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Fragmentos de Nova Iorque

Texto: NUNO GALOPIM

Numa das mais surpreendentes estreias recentes, “Onde Todos Observam”, de Megan Bradbury, cruza a realidade e a ficção num mosaico vibrante que tem Nova Iorque por protagonista.

Pormenor da iustração de Lord Mantraste usada na capa do livro

As histórias das cidades são a soma das histórias daqueles que as fazem e habitam. E é por isso que, mesmo tomando Robert Mappelthorpe, Walt Whitman, Robert Moses e Edmund White como personagens principais de Onde Todos Observam (Elsinore, 2016), a escritora Megan Bradbury faz afinal de Nova Iorque a protagonista maior deste seu romance de estreia, um mosaico de pequenas histórias, de fragmentos de acontecimentos, de olhares breves (mas atentos), que fazem escutar a respiração e sentir a pulsação da cidade que nunca dorme.

Sinais de um tempo de disponibilidades curtas e de hábitos de consumo mais dados a fragmentos que a objetos mais extensos, Onde Todos Observam tece um conjunto de pequenos capítulos, por vezes quase vinhetas, que nos fazem saltar constantemente entre personagens e épocas, entre os respetivos universos, demandas, preocupações e desejos, entre si entrelaçando-se as linhas pelas quais Megan Bradbury desenha a sua Nova Iorque. Não é exatamente a cidade das ruelas laterais e dos lugares menos óbvios que em tempos Joseph Mitchell registou em algumas das mais deliciosas prosas com Nova Iorque por cenário. Mas, como na escrita desse repórter dos anos 30 e 40, Megan Bradbury não procura aqui nem os postais ilustradas nem as figuras de visibilidade maior que nos contariam o que já todos antes tínhamos visto. E é na escolha das personagens que, desde logo, lança um olhar que deixa claro que esta é a sua visão de Nova Iorque, deixando para outras figuras e outras histórias as muitas outras de um lugar que nunca se resolveria num punhado de páginas.

Seguimos, na reta final do século XIX, Walt Whitman em passeios que faz pela cidade na companhia do seu biógrafo. Mais adiante, nos anos 20, Robert Moses vai-nos dando a conhecer as visões que tem para a cidade que ele mesmo quer mudar. Em finais dos anos 60, com Robert Mapplethorpe (e, a seu lado, Patti Smith), notamos como a vida ali é acelerada, em percursos que ora nos fazem olhar (como ele) para os corpos e escutar ecos de vozes que em tempos passaram pelo Chelsea Hotel. E, mais perto do nosso tempo, em 2013, acompanhamos Edmund White numa jornada de reencontro do escritor com os seus dias de juventude (lembrando a descoberta, sobretudo, da sua sexualidade). A estes quadros o livro junta outros, igualmente fragmentários, de obras que ajudaram a traduzir a vida da cidade ou a construir a sua alma feita de multiculturalidade e diversidade. Entram aqui em cena Patti Smith (e Steven Sebring, o autor do documentário sobre a cantora), Laurie Anderson ou Nan Goldin, somando formas, sons, cores, que assim acrescentam pontos aos contos.

Nascida nos EUA, mas educada no Reino Unido, onde em 2005 se licenciou, especializando-se em escrita criativa, Megan Bradbury faz destes retratos de Nova Iorque um corpo que respira não apenas a vida da cidade como o entusiasmo com que podemos partilhar o legado daqueles que chamou para serem as suas personagens.

No fim talvez fique em nós a sensação de como há aqui uma reflexão estratégica sobre gestão de ferramentas da escrita, feita por alguém que conhece as tendências atuais do gosto de quem lê (e daquilo que hoje somos), não só explorando no melhor sentido as formas do texto curto como experimentando o diálogo entre o real e a ficção (que é, afinal, uma das grandes tendências do cinema do presente). Mas, afinal, não deve a escrita traduzir também quem somos, onde estamos e o que fazemos? E, mesmo com mais figuras de outros tempos do que de agora, esta é uma Nova Iorque que nós todos podemos sentir em 2016. E que sabe bem (re)descobrir.

“Onde Todos Observam”
De: Megan Bradburuy
Tradução: Marta Mendonça
Elsinore, 281 páginas.

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