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Deliciosamente fora de moda

Texto: NUNO GALOPIM

Dezoito anos depois do magnífico “Fin de Siècle”, Neil Hannon reencontra em “Foreverland” uma pop orquestral inspirada naquele que é o seu melhor disco desde o início deste século.

Há já algum tempo que não ouvia um álbum de Neil Hannon capaz de despertar entusiasmo. Mas convenhamos que não era tarefa fácil criar sucessores para aquele par de obras-primas lançadas em finais dos anos 90 – A Short Album About Love (1997) e Fin de Siècle (1998) -, o que não quer dizer que não tenham sido igualmente entusiasmantes os episódios de descoberta e confirmação que, após uma quase inconsequente estreia em 1990, colocaram os Divine Comedy no mapa do melhor da música dos noventas entre Liberation (1993), Promenade (1994) e Casanova (1996). Mas depois a coisa não foi fácil. Regeneration (2001) tentou um flirt menos estimulante com linguagens elétricas e Absent Friends (2004) retomou os passos de finais dos noventas, embora num quase piloto-automático (que, para Neil Hannon, convenhamos, é bem melhor do que o estado de empenhada concentração de muitos outros). Seguiram-se dois álbuns menores em 2006 e 2010, ficando o melhor do trabalho de Hannon destes últimos anos alheado da assinatura Divine Comedy. Foreverland vem agora repor os valores onde em tempos as coisas caminhavam. E dá-nos o seu melhor disco desde aquele que cantou o fim de século há 18 anos. Sim… passaram 18 anos!

Deliciosamente fora de moda, e bem mais distante de eventuais ligações a acontecimentos em curso (nos noventas, a dada altura, houve quem se esforçasse por arrumá-lo, sem muita razão, entre a multidão brit pop), este é um disco feito de uma sumptuosidade pop que a obra de Neil Hannon há muito sabe digerir e moldar a seu favor. E se o single de avanço Catherine The Great não parecia senão um remake pouco ginasticado de formas dos tempos de Casanova, na verdade o restante alinhamento revela um festim de acontecimentos que vão desde a face operática mais eloquente de Hannon a visitas a vários trilhos possíveis em terreno pop, mostrando o novo single, How Can You Leave Me On My Own como uma tradição beatlesca pode cruzar genéticas com um classicismo orquestral para traduzir a essência do momento em que reencontramos (e novamente revigorados) os Divine Comedy.

Há uma atmosfera retro a respirar uma brisa não opressiva sobre um alinhamento que chega a experimentar heranças do teatro musical no dueto com Cathy Cathy Davey em Funny Peculiar ou o sentido nostálgico, que vai bem para lá da era da cultura pop/rock, em I Joined The Foreign Legion (To Forget)… E, depois, entre canções que falam de amores (e das suas convulsões e derrocadas), há todo um quadro de palavras que reativam o sentido de humor que há muito Neil Hannon usa nas palavras, das que canta às que enuncia quando nos fala. E quase no fim, em A Desperate Man, mostra um trabalho de arranjo orquestral que o coloca em sintonia com o que Anna Meredith ou Meylir Jones nos revelaram em discos já deste ano ou que, recentemente, no Royal Albert Hall, assinalaram uma homenagem a David Bowie (na qual Neil Hannon participou).
Uma bela surpresa… E, sim… Temos um Neil Hannon revigorado, ainda criativo e entusiasmado de regresso aos discos. E com o primeiro grande álbum da rentrée.

The Divine Comedy
“Foreverland”
Divine Comedy Records
★★★★

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