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E o jazz começou a chegar ao teatro e às salas de concerto

Texto: NUNO GALOPIM

Um ‘ensemble’ nova-iorquino apresenta em disco uma série de obras de Gerswhin estreadas nos anos 20 e pelas quais passam sinais de interesse do compositor pelas formas do jazz.

A música de George Gershwin (1898-1937) representa uma das mais notórias primeiras provas da quebra de barreiras entre o “popular” e o “erudito”, tão cara que era ao público da Broadway quanto ao que aplaudia as suas obras para sala de concerto no Carnegie Hall.

Filho de Nova Iorque, captou como poucos a intensidade da revolução que a cidade vivia num início de século que assistia a uma explosão de acontecimentos. As luzes da cidade, o seu perfil cosmopolita, o cruzamento de culturas de que era palco, moram nas obras que nos deixou. Nascido numa família de emigrantes chegada a Nova Iorque na década de 90 do século XIX, Gershwin descobriu o piano quando este chegou a casa, em 1910 e desde então passava mais horas ao teclado que na rua, com os amigos. A débil economia familiar forçou-o a deixas a escola aos 15 anos, encontrando emprego ao serviço de uma editora musical de Tin Pan Alley. O seu trabalho consistia em tocar e cantar os temas em partitura aos cantores e empresários da cidade.

Foi numa dessas ocasiões que conheceu o jovem Fred Astaire, que vira a ser um dos seus grandes intérpretes. O conhecimento dos mecanismos em modas do mundo da música pop(ular) da época abriu as portas às canções que começou a escrever, com letras do irmão mais velho, Ira. Ao mesmo tempo, aulas privadas de piano permitiram-lhe desenvolver um mais profundo conhecimento das técnicas clássicas. Com o melhor dos dois mundos na mão, estreou-se publicando uma primeira canção em 1916, em 1922 apresentando um musical em um acto na Broadway. A cidade que aprendera a escutar e agora traduzia em música acolhia-o.

O disco agora editado tem como peça central o Concerto para Piano em Fá, estreado no Carnegie Hall em 1925, claramente composto na sequência do clássico Rhapzody In Blue (estreado um ano antes), ambas as obras sob evidente tempero jazzístico. Apesar de merecedor na época de menos entusiasmo crítico que Rhapzody in Blue, o Concerto para Piano é mais um exemplo da incrível versatilidade cromática (e narrativa) da música de Gershwin, cruzando com mestria sinais de presença de charleston, atmosferas nocturnas para piano e, no último andamento, um verdadeiro festim rítmico.

O alinhamento deste disco, que tem como protagonistas o Harmonie Ensemble, dirigido por Steven Richman, e que conta com Lincoln Mayorga (piano) como solista na sua peça central, inclui ainda o poema sinfónico An American In Paris (1928), que inspiraria anos depois o filme homónimo de Vincente Minelli, a abertura do musical Off Thee I Sing (1931) e uma versão orquestral dos Três Prelúdios (1926), sob arranjos de Roy Bargy. Por todos eles passam sinais de um tempo em que a música criada para os palcos de teatro e salas de concerto começou a escutar e a assimilar os ecos (contemporâneos) do jazz.

George Gershwin “An American In Paris, Concerto In F”, pelo Harmonie Ensemble e Lincoln Mayorga (piano), sob direção de Steven Richman, está editado em CD e disponível em plataformas de streaming em lançamento da Harmonia Mundi.

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