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Star Trek: em ‘warp’ furiosa

Texto: NUNO GALOPIM

Estreado em tempo de assinalar os 50 anos da saga, o novo “Star Trek: Além do Universo” aposta na ação e pirotecnia digital, ficando aquém dos dois filmes anteriores, assinados por J.J. Abrams.

Quando, depois do final discreto da série Star Trek: Enterprise e da estreia pouco estimulante do quarto filme centrado nas personagens e universos de Star Trek: The Next Generation, o silêncio se abateu pela primeira vez desde finais dos anos 70 sobre o mundo criado por Gene Roddenberry, muitos acreditaram que esta era uma saga a caminho de ser arrumada entre as memórias de arquivo. Nascido em 1966 (o primeiro episódio da série original foi transmitido pela televisão em setembro desse ano), o universo Star Trek tinha entretanto conhecido mais vidas e sucessos do que qualquer outra criação de ficção científica com berço televisivo. E seria justo que, mais de quarenta anos depois, chegasse a hora de repousar. Mas, chamando J.J. Abrams a bordo, Star Trek passou por uma operação de “reboot” e, entre 2009 e 2012, dois filmes que retomavam as personagens da série clássica, embora entregues agora a atores mais jovens, reativavam este mundo de ficção com dois dos seus melhores momentos na história do grande ecrã. Pelo caminho surgiu a ideia de um regresso à televisão, estando Star Trek: Discovery já em contagem decrescente para entrar em cena em 2017. E, enquanto o pequeno ecrã não desperta novamente para este espaço de ficção, o cinema acolhe o terceiro dos filmes da etapa “reboot”. Desta vez não é contudo J.J. Abrams quem está do outro lado da câmara, estando agora o lugar por conta de Justin Lin, ligado a vários títulos da série Velocidade Furiosa. E, infelizmente, isso nota-se.

Com o título Star Trek: Além do Universo (Star Trek: Beyond no original), o 13º filme da saga chega precisamente em tempo de assinalar os seus 50 anos. E se por um lado o faz mostrando imagens e personagens com boa ginástica e todo um historial mitológico devidamente vitaminado, a verdade é que o faz com um argumento que não parece mais do que o de um episódio estivado para ir além da hora certa e usa condimentos de ação, vertigem e efeitos visuais em detrimento de uma doseamento mais equilibrado com ideias e exploração das personagens, algo que sempre foi caro à essência mais clássica da série e que os dois filmes “reboot” de J.J. Abrams tinha compreendido.

É bem verdade que, após aquele frenético teaser original ao som de Sabotage, dos Beatie Boys (que tem uma presença com peso narrativo no filme), as expectativas estavam abaixo dos mínimos olímpicos e tudo parecia indicar que Star Trek estaria de regresso aos tropeções em série em que os filmes criados em volta deste universo viveram quando a tripulação a bordo da Enterprise teve Jean Luc Picard como comandante (e nada contra o excelente Patrick Stewart nem mesmo a série Next Generation, que teve até entre os seus episódios duplos melhores filmes do que os quatro que levou ao grande ecrã). O 13º Star Trek, mesmo não repetindo uma experiência nesse patamar do equívoco, está longe, bem longe, dos dois anteriores ou até mesmo daqueles que (salvo ao quinto filme, o pior de todos), tiveram a tripulação original como protagonista.

A narrativa leva-nos ao coração de uma densa nebulosa na qual se esconde uma velha vingança dotada de poderes potencialmente destrutivos e que ameaça a paz galática de uma gigantesca estação espacial (uma das estruturas visualmente mais interessantes criadas nos tempos mais recentes pelo universo Star Trek). Apesar de bem lançada, a história vai dos zero aos cem num ápice, atingindo uma velocidade de cruzeiro no ritmo da ação, que não usa o travão senão quando chegam os créditos finais. Os alienígenas encaixam no quadro dos seres a que nos habituámos a ver nas séries, embora coloquem novos povos e ameaças em foco. Contudo, a trama de ação, suportada por pirotecnia digital pouco amiga da palavra “contenção”, esmaga outras fontes de interesse que a realização opta por não explorar.

Star Trek: Além do Universo é, assim, uma visão acelerada e ensopada em ação de um universo que, aos 50 anos, quer mostrar que tem juventude nas veias. Agarra a plateia durante duas horas até que se resolva e explique o sucedido (não é sempre assim?)… Mas depois fica tudo ali na sala, esquecido no ecrã. Servirá a bilheteira, sem dúvida. Mas não é um episódio para fazer história.

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2 Comments on Star Trek: em ‘warp’ furiosa

  1. Apesar da magra narrativa há muito para apreciar em Star Trek: Além do Universo. Continua a haver uma alegria e entrega nas interpretações dos actores, uma banda sonora bombástica de Michael Giacchino, e uma combinação equilibrada de jargão técnico, conceitos de ficção-científica e sentido de espectáculo. E o que dizer da incorporação de Sabotage, dos Beastie Boys, usada nas cenas iniciais do reboot de Abrams, na lógica narrativa do filme? Desapropriado, dirão uns. Genial, afirmo eu! Não seria propriamente isto que Gene Rodenberry imaginou quando criou a sua série televisiva, mas sem conflito não existem boas narrativas, e sem um apelo mais generalista não existem resultados financeiros. J.J. Abrams compreende isto melhor que ninguém e, enquanto estiver ao leme deste empreendimento, sinto que estamos em boas mãos para o acompanhar nesta aventura.

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