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Uma história simples

Texto: NUNO CARVALHO

‘Carneiros’, a segunda longa-metragem de ficção do islandês Grímur Hákonarson, é um retrato plácido e de uma natural simplicidade, por vezes pontuado por um humor seco e amargo, mas que comporta também um lado sentimental que o torna comovente e humano.

Não será certamente alheio ao prémio Un Certain Regard, que Carneiros, do islandês Grímur Hákonarson, ganhou no Festival de Cannes 2015, o facto de o júri que o atribuiu ser presidido por Isabella Rossellini. Isto porque nele há uma certa sensibilidade lynchiana, nomeadamente a que deu origem a Uma História Simples (1999), e sabendo nós que a atriz ítalo-americana faz parte da “família Lynch”. De facto, também neste filme, frio pela geografia agreste e invernal mas humano pela alma melancólica e sentimental que vamos descobrindo por trás de espessas camadas de gelo, a história se centra em dois irmãos desavindos de repente obrigados a tentarem uma reconciliação na sequência de um acontecimento dramático. No caso de Carneiros, a conspiração do destino para reaproximar os irmãos que não se falam é um vírus que ameaça os seus rebanhos de carneiros.

O filme conta a história de Gummi (Sigurdur Sigurjónsson) e de Kiddi (Theodór Júlíusson), dois irmãos solteiros e criadores de carneiros, animais que estimam e pelos quais sentem ternura, que vivem lado a lado em quintas isoladas num vale do norte da Islândia, mas que deixaram de falar um com o outro há quatro décadas. Um dia, após um dos carneiros de Kiddi ganhar um concurso, Gummi descobre que o animal foi atingido por um vírus que lhe afeta o sistema nervoso central e que se pode propagar. Gummi faz soar o alarme sanitário, trazendo à região um grupo de veterinários que tencionam abater todos os carneiros das imediações, oferecendo uma quantia em dinheiro por cada animal sacrificado. No entanto, se essa desgraça comum é pretexto para o reatar de relações entre os irmãos, ambos ficam também divididos perante o possível destino dos seus adorados carneiros, com os quais têm uma relação quase paternal, tendo em conta que são a sua única companhia no silêncio do vale coberto de neve.

Carneiros é um retrato plácido e de uma natural simplicidade, por vezes pontuado por um humor seco e amargo, mas que comporta também um lado sentimental que o torna comovente e humano. De resto, há neste conto simples quase uma lógica de teodiceia rural, com a doença dos carneiros a surgir como um acontecimento que, embora triste e doloroso, pode levar afinal a uma reconciliação fraternal. Tal como o collie de Gummi, que vai entregar solicitamente cartas a Kiddi, também os carneiros inspiram ternura e são afinal pontes de afetos onde os rigores invernais dos corações orgulhosos dos dois homens erodiram os elos de ligação.

Carneiros
De Grímur Hákonarson
Com Sigurdur Sigurjónsson, Théodor Júlíusson, Charlotte Bøving
Leopardo Filmes

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