faixa A Light-Years Away From You: “É a minha favorita porque é ambiciosa” – revela. A música contém percussão de hip hop dos anos 90, guitarra Mowtoun e ainda um sample de Harry Potter no começo.

A poeira do suposto “álbum de estreia” assentou com o tempo, e Jai Paul varreu-se por completo do espaço mediático. Nos meses que se seguiram apenas apareceu esporadicamente em algumas publicações. Em junho de 2014, o produtor da XL, Rodaidh McDonald contou à Dazed que Jai estaria a trabalhar em música nova. Em declarações à revista, McDonald revelou ter estado a trabalhar com o artista numa canção que fora finalizada. Afirma ainda que Paul tem estado a trabalhar no seu álbum há anos.

No mesmo ano, Jai Paul apareceu no Instagram do cantor Miguel, juntamente com seu irmão, A.K. Paul.

Um regresso com data marcada?
2016 pode vir a ser marcado pelo regresso de Jai Paul à cena musical e mediática, bem como pelo levantamento de toda o mistério que paira sobre o seu nome. Juntamente com A.K. Paul, os dois irmãos criaram no passado mês de março um projeto conjunto, ao qual chamaram Paul Institute.

Ainda pouco se sabe sobre este “insituto”, se se trata de um grupo que junta Jai e A.K., ou se é uma produtora criada para reunir os lançamentos de ambos. O site começou por dar a possibilidade de registo através do número de telemóvel. O sistema, no entanto, apenas permitia a submissão de números de telefone de alguns países. O registo pode agora ser feito através do endereço de e-mail.

A partir deste Paul Institute, A.K. deu a conhecer o tema Landcruisin, disponível na sua página do Soundcloud. O tema foi lançado em vinil em 200 exemplares foram autografados pelo irmão de Jai, que publicou a seguinte fotografia na sua página do Facebook:

Envolto em mistério e com uma metodologia de trabalho muito própria, Jai Paul denota um gosto pelo perfecionismo, que o impede de lançar novos temas. A juntar a isso, a situação do lançamento do suposto álbum de estreia veio a arruinar a imagem sigilosa do produtor, expondo em demasia aquilo que por enquanto deveria estar guardado entre as paredes de um estúdio. Em entrevista à Rolling Stone, a NAO falou da forma de trabalhar os irmãos Paul, afirmando que ambos são “intencionalmente reservados”. A cantora revela ali que ambos demoram muito tempo a trabalhar na sua música, mas que lidam bem com isso. “Eles são apenas tipos normais que estão a tentar seguir o seu caminho sem jogar o jogo.” – confessa – “Eles estão apenas a fazer a sua cena e são perfecionistas”.

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