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Seis histórias dos Clã com banda sonora

Desafiámos os seis elementos dos Clã a contarem histórias pessoais que se cruzassem com canções da sua discografia… Uma a uma, aqui vão surgir… Hoje é a vez do Pedro Biscaia.

“No Metro”
por MANUELA AZEVEDO

Há uns anos atrás, numa tarde solarenga, apanhei o metro na estação do Bolhão para regressar a casa. Sentei-me junto à janela, para aproveitar o sol, e pus os auscultadores para fazer uma viagem com uma banda sonora mais agradável do que a voz feminina que, maquinal e monotonamente, anuncia, em português e inglês, cada paragem do trajecto e qual o sentido (direction) da viagem.

Umas estações depois, sentou-se alguém à minha frente. Ergui os olhos e encontrei um rosto sorridente e simpático dum jovem moço, com 17/ 18 anos. Sorri de volta e voltei a olhar pela janela e a concentrar-me na música que ouvia. Durante a viagem, aconteceu, uma ou outra vez, voltar a cruzar o olhar com o rapaz à minha frente e encontrava sempre o mesmo sorriso franco, ligeiramente embaraçado. “Que bom que é cruzarmo-nos com gente sorridente!”, pensei. E voltei à música nos auscultadores e à paisagem na janela.

De repente, tocam-me no braço. Era o meu companheiro de viagem que queria falar comigo. Tirei os auscultadores – “Sim?”, perguntei.

“Desculpe, não queria incomodá-la… Mas, saio na próxima paragem e não queria ir-me embora sem agradecer do fundo do coração aos Clã e à Regina Guimarães por terem feito a canção Arco-Íris. É muito importante fazerem canções assim! Muito obrigado! Felicidades!”

Meia atordoada, balbuciei alguns agradecimentos – “Que bom! Fico feliz! Também gosto muito dessa canção!…Felicidades para ti também!..” – enquanto ele, sempre sorrindo, se apressava para sair do metro. Ficou na estação, a acenar, enquanto o metro partia. E eu esqueci os auscultadores e trauteei “para dentro”:

Amar sem olhar a quem
Não é tara nem defeito
Amar sem olhar a quem
Amar a torto e a direito

E foi esta a banda sonora até ao fim da viagem.

Podem ouvir aqui:

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“Boabiiiistaa!”
por MIGUEL FERREIRA

Tenho uma profissão incrível!

Faço o que gosto, gosto dos ensaios, gosto do trabalho de estúdio, gosto dos concertos, gosto das viagens, gosto de conduzir, gosto de reencontrar pessoas nos sítios onde tocamos, gosto de ser músico.

No entanto, como em todas as profissões, há dias em que ficava bem era em casa.

E lembrei-me de partilhar um desses (poucos) dias em que saí um bocado contrariado de casa para ir tocar.

Sou adepto do Boavista desde o dia em que o meu pai me levou a ver um Boavista-Riopele, que acabou com o resultado 7-0, tinha eu 5 anos.

Mesmo que o resultado tivesse sido menos espectacular, acredito que teria seguido na mesma a linha familiar de grandes boavisteiros.

Sendo adepto de um clube de dimensão média, todas as pequenas conquistas sempre foram vividas de maneira muito intensa, primeiro pela escassez desses momentos, segundo porque sempre me senti parte delas tal era o apoio que sempre foi dado à equipa nos jogos em casa.

Em 2001, e na sequência das boas épocas anteriores, o Boavista chegou-se aos lugares de cima do campeonato, e na penúltima jornada tinha a hipótese de ser campeão nacional caso vencesse o jogo em casa contra o Desportivo das Aves.

Era uma coisa que nunca pensei ser possível acontecer e naturalmente queria estar presente no Estádio do Bessa nesse jogo.

Pois como seria de esperar no mês de Maio (o mês das queimas das fitas) no ano de 2001 (ano da tournée do Lustro, recheada de concertos), tinha uma data marcada para esse dia.

E não era perto, era a queima de Faro, a cidade mais longe do Porto que se conseguia para uma queima de fitas.

Lá saí eu de casa com o meu mau perder rumo a Faro, levando comigo a camisola do clube na mala, para também fazer parte do mini S. João que haveria nessa noite no Porto.

O resto é conhecido, o Boavista foi campeão, a festa aconteceu no Porto, e eu a 500km a festejar pelo telefone com o meu pai e amigos de camisola vestida.

Mas as coisas acontecem sempre de forma melhor do que imaginamos e o concerto foi também ele uma pequena comemoração, com direito a gritos de BOABIIIIIIISTAA por parte de alguns estudantes.

A música que associo a este momento é a versão que fizemos da canção do Sérgio Godinho, Espectáculo.

Não pelas razões óbvias (campeões! que espectáculo!), nem por ter a frase “quando tu me vires no futebol”, mas porque o primeiro concerto dessa noite foi do sr. Godinho e sua banda, formada por bons amigos, que ajudaram a engrossar a família presente nessa noite tão especial para mim.

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“Como Um Beatle”
por FERNANDO GONÇALVES

Os músicos da nossa geração certamente cresceram com as imagens dos Beatles e dos Rolling Stones em que o mote nas aparições ao vivo, eram os gritos das adolescentes histéricas a puxar pelos cabelos e a desmaiar, com a emoção de estarem perto dos seus ídolos, ou então já não comiam há algum tempo…

Talvez, qualquer músico, consciente ou inconscientemente tenha o desejo de passar por essa experiência de “adoração incondicional” (seja lá o que isso for) por parte do público.

A verdade é que os Clã tiveram algumas oportunidades de se sentirem no mínimo abraçados por um público caloroso e dedicado, como por exemplo, na Aula Magna ou nas Noites Ritual, que cantava emotivamente em coro o Problema de Expressão.

Lembro-me também de gente a perder de vista numa das nossas aparições no Festival do Sudoeste (talvez no primeiro que fizemos). A linha do horizonte era feita de cabecinhas a abanar e parecia que era com a nossa música.

No entanto, para mim só houve uma situação que me fez sentir como provavelmente os Beatles se sentiram com a gritaria.

Muitas vezes, quando tocamos o Asas Delta lembro-me do dia 4 de Maio de 2011. Concerto de apresentação do nosso então estreante álbum Disco Voador na Casa da Música no Porto.

A plateia, a rebentar pelas costuras, era maioritariamente composta por crianças a aguardar a nossa entrada em palco. Nos camarins já se ouvia uma espécie de zumbido proveniente das muitas vozinhas excitadas na plateia.

Quando chegou o momento de entrarmos em palco, a única coisa que me lembro foi a de ter levado as duas mãos aos ouvidos, perplexo com o volume nunca antes ouvido por mim, de centenas de crianças aos gritos, tal como no Shea Stadium.

Sem as emoções contidas, com a frontalidade das crianças, o espetáculo iria começar. Senti-me um Beatle!

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“Fim de semana alucinado”
por HÉLDER GONÇALVES

Sudoeste/ Graciosa – que trip!

Esta é a história dum fim de semana alucinante, sem ajuda de cogumelos ou qualquer outra substância proibida.

Em 2004, em plena digressão do Rosa Carne, após um belo concerto em Lagos, diverti-me a brincar com o filho mais velho do nosso baixista, que estava na altura, ainda sem se saber, com varicela. Quando, uns dias depois, foi conhecido o diagnóstico (e porque, segundo o meu boletim médico, já tinha tido essa doença em miúdo) não me preocupei.

A digressão continuou – Cartaxo, Mondim de Basto, Guimarães, Carviçais – e, 15 dias depois, chegámos ao Festival Sudoeste.

Nessa tarde, comecei já a sentir umas comichões. Melgas alentejanas, pensei eu. À hora do concerto, comecei a ficar com suores. Nada anormal com o calor que se fazia sentir… Findo o concerto, seguimos para Lisboa, pra dormir “pouquinho” antes de voarmos, ainda pela madrugada, para a Graciosa (Açores).

Durante a viagem, que incluiu escalas e muitas horas à seca, comecei a perceber que algo errado se passava, e que não era só por estarmos quase de directa. Por isso, quando cheguei à Graciosa, fui ao centro de saúde onde me diagnosticaram varicela… outra vez! Bem, parece que em pequeno o que eu tive foi uma variante qualquer da doença, com os mesmos sintomas. Conclusão, acabei por fazer o concerto, com a temperatura a estalar. E, talvez devido a esse estado febril, a minha memória desse fim de semana é completamente difusa e confusa.

A somar a isto tudo, talvez tenha sido um dos maiores contrastes de palcos na nossa carreira: do Festival Sudoeste (em grande, milhares de pessoas, palco gigante, grande som), para as Festas da Graciosa, num palco minúsculo, um P.A. meio avariado, mas com pessoas maravilhosas à frente (segundo me contam).

Neste carrossel todo em que me senti muito esquisito, a banda sonora só podia ser o Carrossel dos Esquisitos.

Ao relembrar esta história, fiquei a pensar como é incrível que, com quase 24 anos de carreira e (pelas nossas contas) uns 653 concertos, só uma vez, por motivos de saúde, tivéssemos que cancelar um concerto…

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“Vilar de Mouros, 2001”
por PEDRO RITO

Em 2001 fomos convidados a tocar no festival Vilar de Mouros.
Foi um ano bom.

Era a digressão do Lustro, o álbum tinha tido uma aceitação boa e andávamos a tocar muito. A banda estava bem rodada e os concertos corriam muito bem.

Para além de irmos tocar no palco principal, iríamos partilhá-lo com o Beck e com o Neil Young. Privilégio raro.
Estávamos entusiasmados e sentia-se nas pessoas e no ambiente uma energia especial.

O nosso concerto correu muito bem. Lembro-me que choveu e que isso ainda mais nos motivou. Uma espécie de Woodstock à portuguesa e ainda por cima com chuva.

Guardo na memória as imagens da Manela toda encharcada aos saltos e nós no mesmo registo a não querer saber das implicações eléctricas da coisa…

Umas das coisas boas de tocar nos festivais é podermos ter acesso mais de perto aos artistas que admiramos. É, por exemplo, poder assistir aos concertos dentro do palco e perceber todas as movimentações do espectáculo.

Assim fizemos, claro…

Lembro-me que o Beck estava em final de tournée e, talvez por isso, um pouco cansado. Foi um bom concerto mas não daqueles que nos enchem as medidas.

Faltava o velhinho…

E o que se passa é que há uma espécie de artistas que têm não sei o quê que fazem deles coisas especiais…

Era o caso do Neil Young.

Claro está, à hora marcada fomos para o palco para ver o “homem” de perto.

E de repente, fomos todos envolvidos por uma espécie de energia não habitual. Começou a chegar toda a equipa, eram todos velhinhos, todos hippies… como se teletransportados dos anos 60 para ali. Tudo muito cool, boa onda, serenos e sorridentes.

E depois chegou o Neil Young e os Crazy Horse…e pronto. Quem lá esteve sabe como foi. Quem não esteve que estivesse.

O concerto foi fabuloso, dos melhores a que já assisti.

Mas o detalhe que me fez lembrar escrever sobre isto tem a ver com o que se passou depois do concerto.

Nos bastidores do festival existiam uma série de duches ao ar livre. Eram daqueles tipo parte de campismo abertos em cima.
Julgo que são lá colocados para uso de quem quiser, desde que tenham acesso ao backstage, mas que eu me lembre nunca os vi serem utilizados.

No entanto, no final do concerto, ainda meio abanado, completamente feliz por ter assistido àquele concerto e enquanto deambulava pelos bastidores, reparei que naquela mancha habitualmente vazia, um dos duches estava a ser utilizado.

E sim, era o Neil Young que, sozinho e completamente descontraído, tomava um duche ali mesmo. Adorei, achei o detalhe lindo…

A música para esta história não poderia ser outra que não o Fahrenheit, o nosso hino aos festivais.


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“Em 1998”
por PEDRO BISCAIA

Em 1998, o festival Super Bock Super Rock ia para a sua quarta edição e foi organizado no âmbito da Exposição Universal de Lisboa, Expo’ 98. Reflexo do bom período que se vivia em Portugal na altura, longe ainda das crises posteriormente instaladas e próximo da introdução do euro, a atmosfera sentida era vibrante. As pessoas, vindas de todos os cantos do país, sorriam pacientemente nas filas para visitar os pavilhões ou para assistir a um qualquer espectáculo integrado na programação do evento, ocupavam esplanadas e jardins, divertiam-se a escapar dos vulcões de água imprevisíveis.

Os Clã estavam num ano fabuloso com uma agenda de espectáculos que tinha mais do que triplicado relativamente aos anos anteriores, estendendo a digressão do álbum Kazoo por muitas paragens.

Lembro-me de estarmos a atravessar, vindos de sul, a recentemente inaugurada ponte Vasco da Gama, deslumbrados com a sua imponência e extensão, tendo como cenário de fundo o Parque das Nações, onde tentávamos adivinhar as suas diversas construções propositadamente construídas para o efeito, discorrendo sobre as mais ou menos valias arquitectónicas versus o custo das mesmas.

Excitados por todo este cenário digno de uma próspera capital europeia, chegámos ao recinto e mais concretamente à Praça Sony, espaço amplo em anfiteatro com o seu imponente ecrã Jumbotron, onde iria decorrer este festival e para onde estavam reservados os eventos mais concorridos da exposição.

O alinhamento da noite era constituído pelas apresentações dos Zen, Clã, Spiritualized, Van Morrison, Ala dos Namorados, para além de vários DJs, apresentando-se naturalmente lotado pela hora de início das festividades. Depois dos Spiritualized, subimos nós ao palco donde se podia ver a imensa multidão atenta e com vontade de se divertir, deixando-nos um pouco intimidados mas com muita vontade de tocar e encantar. Nunca tínhamos tido semelhante audiência! Já não me lembro da set list preparada, seria concerteza dominada pelos temas das nossas duas únicas edições discográficas da altura e mais uma ou outra versão, mas quando tocámos o Problema de Expressão, tema ainda recente em fase de crescimento, algo de extraordinário aconteceu: um coro de imensas vozes a cantar a plenos pulmões fez-se ouvir logo do início, acompanhado das milhares de bamboleantes luzinhas da praxe erguidas, levando a Manuela a estratégicas pausas na sua interpretação, tornando o momento único. Mais: foi difícil esconder a emoção e uma ou outra lágrima, minhas pelo menos, algo com que não estava a contar e me marcou profundamente. O concerto prosseguiu e foi um dos mais memoráveis para mim, para os meus amigos de palco e para a grande maioria de quem lá esteve a assistir. É o que consta!

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